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segunda-feira, 24 de junho de 2013

DIZ-SE QUE “CADA POVO TEM O GOVERNO QUE MERECE”. SERÁ VÁLIDO ESSE ADÁGIO?

Não  venda o seu voto, seja honesto!

Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br
Bancaremos nestes comentários alguns acoplamentos fatuais a propósito da denúncia do jornal New York Post sobre famílias novayorquinas abastadas que subornam pessoas portadoras de deficiência a fim de se passar por seus parentes, mirando esquivarem-se das longas filas no parque de diversões da Disney(1), em Orlando, na Flórida. “O periódico acusa os ardilosos membros de grupos familiares americanos que permanecem no máximo 1 minuto para ter acesso às atrações do parque, enquanto as outras pessoas esperam mais de 2 horas.” (2) Infelizmente a defecção moral abrange a corrupção de costumes, a falta de caráter individual ou coletivo, o desleixo administrativo ou governamental, a falta de solidariedade social, a indiferença pela sorte alheia ou pelos interesses públicos.
Sem tanger  especulações impróprias sobre a insinuação do New York Post, afirmamos que qualquer semelhança com fatos e pessoas no Brasil não é mera coincidência. Nem é preciso fazermos um esforço descomunal de raciocínio a fim de identificar semelhanças cabais. Habituamos aquilatar negativamente assaltantes vigaristas, homicidas, encarcerados ou ex-detentos de forma geral. Todavia, será que fora das prisões há superávit de cidadãos honestos? Quantas vezes compramos produtos de origem duvidosa para sonegar impostos? Quantas vezes devolvemos o troco que o caixa do supermercado nos deu a mais? Quantos mecânicos de automóveis, técnicos de geladeiras, de televisão, máquinas de lavar, de computadores, ludibriam  para cobrar mais caro?
Quantas vezes estacionamos na vaga de idoso ou deficiente sem sermos um idoso ou deficiente? Quantos usam de sua autoridade para anular multas de trânsito? Quantos bebem alcoólicos e assumem a direção de veículo nas estradas? Não assombra que administradores se apropriem das verbas publicas, e que empresários demitam empregados para ter lucro máximo.
Em que pese a angústia coletiva da população brasileira, envolta atualmente pelo manto da conturbação, da ausência de justiça social, da descrença nas instituições do estado, é urgente a promoção de uma reforma de base moral generalizada. Mister se torna uma mudança visceral na cultura da desonestidade. Mudança de comportamento na base da massa popular que costumeiramente elege seus representantes a custa de negociata do próprio voto, dos legisladores que comercializam a honradez a fim de aprovar leis espúrias, dos juízes descompromissados com as vozes dos justos e dos (ir) responsáveis do (des) governo da administração estatal.
Nesse fatídico cenário é imperioso que se restabeleçam os valores da ética, da solidariedade, do amor e que se revitalize a reputação e o caráter de cada cidadão. Até porque a escassez de ética, sobretudo governamental que ora vigora no País, está fundada em valores (escusos), e se esvai através de um ethos compatível para vigorar, a saber: o cinismo ideológico das “autoridades” autoritárias que administram a nação, a inumanidade e as mentiras consentidas, o enriquecimento ilegítimo de alguns carismáticos líderes políticos.
Com os escândalos divulgados pelas mídias, constata-se um entrelaçamento crescente e preocupante da administração pública com as atividades delituosas, mediante um sistêmico processo de pressões, chantagens, tráfico de influência, intimidações e putrefações morais, com a prática do suborno e da propina, dentre outras falcatruas morais inimagináveis. "A violência urbana é reflexo natural dos que administram gabinetes luxuosos e desviam os valores que pertencem ao povo; que elaboram leis injustas, que apenas os favorecem; que esmagam os menos afortunados, utilizando-se de medidas especiais, de exceção, que os anulam; que exigem submissão das massas para que consigam o que lhes pertence de direito... produzindo o lixo moral e os desconsertos psicológicos, psíquicos, espirituais ".(3)
Nessa instável conjuntura, o cidadão de bem não pode conservar-se na inércia. Precisa reivindicar e batalhar pela rejeição da improbidade através do uso do voto consciencioso e dos exemplos de decoro. Não pode jamais esmorecer o ideal do bem. Precisa contrapor a institucionalização do mal que se faz através da arbitrariedade, da corrupção, da irresponsabilidade, da irracionalidade administrativa, da inversão dos valores morais.
Há os que desejam fazer do País a "casa-da-mãe-Joana", uma“terra de ninguém”. Nas atuais mobilizações populares assistimos atônitos os vândalos devastarem com selvageria os patrimônios públicos e privados. São seres dementes,avessos à civilidade, que acreditam não haver leis para regular suas sanhas criminosas. O País carrega uma história promíscua. A prática da rapinagem tem-se repetido através dos séculos nas plagas do Cruzeiro do Sul. Isso inspirou o Patriarca da Independência (José Bonifácio), reencarnado como Rui Barbosa (segundo o Espírito Humberto de Campos), a lançar o clamor de indignação ao deparar com todas as tramoias cometidas: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto." (4)
As estatísticas consagram ao Brasil a liderança do ranque dos Países campeões mundiais em corrupção, fazendo associação a determinados Países africanos em estágio primitivo. Que tipo de ambição exorbitante e estúpida está na base da deficiência de caráter capaz de olvidar todos os escrúpulos para com a consciência e arremessar-se tão sagazmente no cofre do Estado? Não somos o primeiro, o único ou o último a anunciar esse séquito de vícios, contudo a mídia, frequentemente, noticia e expõe tais fatos francamente execráveis e com grande repercussão.
Cumpre ao cidadão de bem afirmar a primazia da ética na inspeção da administração pública, por ser a instância fundante do valor dos preceitos da governabilidade: o interesse prioritário da população. E os governantes precisam “assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias.”(5) Até porque a Carta Magna do País consigna que “todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente nos termos da Constituição”. (6)
A rigor, ser incorruptível requer dignidade e sobriedade. Ser honesto demanda disciplina moral e ética, afã para abater más tendências, diligência por não se consentir desabar na perdição das trapaças. Que nesses instantes históricos pelos quais estamos passando no Brasil, restabeleçam-se os valores da Ética Cristã e que se revitalize o mundo da honestidade. Até  por uma  questão muito clara, “não há mais lugar na cultura moderna para o absurdo de governos arbitrários, nem da aplicação dos recursos que são arrancados do povo para extravagâncias disfarçadas de necessárias, enquanto a educação, a saúde, o trabalho são escassos ou colocados em plano inferior”. (7)
 Muitos se interrogam no imo da consciência: Haverá futuro promissor para uma sociedade estruturada assim como a nossa? Pensamos que sim! Considerando pelo lado, digamos mais transcendente da questão, para apurar a estrutura social deste País, a tese de Humberto de Campo, contida no livro “Brasil coração do Mundo e Pátria do Evangelho”, assegura um norte de esperança para todos nós. Creio que na “Pátria do Evangelho” estão sendo programadas reencarnações de almas nobres e sábias, e esse fato nos aponta para um futuro menos conturbado para as futuras gerações de brasileiros.
A prudência continua sendo a nossa melhor conselheira. Por questão de consciência ética, sabemos que um autêntico espírita tem que ser fiel aos princípios que a Doutrina dos Espíritos impõe e ter noção de que honestidade é prática obrigatória para todo ser humano, sobretudo para um cristão. Ou será que devemos reivindicar pedestais nos panteões terrenos por executarmos dignamente aquilo o que é nossa obrigação fazer?

Referências bibliográficas:
(1)            A Disney permite que visitantes em cadeira de rodas ou que se locomovam com veículos motorizados tenham acesso direto às atrações, junto com até seis membros de sua família. Mas o sistema, que foi implantado para benefício de pessoas com deficiência, está sendo comercializado de forma ilegal.
(2)            Disponível em  http://noticias.r7.com/internacional/familias-ricas-contratam-pessoas-com-deficiencia-para-escapar-das-longas-filas-na-disney-15052013 acesso em 23/06/13
(3)            FRANCO, Divaldo P. "Amor, imbatível amor". Pelo Espírito Joanna de Ângelis, 6ª ed. Salvador, BA: LEAL, 2000, p. 84
(4)            Disponível em http://www.casaruibarbosa.gov.br/scripts/scripts/rui/mostrafrasesrui.idc?CodFrase=883 acesso em 21/06/13
(5)            Constituição da República Federativa do Brasil /1988, Preâmbulo
(6)            Idem  Art. 1º, Parágrafo único
(7)            Franco Divaldo. Jornal A Tarde, de Salvador/Bahia, (http://atarde.uol.com.br/opiniao/materias/1512342-clamor-social-o-climax-e-a-indiferenca-dos-governantes). Acesso em 23/06/13

domingo, 23 de junho de 2013

NAS TEIAS COMPLEXAS DA FÉ


A minha fotografia

Margarida Azevedo
Mem Martins, Sintra, Portugal


É hábito culpar o consumismo de tornar longínquas as tão necessárias atitudes emancipadoras da fé, garante único da entrada no Reino de Deus. Ele é a pedra no sapato, o agente malvadão, laxista, ao serviço da volúpia, a vertente mais desprezível da natureza humana. Pelo menos é assim que pensa o senso comum: o luxo é pecado e a pobreza é a virtude que conduz à fé, e sem fé não há céu beatífico.

Sacrificada no altar da luxúria, dizem, a fé apaga-se ou é-lhe reservado um lugar de segunda categoria no rol das importâncias do complexo pensamento humano e respectivas acções. Porém, o factor religioso jamais abdicou da riqueza e da sumptuosidade, as quais sacralizou, ao longo dos séculos, sob o pretexto de conferir ao templo o estatuto de casa dos deuses/de Deus aos quais/a Quem tudo o que de mais rico deve ser ofertado. E não podia ser de outro modo. Sempre foi considerado que o que é rico na terra é caminho promissor para o outro mundo. 

Enredado nos valores terrenos, o ser humano equiparou o que de mais precioso existe na Natureza com o que é suposto existir no céu. Este tem sido imaginado como um mundo de delícias e ociosidade, prazeres infindáveis, uma sensualidade indizível, enfim, tudo o que de mais possamos definir como a antítese do objectivo da fé: a certeza de uma boa colheita após uma vivência ética dedicada à partilha. O mundo dos deuses ou o céu é o lugar da perdição, numa palavra. Desta forma, singrar na fé nunca foi o mais importante. O que a fé dá é que foi decisivo para as supostas venturas celestiais. E a fé tem dado muito.

O Cristianismo pregou o desprendimento dos bens terrenos. Oh! Fantástico. Mas simultaneamente refinou essa tese ao defender que os mesmos deviam ser entregues a Deus, ou seja, às igrejas, no seguimento das práticas religiosas pagãs, sem alterar uma vírgula.

Com isto, o ouro com que se revestiram as estátuas e as imagens nos templos, a faustuosidade dos mesmos e a arrogância dos seus celebrantes, paramentados de igual modo, têm sido o rosto da manipulação da fé. Assim, jamais faltou quem dela cinicamente usasse e abusasse, aprisionando-a na crendice e na superstição, tornando cobiçada a casa dos deuses/de Deus, transformada em tesouro mais que em casa de oração. 

O episódio da expulsão dos vendilhões do Templo, por Jesus (Mt 21:12-13; Mc 11: 15-17; Lc 19: 45-46; Jo 2: 13-16), é o exemplo de que aquilo que o dinheiro compra não pode coexistir no espaço da prece. Os negócios terrenos nada têm a ver com matéria de fé, e os templos não são centros comerciais. A expulsão tem também o sentido de que nem tão pouco se deve deixar aproximar as riquezas da área envolvente do Templo. Jesus não está a condenar a actividade comercial em geral, mas sim naquele espaço específico. Por outras palavras, a fé é caminho para outras realidades e o templo o espaço privilegiado para as mesmas.

Os tesouros, acumulados nos templos ou não, entre traças e ferrugem e atractivos para os ladrões, contra os quais Jesus alertou (Mt 6: 19-20; Lc 12: 33-34), foram, pelos grupos religiosos, utilizados para comprar favoritismos, influências, criar redes de corrupção. Nunca estiveram ao serviço de causas nobres, por mais que o queiram afirmar, ou então estiveram na directa proporção de quem dá um chouriço em troca de um porco gordo. Eles podem estar lavados pela fé que os dá, na ingenuidade de assim ganhar o céu, mas estão manchados de sangue no uso posterior pelas organizações religiosas.

O ritual é precisamente isso. A água ou o vinho são servidos pelo celebrante, em nome dos deuses/Deus, em taças do mais fino ouro, tal como o vinho nalguns ritos cristãos. O ritual, como se sabe, pretende ser uma representação mimética de algo muito importante que aconteceu em tempos idos, relembrando-o, é portanto um trabalho de memória, transportando os crentes para outro espaço, outros valores, outros significados, outras forças. No conjunto, são os elementos manipuláveis pela hipocrisia, inculcando no crente a ideia de que a oferenda o transporta a esse mundo. O factor religioso implementou no coração humano que esse mundo será tão mais generoso quanto a oferenda for generosa.

Por outro lado, a fé tornou-se egoísta, porque indiferente ao mau uso da oferenda e ao serviço do enriquecimento dos templos. Desenvolveu um sistema de trocas do tipo “eu dou para que tu me dês”, ou “eu dou porque acredito na tua força desmedida”. Esta prática tem feito parte de uma forma de perspectivar a religião como algo que se impõe ao homem/mulher, um artifício ou um postiço pela forma como tem descriminado os crentes: os mais ricos teriam supostamente um lugar entre os deuses/Deus que estaria completamente vedado aos pobres. Por outras palavras, os pobres eram duplamente marginalizados, míseros na terra e no céu.

Esta forma de fé dispensa grandes ideais de vida religiosa. No caso do Cristianismo dispensa o trabalho introspectivo de modificação interior, propósitos de santificação bem como o tornar factíveis princípios teológicos conducentes a uma vivência religiosa libertadora. Por exemplo, ir a uma romaria em honra de determinado santo é visto por muitos como um acto de fé, mas na maior parte dos casos trata-se de uma prática supersticiosa com o objectivo de exorcizar um mal.

Ora, para lá daquilo de que somos portadores intrinsecamente, bem como de todas as práticas exteriores de fé, torna-se imperioso que a religião eduque num rumo verdadeiramente emancipador, isto é, para a não dependência. Isto significa que é fundamental tomar consciência de que também se aprende a ter fé. A religião está a confrontar-se com essa realidade. Já não pode dar primazia ao aspecto ideológico, mas sobretudo a um projecto de libertação. Ter uma religião não é possuir uma ideologia como quem pertence a um partido político, mas seguir uma via com a qual o crente se identifica por exclusão de todas as outras, porém sem as rejeitar e respeitando-as. Ter uma religião é aderir a uma discursividade que coloca o crente desperto para a realidade, e não na espectativa do surgimento de um ser que a qualquer momento pode aparecer e fazer eclodir uma nova ordem no mundo. O pensamento religioso não é o pensamento mágico, nem os profetas são ilusionistas. Como é que isto é possível? Através de uma educação religiosa vocacionada para a experiência pessoal, as vivências culturais dos crentes, os seus objectivos emancipadores, a forma como emerge a sua fé.

O Espiritismo vai mais longe. Encara a fé numa duplicidade humana e divina, isto é, a fé não é religiosa. Isto significa que o nosso equilíbrio passa pelo bom uso das duas vertentes, a saber, o humano da nossa vivência terrena, mas simultaneamente o espiritual, sem pitafes dourados nem indumentárias complexas. Isto não significa que os condene, mas tão simplesmente que os considera desnecessários e obsoletos. 

Por isso a fé é uma força que nos leva a agir deste ou daquele modo, é um impulso inexplicável. Mas não é uma força salvadora. A salvação só se consegue mediante a prática da caridade. Esta tese tem a sua raiz no pensamento paulista, o qual transfere a caridade para um lugar de uma superioridade de tal ordem de grandeza que implicaria sermos outros para a compreendermos. (ver O Evangelho segundo o Espiritismo, caps. XV, XIX). 

Qualquer homem/mulher pode dizer-se cristão/ã ou budista, simpatizar com os seus aforismos ou as temáticas de perícopas que lhes são atribuídas. Contudo, seguir cada um dos profetas de uma forma livre e emancipada, mediante uma posição crítica e altruísta, tal proeza já não é para qualquer um. Jesus e Buda falaram para o mundo enquanto o conjunto de todos os seres humanos, superaram o Judaísmo e o Hinduísmo de então, respectivamente, fazendo cada um da religião o ponto de partida para voos mais altos, isto é, a transposição das barreiras ideológicas segregadoras, convidando todos os homens e todas as mulheres para o banquete da Paz universal.

Se tomarmos como referência o Novo Testamento, deparamos com o binómio seminal Baptista e Jesus. Caminham paralelos, remetendo-nos para a grande questão do arrependimento e do amor, respectivamente. Já em S. Paulo, entre a fé, esperança e caridade (nalgumas traduções amor (1), o que é mais abrangente e correcto), a maior é a caridade, não a fé nem a esperança, o que, no que diz respeito à fé, é bastante curioso.

Aprendemos que a fé é remetida para segundo ou terceiro plano, em detrimento de uma praxis vista como o modo como exteriorizamos uma vivência interior, tornando-a quase desnecessária ou mesmo silenciando-a. Faz todo o sentido. Fazer o bem não implica a fé, mas a fé sem a prática do bem é nula.

Parece que a fé tem muito que caminhar. Não é o mundo que a faz perigar, mas antes a sua fraca afirmação da gratuidade, a ascensão a um nível axiológico que encare Deus como libertador. Ainda temos pouca fé.

Sabemos que nos momentos complexos ela está lá, está sempre presente. Nesses momentos desenvolve a coragem e uma força incomensurável. É o tão característico grito de fé que tanto espanto nos causa, e que nos momentos em que tudo parece desabar algo se ergue a partir do nada. A fé é o nascer de tudo no meio desse nada.

Ainda não somos Abraão. Quanto a isso ainda estamos na outra galáxia. Mas somos transporte de uma Força sem nome nem imagem, ausente do nosso aparelho conceptual, que tem um Reino e que exige apenas o Bem para lá entrar. Não é apenas espectacular chegar à noção dessa Presença, é espantoso como falamos Dela, assim como é bela e grandiosa a Sua Revelação. A fé tem aqui o seu terreno fértil, mas somente quando estiver emancipada de crendices e da ilusão de poder onde ele definitivamente não está.

É inútil dizer que o mundo está em convulsão. Nunca deixou de o estar. O humano é um ser de problema e o nosso humanismo ainda não subiu aos degraus mais altos da tolerância, nem da cegueira do deslumbre. Ainda não estamos cegos de luz, mas de ignorância. Desconhecemos o deslumbramento da fé que transporta montanhas. Quando pronunciamos a palavra fé, o que dizemos concretamente? Algo desconhecido, mas é preferível o incómodo da ignorância ao abismo da falta de um referencial como aquele a que chamamos Reino de Deus.


1. Do gr. Ágape: afeição; amor fraternal; objecto da afeição; no pl. Ágapes, refeições fraternais dos primitivos cristãos.
As Testemunhas de Jeová traduzem por amor. 


Bibliografia consultada:

KARDEC, A. L´Evangile selon le Spiritisme, Marly-le-Roy, Les Editions Philman, 2002, caps. XV, XIX, pp.237- 245; 294 – 302. 

LINDBERG, Carter, História do Cristianismo, Lisboa, Editorial Teorema, 2007, cap. 9, Pietismo e Iluminismo, pp.167-180.

PEREIRA,I., S.J.Dicionário grego-português e português-grego, Braga,Livraria A.I., 1998.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Clamor social: o clímax e a indiferença dos governantes

 
* Divaldo Franco
 
"Quando as injustiças sociais atingem o clímax e a indiferença dos governantes pelo povo que estorcega nas amarras das necessidades diárias, sob o açodar dos conflitos íntimos e do sofrimento que se generaliza, nas culturas democráticas, as massas correm às ruas e às praças das cidades para apresentar o seu clamor, para exigir respeito, para que sejam cumpridas as promessas eleitoreiras que lhe foram feitas...

Já não é mais possível amordaçar as pessoas, oprimindo-as e ameaçando-as com os instrumentos da agressividade policial e da indiferença pelas suas dores.

O ser humano da atualidade encontra-se inquieto em toda parte, recorrendo ao direito de ser respeitado e de ter ensejo de viver com o mínimo de dignidade.

Não há mais lugar na cultura moderna, para o absurdo de governos arbitrários, nem da aplicação dos recursos que são arrancados do povo para extravagâncias disfarçadas de necessárias, enquanto a educação, a saúde, o trabalho são escassos ou colocados em plano inferior.

A utilização de estatísticas falsas, adaptadas aos interesses dos administradores, não consegue aplacar a fome, iluminar a ignorância, auxiliar na libertação das doenças, ampliar o leque de trabalho digno em vez do assistencialismo que mascara os sofrimentos e abre espaço para o clamor que hoje explode no País e em diversas cidades do mundo.

É lamentável, porém, que pessoas inescrupulosas, arruaceiras, que vivem a soldo da anarquia e do desrespeito, aproveitem-se desses nobres movimentos e os transformem em festival de destruição.

Que, para esses inconsequentes, sejam aplicadas as corrigendas previstas pelas leis, mas que se preservem os direitos do cidadão para reclamar justiça e apoio nas suas reivindicações.

O povo, quando clama em sofrimento, não silencia sua voz, senão quando atendidas as suas justas reivindicações. Nesse sentido, cabe aos jovens, os cidadãos do futuro, a iniciativa de invectivar contra as infames condutas... porém, em ordem e em paz."
 
 
* Divaldo Franco escreve às quintas-feiras, quinzenalmente, no Jornal A Tarde, de Salvador/Bahia, Brasil (http://atarde.uol.com.br/opiniao/materias/1512342-clamor-social-o-climax-e-a-indiferenca-dos-governantes).

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Analfabetismo Funcional no Espiritismo

Geraldo Campetti
Pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro, em parceria com a ONG Ação Educativa, divulgou o Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional de 2012. Os dados revelam que 38% dos alunos de instituições de ensino superior no Brasil são analfabetos funcionais.

A expressão toma o substantivo “analfabeto” como aquele indivíduo que não sabe ler e escrever. Associando-se o adjetivo “funcional”, constrói-se o entendimento de que o “analfabeto funcional” é a pessoa que consegue ler e escrever, porém não é capaz de compreender o que lê e escreve.

Ela decifra letras, sílabas e palavras, mas não consegue interpretá-los ou entender seus significados. Os conceitos apresentados no texto não são alcançados pelo leitor.

Ao importar a interessante expressão ao contexto espírita, cumpre-nos averiguar se também não estamos diante de outra triste realidade: uma crise de “analfabetismo funcional no Espiritismo”.

Aqui, não nos referimos à inteligência formal, pois o próprio Codificador alertou em O evangelho segundo o espiritismo, que para entender o Espiritismo não era necessária inteligência fora do comum.

É fato: observamos pessoas que não tiveram oportunidade de frequentar a escola e compreendem os princípios doutrinários com uma maturidade espiritual admirável.

Prova de que o Espiritismo é dirigido aos simples e aos mais exigentes em termos de conhecimentos, tornando-se acessível a todos, sem preconceitos ou exigências exteriores.

Importa compreender, por oportuno, que a falta de informação sobre os princípios fundamentais da Doutrina Espírita, proveniente da ausência de estudo ou do senso de maturidade para compreendê-la, poderia se caracterizar pelo que denominamos de “analfabetismo funcional no Espiritismo”.

Essa situação ou estado advém, principalmente, do desconhecimento das obras básicas codificadas por Allan Kardec e também pelas interpretações apressadas e equivocadas dos ensinos dos Espíritos reveladores e da sábia organização kardequiana sobre a obra basilar espírita e suas subsidiárias.

Os males que esse estado peculiar de analfabetismo pode provocar são avassaladores, dentre os quais, destacam-se:

- desconhecimento dos princípios básicos do Espiritismo;
- interpretações equivocadas dos ensinos espíritas;
- confusão entre o que é e o que não é Doutrina Espírita;
- inclusão de práticas esdrúxulas na Casa espírita;
- publicação de livros e periódicos, ditos espíritas, com inserção de conteúdos alheios e contrários ao Espiritismo.

Como evitar o “analfabetismo funcional no Espiritismo”?

O estudo individual e em grupo é essencial para o exato entendimento da Mensagem de Jesus à luz da Doutrina Espírita.

A leitura e reflexão sobre os conteúdos da Codificação são indispensáveis à correta interpretação e prática do Espiritismo.

Ler, estudar e refletir – para bem pensar, sentir e viver os elevados ensinos da Terceira Revelação no Ocidente – são valiosos recursos de ampliação do entendimento espiritual e de conquista da plenitude na prática do Bem.

A definitiva implantação do Reino divino na Terra inicia-se no coração de cada um de nós pela inconfundível linguagem do Amor, bandeira sob a qual todos os povos estarão congregados no pleno exercício da solidariedade universal.

Conheça as publicações da FEB em: www.febeditora.com.br.


Fonte : http://www.febnet.org.br/blog/geral/colunistas/analfabetismo-funcional-no-espiritismo/

domingo, 16 de junho de 2013

O ESTRANHO




Alguns anos depois que nasci, meu pai conheceu um estranho, recém-chegado à nossa pequena cidade.Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com este encantador personagem e em seguida o convidou a viver com nossa família.
O estranho aceitou e desde então tem estado conosco.
Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre seu lugar em minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial.
Meus pais eram instrutores complementares: minha mãe me ensinou o que era bom e o que era mau e meu pai me ensinou a obedecer.
Mas o estranho era nosso narrador.Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias.
Ele sempre tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência.
Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro! Levou minha família ao primeiro jogo de futebol.
Fazia-me rir e me fazia chorar.
O estranho nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
Às vezes, minha mãe se levantava cedo e calada, enquanto o resto de nós ficava escutando o que tinha que dizer, só ela ia à cozinhapara ter paz e tranquilidade. (Agora me pergunto se ela teria rezado alguma vez, para que o estranho fosse embora).
Meu pai dirigia nosso lar com certas convicções morais, mas o estranho nunca se sentia obrigado a honrá-las.
As blasfêmias, os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa…
Nem por parte nossa, nem de nossos amigos ou de qualquerum que nos visitasse.
Entretanto, nosso visitante de longo prazo, usava sem problemas sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos
e que fazia meu pai se retorcer e minha mãe se ruborizar. Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool.
Mas o estranho nos animou a tentá-lo e a fazê-lo regularmente.
Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem distinguidos.
Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Seus comentários eram às vezes evidentes, outras sugestivos, e geralmente vergonhosos.
Agora sei que meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante minha adolescência pelo estranho.
Repetidas vezes o criticaram, mas ele nunca fez caso aos valores de meus pais, mesmo assim, permaneceu em nosso lar.
Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho veio para nossa família.
Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era ao principio.
Não obstante, se hoje você pudesse entrar na guarida de meus pais, ainda o encontraria sentado em seu canto, esperando que alguém quisesse escutar suas conversas ou dedicar seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
Seu nome?
Nós o chamamos Televisor...
Pede-se que este artigo seja lido em cada lar, pois agora ele tem uma esposa que se chamaComputador e um filho que se chama Celular 
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E agora está acrescido do Facebook.....!!!!!

sexta-feira, 14 de junho de 2013

AS IDEOLOGIAS MATERIALISTAS NÃO SE AJUSTAM À MENSAGEM DOS ESPÍRITOS


 Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br
Deus não concede privilégios a ninguém, e, se há sofredores e felizes é por força do mau ou bom uso do livre arbítrio do Espírito. Por força da liberdade de escolha, cada pessoa decide qual o caminho a seguir. Não é com regozijo que coexistimos com o infausto vulto do “mendicante social”. Quem é tal figura? Ressalvando-se as exceções, não ignoramos que há pessoa insensível, usurpadora, que abomina trabalhar, não produz nada para a sociedade e (sobre)vive vampirizando os recursos dos programas sociais do estado. Apresenta-se como uma coitadinha, “abandonada social”, e exige impetuosamente muitos direitos para si, despreocupada com os próprios deveres.
Existe pessoa que fala de si como uma infeliz desfavorecida, mas não cumpre  suas obrigações, ou se as cumpre, entende que está sendo explorada. Não gosta de estudos, detesta leituras (quando alfabetizada). Quase sempre por ter ojeriza à sala de aula e professores, esquivou-se da escola, mas responsabiliza a sociedade e o “(des)governo” por sua condição de iletrada e pobre. Não esqueçamos que Deus proporciona a todos os seres idênticas e incessantes oportunidades de crescimento. Coloca em estado latente o mesmo poder, a mesma sabedoria e os mesmos estímulos evolutivos para todos, no longo e difícil trajeto para a perfeição.
Nessa linha de raciocínio, o que pensar do cidadão que execra e exorciza tudo o que exige raciocínio? Aquele que vive na sua mansarda sem quaisquer bens, exceto um aparelho de TV, para poder discutir sobre capítulos de novela e jogos de futebol. Comumente alimenta a fé nas religiões que praticam o comércio espiritual, prioritariamente as que incluam exorcismos e rituais com berreiros e espasmos convulsivos. Culpa o destino, o governo, a raça, a cor, o bairro onde reside. Em suma, a responsabilidade da sua inércia é sempre do outro.
Por outro lado, há cidadãos que laboram de sol a sol com dignidade para enaltecer a vida na sociedade. Por oportuno, e com muita exultação, evocamos aqui no debate o célebre José Mujica, atual presidente do Uruguai, ele que é considerado o chefe de estado mais despojado do mundo. Possui um fusquinha e dedica cerca de 90% do salário para obras sociais. Vive assim por opção. É um idealista sincero e crê na igualdade e justiça dos homens para a conquista da paz. Adora mencionar Sêneca (1) quando diz que "pobres são aqueles que precisam de muito". Não proclama a "valorização da pobreza", mas do comedimento no viver. (2) Sem dúvida, Mujica é uma alma grandiosa e deveria ser  inspiração para os homens públicos do Brasil.
O presidente uruguaio, em que pese o seu estupendo exemplo de vida,  é arauto de uma sociedade igualitária. Será possível ou mera utopia o sonho de Mujica? Deus a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela desencarnação: todos aos seus olhos são iguais. Eis o sentido correto da Lei de Igualdade. Portanto, perante Deus somos iguais a despeito da colossal fissura que se abre pelas disparidades sociais.
O Criador criou-nos essencialmente idênticos, contudo nem todos fomos criados na mesma época, e, por conseguinte, uns são mais velhos e somam maior conjunto de aquisições do que outros mais “jovens”. As desigualdades entre nós estão na diversidade dos graus da experiência alcançada e do exemplo nos caminhos do bem sob a tutela do livre arbítrio.
A variedade das aptidões, ao contrário do ideal igualitário, é um meio propulsor do progresso social, já que cada homem contribui com sua parcela de conhecimento. As desigualdades que apresentamos entre nós, seja em inteligência ou moralidade, não derivam de privilégios de uns em detrimento de outros, mas do maior ou menor aproveitamento desse “tempo cósmico”, no esforço do alargamento das habilidades e virtudes que nos são inerentes, consoante o melhor uso do livre arbítrio por parte de cada um. Destarte, as desigualdades naturais das aptidões humanas são os degraus das múltiplas experiências do passado. E cremos que essas diferenças constituem os agentes do progresso e paz social.
Como se vê, a nossa tese é contrária à pretendida igualdade sócio-econômica, frequentemente artificial na vida de relação dos Espíritos encarnados. Por que não são igualmente ricos todos os homens? Com base nas instruções do XVI capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo, aprendemos que não o são por uma razão muito simples: por não serem igualmente inteligentes, ativos e laboriosos para adquirir, nem sóbrios e previdentes para conservar. A pobreza é, para os que a sofrem, a prova da paciência e da resignação; a riqueza é, para os outros, a prova da caridade e da abnegação. (3)
A desigualdade social é o mais elevado testemunho da verdade da reencarnação, mediante a qual cada espírito tem sua posição definida de regeneração e resgate. “A pobreza, a miséria, a guerra, a ignorância, como outras calamidades coletivas, são enfermidades do organismo social, devido à situação de prova da quase generalidade dos seus membros. Cessada a causa patogênica com a iluminação espiritual de todos em Jesus-Cristo; a moléstia coletiva estará eliminada dos ambientes humanos. (4)”
Carece, pois, o pobre de motivo assim para acusar a Providência, como para invejar os ricos e estes para se glorificarem do que possuem. Se abusam, não será com decretos ou leis santuárias que se remediará o mal. As leis podem, de momento, mudar o exterior, mas não logram mudar o coração; daí vem serem elas de duração efêmera e quase sempre seguidas de uma reação mais desenfreada. A origem do mal reside no egoísmo e no orgulho: os abusos de toda espécie cessarão quando os homens se regerem pela lei da caridade. (5)
A Mensagem de Jesus não preconiza que os ricos do mundo se façam pobres e sim que todos os homens se façam ricos de conhecimento, porque somente nas aquisições de ordem moral descansa a verdadeira fortuna. Reconhecemos que o socialismo que vigora em muitos países da Terra é uma bela expressão de cultura humana, enquanto não resvala para os polos do extremismo. Porém, “a concepção igualitária absoluta é um erro grave dos estudiosos, em qualquer departamento da vida. A tirania política poderá tentar uma imposição nesse sentido, mas não passará das espetaculosas uniformizações simbólicas para efeitos exteriores, porquanto o verdadeiro valor de um homem está no seu íntimo, onde cada espírito tem sua posição definida pelo próprio esforço;”. (6)
Aos radicais segmentos progressistas vimos esclarecer que aceitar os preceitos espíritas não significa concordância conformista dos problemas de natureza econômica e política, porém maior compreensão desses estágios humanos. Os conceitos espíritas não concebem as desigualdades como algo estático e insensível a mudanças pelas nossas ações. As lições espíritas jamais visam privilegiar os interesses de uma elite rica no campo social. A necessidade de se transformar a nossa sociedade desigual em uma sociedade justa é o escopo doutrinário, sem necessidade absoluta de ideologias materialistas e tacanhas para esse desiderato.

Referências bibliográficas:
(1)           Contemporâneo de Jesus foi um dos mais célebres advogados, escritores e intelectuais do Império Romano
(2)           Disponível em http://epocanegocios.globo.com/Inspiracao/Vida/noticia/2013/05/vida-simples-de-pepe-mujica-presidente-do-uruguai.html
(3)           Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVI, "Desigualdades das Riquezas"; RJ: Ed. FEB, 2000
(4)           Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB 2001, pergs. 55,56,57
(5)           _____, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. XVI, "Desigualdades das Riquezas"; RJ: Ed. FEB, 2000
(6)           _____, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, RJ: Ed FEB 2001, pergs. 55,56,57

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A FEB ANTE OS SAGAZES VENDILHÕES AMERICANOS

Luciano dos Anjos
Prezado Nélson.
            Essa história das traduções, novamente remontada, é velhíssima. Quando publicada pela primeira vez por um espírita, enviei as explicações que ora mando para você. Insiste-se numa versão falsa, que nunca foi verdadeira.
Quanto ao caso dos direitos autorais do Chico, trata-se de mera calúnia da Zibia, a que irei responder. Ela quer respaldo de um grande e honesto médium já desencarnado para justificar a fortuna que vem acumulando com seu negócio empresarial. Verdadeiro é que o primeiro livro mediúnico dela foi bom; depois que “recebeu” orientação do Alto para embolsar os direitos autorais, só lançou repetidas e insossas histórias de literatice macarrônica.
            Infelizmente estamos vivendo um momento muito triste para a história do espiritismo no Brasil, que arrisca copiar a trajetória do passado europeu (onde Kardec e a doutrina se enterraram) e quer montar negócios como os tem a igreja católica e protestante. As iniciativas estão poluídas por uma enxurrada de justificativas lamacentas. Precisamos recalibrar as intenções despressurizadas pela ambição material.               
Cordialmente,

            LUCIANO DOS ANJOS.
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Li o texto sobre os livros da FEB e os direitos negados a empresários norte-americanos. Entendo a reação, baseada apenas no que foi contado por gente que não tinha nenhuma relação com a instituição. Naquela época, quem a presidia era o Wantuil de Freitas, um homem que dedicou sua vida ao espiritismo e exercia aquele cargo com segurança e bastante competência. Ao mesmo tempo, era compreensivo em momentos importantes e gostava de ouvir seus auxiliares mais próximos. Ouvia, por exemplo, o Armando de Assis, seu vice-presidente, cujas opiniões eram para o Wantuil de muito peso. E, também, não sei bem por qual importância, tinha interesse no meu entendimento sobre alguns assuntos. Daí que conheço sobejamente os fatos sobre o interesse dos empresários americanos em publicar as obras psicografadas pelo Chico. Tanto que, logo depois, o Reformador estampou uma nota a respeito do assunto em geral, advertindo e até lembrando que a FEB poderia recorrer à Justiça. Essa nota, por sinal, foi redigida por mim. A história é mais complexa do que muitos supõem. De início, para que se possa medir o tamanho do desconhecimento, anoto que quem inventou a história nem ao menos sabia onde os empresários americanos estiveram. Ora, eles nunca foram a Brasília, simplesmente porque, em abril de 1969, lá ainda não funcionava a FEB, cuja inauguração  do cenáculo - primeiro passo - só vai acontecer em outubro de 1970.
Mas, vamos aos fatos, que sintetizarei em itens breves para não estender demais as explicações.
            1. A FEB já vinha, àquela época, de algumas surpresas e alguns desgostos. Chegaram, inclusive, a traduzir livros do André Luiz sem nenhuma autorização, e lançá-los lá fora. Só se soube da leviandade quando um exemplar bateu nas mãos do Wantuil, que o repassou a mim e ao Armando. Uma vergonha. Impressão horrorosa, péssima tradução e com graves mutilações. Foram ao extremo absurdo de cortar capítulos em que a prece era valorizada.
            2. Quando os empresários americanos procuraram a FEB, vieram com uma proposta indecorosa. Esclarecidos do que já houvera acontecido antes, propuseram, sim, que a própria FEB fizesse as traduções. Mas, partindo da nossa premissa de que o nosso propósito é sempre doutrinário, foi-lhes feita contraproposta no sentido de que eles se encarregassem das traduções para posterior avaliação da FEB, e que doassem os direitos dessas traduções. A FEB assumiria todo o trabalho restante, de impressão, etc. Ficaria com eles o direito de distribuição para o mundo inteiro, pelo que ganhariam uma comissão sobre as vendas e o principal caberia à FEB para cobertura de custos e o reinvestimento em novos lançamentos espíritas, que este é, afinal, o papel da FEB. Não toparam. Queriam simplesmente a autorizarão para a editoração e com eles ficariam todos os lucros. Ora, os lucros da FEB sempre foram reinvestidos na divulgação do espiritismo; os lucros deles seriam de desconhecida aplicação. Coisas de quem nunca teve o espírito dos brasileiros em relação a vantagens comerciais dentro do espiritismo, haja vista que por lá até hoje a mediunidade é profissionalizada. Basta abrir os jornais e verificar as ofertas... Afinal, não esqueçamos que eles eram exclusivamente empresários. Nenhuma editora do mundo concordaria com uma proposta daquelas. Nessas questões - frise-se -, a FEB sempre agiu com correção e honestidade.
3. O Chico não se irritou, nem foi parar em hospital por causa disso, mas ficou, sim, um pouco surpreso pelo desfecho das conversações; algum tempo depois, porém, foi logo informado de tudo e concordou com a posição do Wantuil.
            4. Quanto ao mais, por enquanto não quero entrar em maiores detalhes sobre a decisão do Chico de não mais enviar nenhum livro para a FEB publicar, o que de fato aconteceu. Só que nada teve a ver com esse imbróglio das traduções negadas. O Chico agiu dessa maneira quando o Armando de Assis não quis mais candidatar-se à reeleição devido a lamentáveis ocorrências de ordem interna. O Armando e o Chico eram muito amigos. Ele ficou extremamente triste com os acontecimentos e tomou aquela decisão, cumprida até à desencarnação. Foi apenas um gesto de solidariedade ao Armando de Assis. Mas isso é história para ser contada numa outra ocasião, se for o caso. Quanto ao quase rompimento com as federadas, trata-se de pura fantasia. Houve algumas reações deles a determinados procedimentos, mas tudo muito normal, como sempre ocorreram desde que a FEB existe. E isso, afinal, é salutar para o movimento espírita. Ruim é acharem que todos os espíritas são santos e que todos pensam igual.
            Eis a verdade do que houve. E tenho comigo, até hoje, correspondência trocada, naquela ocasião, entre a FEB e o erudito e correto Walace Leal Rodrigues, a propósito desse mesmo assunto.
            LUCIANO DOS ANJOS
            Rio, 12.6.2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Sexto Sentido – Bom Negócio

http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/sexto-sentido.html

Luiz Carlos D. Formiga
Rio de Janeiro

Luiz Carlos Formiga
"O dinheiro é bom servidor, mas mau senhor"
A revista ÉPOCA, maio 2003, trouxe artigo que recebeu o título: "O Fenômeno Gasparetto. Conheça a Família que Transformou o Espiritismo e a Mediunidade num Negócio Milionário". Nela soubemos que a orientação partiu do filho que melhor sintonizou o mentor capitalista.

"O velho por não poder, o moço por não saber, deitam as coisas a perder".

Referindo-se a essa capacidade de multiplicar dólares, encontrada num neo-sincretismo, pode-se usar a palavra "i-dolar-tria"(2).
No caso do neo-sincretismo é importante interpretar a Bíblia ao pé da letra. Para a obtenção de bons lucros, tanto no neo-sincretismo, quanto na exploração de um "sexto sentido" é importante a construção de uma imagem de líder espiritual abençoado pelas forças dos céus. Nas questões que envolvem dinheiro, é necessário encontrar alternativas para exercer o controle pessoal. No passado, comunicações com espíritos geraram discussões e até proibições.
Antes da codificação de Kardec, as primeiras manifestações inteligentes (6, 8) se produziam por meio de mesas que se levantavam e, com um dos pés, davam certo número de pancadas, respondendo desse modo — sim, ou — não, conforme fora convencionado, a uma pergunta feita. Obtiveram-se depois respostas mais desenvolvidas com o auxílio das letras do alfabeto: dando o móvel um número de pancadas correspondente ao número de ordem de cada letra, chegava-se a formar palavras e frases que respondiam às questões propostas. A precisão das respostas e a correlação que denotavam com as perguntas causaram espanto.
Foi um desses seres invisíveis que aconselhou a adaptação de um lápis a uma cesta ou a outro objeto. Colocada em cima de uma folha de papel, a cesta é posta em movimento pela mesma potência oculta que move as mesas; mas, em vez de um simples movimento regular, o lápis traça, por si mesmo, caracteres formando palavras, frases, dissertações de muitas páginas sobre as mais altas questões de filosofia, moral, metafísica, psicologia, etc., e com tanta rapidez quanto se escrevesse com a mão. O conselho foi dado simultaneamente na América, na França e em diversos outros países.
Reconheceu-se que a cesta e a prancheta não eram, realmente, mais do que um apêndice da mão; e o médium, tomando diretamente do lápis, se pôs a escrever por um impulso involuntário e quase febril.
Naqueles dias a experiência deu a conhecer muitas outras variedades e se constatou até a escrita direta dos Espíritos, que ocorre sem o concurso da mão do médium, nem do lápis.
Tudo parece indicar que o médium é a única fonte produtora de todas as manifestações, que as toma ao meio ambiente. Pode-se evidenciar, que certas comunicações do médium são completamente estranhas aos pensamentos, aos conhecimentos, às opiniões mesmo de todos os assistentes, que essas comunicações freqüentemente são espontâneas e contradizem todas as idéias preconcebidas.
Por que estranha coincidência milhares de médiuns espalhados por todos os pontos do globo terráqueo, e que jamais se viram, acordaram em dizer a mesma coisa? 
"Zibia Gasparetto foi uma espírita tradicional durante anos. O filho Luiz foi o guia na transição da caridade para o business, hoje nem fala em mediunidade, preferindo sexto sentido" (1).
"Zibia empatou com Luís Fernando Veríssimo, vendeu mais de 5 milhões de livros e está há 10 anos na lista dos mais vendidos. Sem pretensões literárias, conta histórias recheadas de diálogos, falando como uma tia, pronta a dar conselhos. Com os livros pode faturar R$ 17 milhões por ano, sem contar a gráfica, que presta serviço a editoras, como a Siciliano e Saraiva."(1)
As ciências ordinárias assentam nas propriedades da matéria, que se pode experimentar e manipular livremente, mas os fenômenos espíritas (6, 8) repousam na ação de inteligências dotadas de vontade própria e que nos provam a cada instante não se acharem subordinadas aos nossos caprichos.
Estamos diante de algo novo, "desde que se trata de uma manifestação que se produz com exclusão das leis da Humanidade, ela escapa à competência da ciência material, visto não poder explicar-se por algarismos, nem por uma força mecânica. Quando surge um fato novo, que não guarda relação com alguma ciência conhecida, o sábio, para estudá-lo, tem que abstrair da sua ciência e de idéias preconcebidas" (6, 8).
O cepticismo, no tocante ao fenômeno, quando não resulta de uma oposição sistemática por interesse, origina-se quase sempre do conhecimento incompleto dos fatos, o que não obsta a que alguns cortem a questão como se a conhecessem a fundo. Um fato demonstrado pela observação (6, 8) e confirmado pelos próprios Espíritos é o de que os Espíritos inferiores muitas vezes usurpam nomes conhecidos e respeitados. Essa é uma das dificuldades do "sexto sentido".
Com o ego brilhando após o verniz e sem esforço para dominar inclinações menos éticas, podemos acabar nas mãos de entidades especialistas na produção de máquinas de fabricar dinheiro e ilusões.
"Zibia fez uma opção clara pelo mercado a partir de 1995, quando se afastou da militância religiosa. Ela deixou o comando do centro espírita, que desenvolvia obras sociais na periferia de São Paulo e atendia mil pessoas por dia, para dedicar-se a uma editora própria que se tornou uma das maiores do ramo no país" (1).
Os espíritas dizem que é moralmente questionável ganhar dinheiro com esse tipo de livro. Chico Xavier nunca embolsou um tostão.
"Zibia define-se hoje como espírita independente e transfere a responsabilidade para os espíritos que lhe recomendaram abrir uma gráfica e deixar outras pessoas assumirem as obras sociais"(1). 
Com Chico Xavier (3) centenas de autores voltariam. Traduzidos em diversas línguas estrangeiras, milhões de exemplares foram vendidos em todo o mundo. Apesar de altamente lucrativos, Chico nunca aceitou qualquer dinheiro dos livros. Tudo era revertido em benefício de obras de caridade.
"Mais vale o pouco com justiça do que muitos ganhos sem direito".

Qual o significado de tantos anos de mediunidade?
 Chico contou: "um amigo espiritual em se comunicando aqui, numa página que considero muito interessante, contou que um guia espiritual perguntou a um mentor das esferas mais altas, o que significam 60 anos de trabalho espiritual ininterrupto, e, o outro respondeu que para Jesus significaria seis minutos."
Kardec diz que o primeiro indício da falta de bom-senso está em crer alguém infalível o seu juízo.
Com corpo esculpido por horas de balé, Luiz possui casa em Los Angeles, onde compra suas roupas. Só anda com motorista e aposta na imagem: "sou a pessoa mais interessante que conheço" (1).
Humildade é a virtude que nos dá o sentimento da nossa insignificância, nesse ponto as diferenças entre os médiuns são gritantes.
Chico, certa vez, comentou os elogios a seu respeito: "cada carta, cada mensagem, que criam destaques em torno de meu nome, é um convite a que eu seja o que ainda não sou e que devo ser, que preciso ser, e que peço a Deus ser algum dia" (3). Apresentado por Emmanuel a Jesus, possuía uma "mediunidade vacinada" (4,5).
Pascal (Sens, 1862) escreve que se os homens amassem com mútuo amor, a caridade seria mais bem praticada; porém, para isso, seria necessário o esforço por largar a couraça que cobre os corações. A rigidez mata os bons sentimentos. O Cristo jamais se escusava. Ele nos pergunta, quando o tomaremos por modelo de nossas ações? Ensina que não devemos nos preocupar com os que nos olham com desdém, deixando a Deus o encargo de fazer toda a justiça.
O mentor conclui que o egoísmo é a negação da caridade e que sem ela não haverá segurança para a sociedade humana. Com o egoísmo e o orgulho de mãos dadas, a vida será sempre uma carreira, uma luta de interesses, em que vencerá o mais esperto (7).
"No passado, Luiz Gasparetto emprestou as cordas vocais ao francês Toulouse-Lautrec para que desse uma entrevista na TV Cultura. Mas hoje ele dá pouca atenção a espíritos de mestres como Leonardo da Vinci, porque está dividido entre atividades mais rentáveis. Se eu tenho o dom, por que não vou ganhar dinheiro com isso? Hoje não tenho religião" (1)
O comentário pode gerar outra interpretação: quem dá pouca atenção a quem?
Emprestei a revista e depois ouvi o desabafo: "ainda bem que ele não se diz espírita!"
"Pop Star Mediúnico (1), Luiz faz programas no rádio, shows na TV, escreve livros de auto-ajuda e pinta quadros. Pode ganhar R$ 40 mil em um único dia de curso. Com 53 anos, fez carreira internacional. Possui um índice de produtividade de fazer inveja a qualquer artista vivo ou morto, já pintou mais de 30 mil telas. Chegou ao recorde pessoal de concluir seis obras em apenas 15 minutos".
Diz o ditado: "melhor é ter pouco numa das mãos, com paz de espírito, do que estar sempre com as duas mãos cheias de trabalho, tentando pegar o vento".
  Observando determinados comportamentos no movimento espírita ficamos com uma dúvida: será que pessoas que se dizem espíritas, de forma "velada", estão fazendo algo semelhante aos Gasparetto?
E Jesus nem tinha onde reclinar a cabeça!
Espíritas não podem ser profissionais da religião ou da mediunidade, mas não é só isso.

Referências.
Revista Época, 261: 68-73, 2003.
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/sequestro-e-idolartria.html
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/talento-extraordinario.html
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/por-que-considero-inteligente.html
http://www.espirito.org.br/portal/artigos/diversos/assistencia/vacinacao.html
Kardec, A. 1857. O livro dos espíritos. Introdução. FEB.
Kardec, A. 1866. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap XI, item 12. FEB.
Médium: “Cuidado Perigo!” Revista Internacional de Espiritismo, número 3, Matão, Abril, 1999.
(http://www.espirito.org.br/portal/artigos/neurj/mediuns-perigo.html)

OS ANIMAIS SÃO IRRACIONAIS?

Roberto Cury

Roberto Cury
Goiânia

Era sexta-feira, dia 17 de maio de 2013, e a reunião de estudos cuidava dos animais perante os homens. Várias histórias sobre animais foram narradas pelos frequentadores da noite, ora sobre a inteligência, ora sobre o instinto e até se eles têm livre arbítrio !
Mas, a grande questão era a de que se os animais têm alma.
Tudo começou quando Kardec perguntou aos espíritos da Codificação: - Pois se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de ação, há neles um princípio independente da matéria? (questão 597).
Secamente, responderam os espíritos: - Sim, e que sobrevive ao corpo.
Novamente Kardec na questão 597-a: - Esse princípio é uma alma semelhante à do homem?
Responderam: - É também uma alma, se o quiserdes; isso depende do sentido em que se tome a palavra, mas é inferior à do homem. E completam: - Há, entre a alma dos animais e a do homem tanta distância quanto entre a alma do homem e Deus.
- Caramba!, assustou-se o jovem Lúcio.
Gabriel Delane, in Evolução Anímica, pág. 63, ensina: "se o animal executar ações inteligentes, é porque é dotado de inteligência, e se esses atos forem da mesma índole que se percebe nas pessoas, evidentemente se conclui que tal inteligência é semelhante à alma do homem, de vez que, na criação, somente a alma é dotada de inteligência".
Esse princípio, segundo Delane, enseja a conclusão de que o princípio inteligente (alma) que habita o corpo do animal é da mesma natureza que a humana, apenas com a diferença do desenvolvimento gradativo (evolução gradativa).
- Caramba!, assustou-se, também, a jovem Eniele, completando: - quer dizer que a alma dos bichos é igualzinha a nossa?
A gargalhada foi estrepitosa na Casa Espírita e isso causou certa apreensão em Claudemiro acostumado noutros centros onde quando muito se permitia sorrir, mas, jamais gargalhar. - Que falta de respeito, pensou com seus botões. Eita povinho mais doido, sô. Onde já viu rir assim a bandeiras despregadas!
- De jeito nenhum, refutou o cinquentão Agostinho; homem é homem, animal é animal. Não acredito que um dia os animais possam virar homens.
Sorrindo, ainda, o coordenador da reunião de estudos contou que na obra citada, Gabriel Delane narra uma história verdadeira contada por um cidadão, que descortinava a paisagem em frente à sua janela, sobre uma raposa que conduzia um ganso como sua presa. Diante de um muro muito alto a raposa estacou e tentou, sem largar do ganso, aprisionado entre os dentes dela, saltar sobre o obstáculo, não conseguindo em nenhuma das três tentativas.
Assentou-se apreciando o muro como se estudasse uma forma de superá-lo. De repente, agarrou o ganso pela cabeça esfregando-a de encontro à parede saltou até alcançar uma reentrância onde enfiou o bico da ave, fixando aquele corpo ali. Depois, firmando-se sobre a ave presa no muro, chegou ao cimo. Jeitosamente, abocanhou novamente a presa atirando-a para o outro lado, saltou sobre o muro, lá agarrou, novamente o ganso e saiu em desabalada carreira planície afora.
Ainda na mesma obra, Delane conta sobre um urso muito inteligente do zoológico de Viena que divisando uma fatia de pão que flutuava na água fora da jaula, teve a idéia engenhosa de revolver a água com sua pata, formando assim uma corrente artificial que trouxe para perto de si o pedaço apetitoso de pão.
Sem sombra de dúvidas que a idéia do urso foi genial. Das duas histórias contadas por Delane, torna-se fácil compreender que tanto o urso quanto a raposa demonstraram possuir três coisas essenciais ao sucesso de suas empreitadas: 1- idéia de cálculo; 2 - raciocínio; e 3 - decisão.
Certas criaturas humanas não teriam tamanha inteligência demonstrada pela raposa e pelo urso.
Allan Kardec, n'O Livro dos Médiuns, capítulo XXII, páginas202 a 207, edição IDE, referindo-se à inteligência dos animais, ensina: "Não se lhes pode, sem dúvida, recusar uma certa dose de inteligência relativa, mas, seria preciso convir que, em certas circunstâncias, sua perspicácia ultrapassaria de muito a do homem, porque não há pessoa que possa se gabar de fazer o que eles fazem; seria preciso mesmo, para certas experiências, lhes supor um dom de segunda vista superior a dos sonâmbulos mais clarividentes".
Novamente Delane, na mesma obra, porém grande parte buscada na Revista Científica, edição de janeiro de 1879, narra que no Zoológico de Viena, havia uma enorme quantidade de ursos e a direção, receosa da proliferação da espécie em escala descontrolável, resolveu eliminar alguns deles. Assim foram lançados bolos envenenados para dois ursos que mesmo famintos, cheiraram os alimentos e fugiram. Entretanto, mais tarde, atraídos pelo cheiro do ácido prússico, veneno potentíssimo, empurraram os bolos para o fosso de água e ali, manipularam até que a evaporação do tóxico deixou os alimentos livres de qualquer traço perigoso. Só então os famintos ursos devoraram os bolos. Esse comportamento inteligente não se lhes salvou a vida como a direção acabou por perdoá-los.
Prossegue Delane com relatos interessantíssimos, como o da vespa que tentando transportar o cadáver de uma mosca, mas, percebendo que as asas desta lhe dificultavam o voo, inteligentemente, tomou sua decisão: pousando sobre a mosca, cortou-lhe as asas voou, com facilidade, transportando o cadáver do inseto, aprisionado em suas patas.
Sou testemunha de um caso espetacular de inteligência e malícia de um animal selvagem. Na minha chácara no município de Nerópolis, Estado de Goiás, vez ou outra, atraídos pelas galinhas, patos e galinhas de angola, que circulavam livremente pelo terreiro, de vez em quando, gatos do mato só não abocanhavam algum destes animais menores quando os cães, eram cinco, os impediam de conseguirem a presa. Entretanto, no córrego que mais tarde veio a formar o lago da represa, apareceu uma lontra que, espertamente saía da água e sempre levava uma ou outra galinha ou abocanhava um ou outro pato que nadava por ali. Num dia em que a lontra saiu da água para perseguir uma galinha próxima, mas, que conseguiu escapar do seu bote, a cadela Tulipa disparou em cima da caçadora que caiu na água e só ficou com o nariz de fora. Confiante de que pegaria a lontra, Tulipa se atirou na água, foi quando o animal selvagem deu um bote e iniciou o afogamento da cadela. Sêo Geraldo, o caseiro, atirou com a espingarda cartucheira, acertando a cabeça da lontra que assim largou a cadela que foi recolhida viva pelo atirador.
Sem sombra de dúvidas que a lontra utilizou-se de sua invejável inteligência consubstanciada através da malícia atraindo a sua inimiga para afogá-la. Preparou a armadilha e a cadelinha caiu direitinho.
Costelinha é um cão que apareceu na porta da nossa Casa Espírita faminto e sofrido. Sentia-se que ele buscava abrigo e compaixão. Ao final da reunião, Karla, nossa confreira, condoída levou-o para sua residência, onde ele foi acolhido carinhosamente por ela e por seu marido o amigo Carlos. Alimentaram-no, dispensando todo um tratamento que se fazia necessário à recomposição física do animal. A princípio, Costelinha, nome dado por Karla, em face de que quando lá chegou desnutrido, suas costelas estavam à mostra, fazia suas necessidades indiscriminadamente em qualquer lugar. Com o tempo, os seus donos começaram aplaudi-lo toda vez que ele fez suas necessidades no lugar adequado. Ele aprendeu e a cada vez que era aplaudido, tudo indicava, que ele sorria, mostrando sua satisfação, sua felicidade abanando o rabo e olhando com olhos brilhantes os donos entusiasmados.
Assim, a cada vez que ele sentia necessidade, beirava a porta que era liberada. Logo depois, satisfeito e aplaudido, voltava todo feliz.
Pois numa destas noites, com diarréia, defecou no box do banheiro do casal.
Quando Karla percebeu pelo cheiro e pela sujeira, olhou firmemente para o cão que imediatamente escondeu sua cabeça entre as patas dianteiras, não deixando qualquer dúvida de que estava envergonhado do que fizera.
A análise do comportamento do cão pelo grupo espírita, colocados os fatos por Karla, ficou entendido que o cão antes criticado porque fizera em lugares indiscriminados e aplaudido quando defecara em lugares corretos, concluiu que sentira o olhar de Karla como reprovação por ter se aliviado no lugar menos adequado e, portanto, envergonhou-se. Era o amor-próprio ferido pelo olhar reprovativo da dona em face do lugar diferente do correto.
É inquestionável que Costelinha não apenas goza de uma inteligência além do normal nos animais, como tem capacidade de raciocínio, além do sentimento de amor-próprio.
Há tantas passagens com todos os animais domésticos ou selvagens que não mais se surpreendem os homens pela inteligência e pelos sentimentos manifestados por eles, demonstração clara e insofismável que tudo evolui, inclusive os seres considerados irracionais mas, que têm tanto ou mais raciocínio do que certos humanos.

C O N T O
A LIÇÃO DOS GANSOS

Quando um ganso bate as asas, cria um vácuo para o pássaro seguinte. Voando numa formação em "V", o bando inteiro tem seu desempenho 71% melhor do que se a ave voasse sozinha.
- Pessoas que compartilham uma direção comum e senso de comunidade, podem atingir seus objetivos mais rápidos e facilmente.
Sempre que um ganso sai da formação sente subitamente a resistência por tentar voar sozinho e, rapidamente, volta para a formação aproveitando a aspiração da ave imediatamente à sua frente.
- Se tivermos tanta sensibilidade quanto um ganso, permaneceremos em formação com aqueles que se dirigem para onde pretendemos ir e nos dispusermos a aceitar sua ajuda, assim como prestar a nossa ajuda aos outros.
Quando o ganso líder se cansa, muda para trás na formação e, imediatamente, um outro ganso assume o lugar, voando para a posição de ponta.
- É preciso acontecer um revezamento das tarefas pesadas e dividir a liderança. As pessoas, assim como os gansos, são dependentes umas das outras.
Os gansos de trás, na formação, grasnam para incentivar e encorajar os da frente a aumentar a velocidade.
- Precisamos nos assegurar de que o nosso "ganso" seja encorajador para que a equipe aumente o seu desempenho.
Quando um ganso fica doente, ferido ou é abatido, dois gansos saem da formação e seguem-no para ajudá-lo e protegê-lo. Ficam com ele até que esteja apto a voar de novo ou morra. Só assim, eles voltam ao procedimento normal com outra formação, ou vão atrás de outro bando.
- Se nós tivermos bom senso tanto quanto os gansos, também estaremos ao lado dos outros nos momentos difíceis.   (Autor desconhecido.)

sexta-feira, 7 de junho de 2013

"A SENHORA DOS ESPÍRITOS" CARTA DE GERSON SIMÕES PARA A REVISTA ISTOÉ



Gerson Simões

Prezado João Loes

Na matéria publicada na revista, do dia 05/06/2013 -  ANO 37 – Nº 2272, com o título  “A SENHORA DOS ESPÍRITOS”, sob sua responsabilidade, devo esclarecer que você cometeu um grande equívoco ao informar na página 80,  que:

“A UMBANDA É UM RAMO DO KARDECISMO QUE NASCEU COMO UMA OPÇÃO PARA QUEM CONCORDAVA COM AS PREMISSAS BÁSICAS DE KARDEC, MAS NÃO SE VIA REPRESENTADO NA SUA PESADA TRADIÇÃO EUROPEIA. SE OS KARDECISTAS VALORIZAM O CIENTIFICISMO, O ESTUDO E A ILUSTRAÇÃO, OS UMBANDISTAS PREFEREM A EXPERIÊNCIA ACUMULADA NA PRÁTICA. SE NO KARDECISMO, AS REFERÊNCIAS ESPIRITUAIS SÃO MÉDICOS E ESCRITORES, NA UMBANDA QUEM SURGE É O PRETO VELHOE O CABLOCO”.     

Lembro que você aprendeu na cadeira de Antropologia, ministrada nos Ciclos Básicos dos cursos de Jornalismo que, historicamente, a Umbanda teve início em nosso país no século XVI, com a vinda dos nossos irmãos africanos através da escravatura do negro no Brasil, os quais incorporaram impositivamente rituais do catolicismo às suas crenças de origem. Já o Espiritismo teve início na França, a partir de 18 de abril de 1857, com a publicação de "O Livro dos Espíritos", que chegou ao Brasil por volta de 1860.
Portanto, a Doutrina Espírita não tem vínculo algum com cultos de origem africana, seitas ou rituais de magismo, pois não resulta de qualquer forma de sincretismo religioso e muito menos vinculado se encontra a outras práticas assemelhadas, como é o caso da Umbanda, que está mais próxima do Catolicismo do que de qualquer outro culto religioso adotado no Brasil.
         Esclarecemos ainda que quando o Espiritismo se iniciou no Brasil, nas últimas décadas do século passado, já haviam cultos africanos espalhados por todo o país e, particularmente, na Bahia. Esses cultos, enraizados no Brasil desde o período colonial, absorveram grande influência do catolicismo, resultando um sincretismo religioso, sem que o Espiritismo tivesse exercido qualquer influência no seu surgimento, conforme depoimentos de Manoel Querino, em Costumes  Africanos no Brasil; Arthur Ramos, em Negro Brasileiro; e Waldemar Valente, em Sincretismo Religioso Afro-Brasileiro.
Para facilitar ainda mais o entendimento da questão, ou seja, a diferença entre o Espiritismo e a Umbanda, lembramos que o Espiritismo não tem qualquer culto material e não adota nenhuma espécie de ritual, como: oferendas, velas, imagens de santos, danças, uso de paramentos, procissões. Tudo isso são coisas absolutamente estranhas ao Espiritismo, que não pratica nenhuma forma de culto exterior, embora respeite todas as crenças. Assim sendo, vale frisar que o Espírita (neologismo criado por Allan Kardec) é o seguidor do Espiritismo, doutrina por ele codificada que não adota rituais de espécie alguma.
Por outro lado, não existe doutrina Kardecista. Allan Kardec não fundou nenhuma religião. Ele próprio deixou bem claro que o Espiritismo - o Consolador Prometido por Jesus - é de autoria dos espíritos, tendo ele sido apenas seu codificador, ou melhor, o responsável na Terra pela sua coordenação ou sistematização.
Existe, sim, Doutrina Espírita ou Espiritismo, jamais kardecismo, pois o Espiritismo é uma doutrina que não está centrada na pessoa de Allan Kardec, como podemos nos referir ao cristianismo, ao budismo etc. Portanto a  Doutrina é uma criação  dos Espíritos, por isso mesmo, denomina-se Espiritismo e não KARDECISMO
Outro fato, ainda, que não pode ser deixado de lado é o de que o IBGE, de acordo com as determinações estabelecidas pelo Ministério da Justiça diante da realidade brasileira, faz a distinção em seus questionários para fins de coleta de dados, inclusive os do último Censo, separando Católicos, Evangélicos, Espíritas, Umbandistas e Candomblecistas.

Certo de estar colaborando para que esta renomada revista da qual sou leitor de muitos anos, informe com precisão os fatos para seus leitores, agradeço a atenção dispensada e coloco-me a sua inteira disposição para qualquer esclarecimento posterior.

Atenciosamente,


Gerson Simões Monteiro
Escritor – Colunista do Jornal EXTRA desde abril de 1998 - Ex-presidente da União das Sociedades
Espíritas do Estado do Rio de Janeiro (USEERJ)





ANEXOS
1 -Para você se atualizar na matéria, a fim informar corretamente os seus leitores sugiro a leitura das obras do meu amigo com que trabalhei na CAPES – Ministério da Educação, o escritor brasileiro, especializado em temas afro-brasileiros,Edison de Souza Carneiro.  Ele fez todos seus estudos em Salvador, até diplomar-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da Bahia, em 1936 (turma de 1935).
São elas dentre outras:
  • Negros Bantos, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1937;
  • O Quilombo dos Palmares, Editora Brasiliense, São Paulo 1947, 1958;
  • Candomblés da Bahia, Editora Museu do Estado da Bahia, Salvador, 1948, 1954, 1961;
  • Antologia do Negro Brasileiro, Editora Globo, Porto Alegre, 1950;Religiões Negras, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1963.
2 E PARA ESCLARECER MELHOR O QUE É O ESPIRITISMO AQUI VAI RESUMIDAMENTE AS NOSSAS CONSIDERAÇÕES:
FUNDAMENTOS DA DOUTRINA ESPÍRITA
1. O QUE É SER ESPÍRITA

Muitas pessoas desejam saber o que é o Espiritismo e por extensão, o que é ser Espírita. Foi justamente para responder a essas duas questões que escrevemos essas notas.
Procuramos, numa linguagem simples, colocar ao alcance de todas as pessoas os princípios fundamentais do Espiritismo, utilizando os artigos publicados aos domingos na coluna "Em Nome de Deus", do Jornal Extra, e que agora são publicados no BLOG do jornal.
Nós vamos esclarecer neste primeiro capítulo “o que é ser espírita?"; “em que se baseia a sua crença; e também a diferença entre ser Espírita e ser
Verdadeiro Espírita”.
Bem, quando você pergunta de que forma uma pessoa se torna espírita podemos responder dizendo: é quando ela crê e admite os seguintes princípios básicos (ou fundamentais) da Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec.
Io) Na existência de Deus, criador de todas as coisas que se encontram no Universo, isto é, os espíritos encarnados e desencarnados e o mundo material.
2o) Na imortalidade da alma, que sobrevive após a morte do corpo físico, É bom que se diga que isso foi comprovado cientificamente por Allan Kardec, através de procedimentos por ele concebidos aos quais submeteu as inúmeras mensagens recebidas por diversos médiuns.
3o) Na evolução de todos os espíritos pela reencarnação. Criados por Deus na condição de simples e ignorantes, isto é, sem conhecimento algum e sem nenhum progresso moral, eles podem, através das reencarnações, atingir a perfeição espiritual, a mesma conquistada por Jesus.
4o) Na comunicação dos espíritos desencarnados com os encarnados, tal como aconteceu no Monte Tabor, segundo a Bíblia, quando dois mortos - os espíritos Elias e Moisés - conversaram com Jesus.
A pessoa, portanto, aceitando pela fé raciocinada esses princípios fundamentais do Espiritismo, pode ser considerada espírita. No entanto, reconhecemos o verdadeiro espírita por sua transformação moral, conforme conceituação de Allan Kardec no capítulo "Sede Perfeitos" de O Evangelho Segundo o Espiritismo. A transformação moral do espírita se dá quando ele pratica a caridade em toda a sua extensão e procura melhorar-se moralmente no modo de pensar e de agir.
Podemos afirmar que Chico Xavier foi exemplo de um verdadeiro espírita, como foi Bezerra de Menezes - o médico dos pobres - quando esteve entre os encarnados. Suas vidas são exemplos de humildade, de abnegação, e de profundo respeito ao sofrimento alheio e de amor ao próximo, por terem adotado como lema em suas vidas:
Concluindo podemos dizer que:
“Ser espírita é crer na existência de Deus; na imortalidade da alma; na Evolução do espírito pela reencarnação; e na comunicação dos espíritos”; e
que “O verdadeiro espírita além de admitir e crer nos princípios fundamentais do Espiritismo utiliza-os para modificar a sua conduta, tendo ---------- Mensagem encaminhada ----------

RESPOSTA DO JOÃO LOES

De: João Loes <joaoloes@istoe.com.br>
Data: 5 de junho de 2013 17:46
Assunto: RES: Sobre a Reportagem "A Senhora dos Espíritos" (ISTOÉ Ed. 2272)
Para: "Assessoria de Imprensa (RRJ)" <assimprensa@radioriodejaneiro.am.br>

Gerson,

Muito obrigado pelo seu e-mail. A informação que demos sobre a umbanda está de acordo com o que nos disse a nossa fonte, o professor Reginaldo Prandi, docente do departamento de sociologia da Universidade de São Paulo e autor do livro “Os Mortos e os Vivos” (Ed. Três Estrelas, 2012). O crédito, por alguma razão, acabou suprimido da arte que entrou na página 80 da matéria. Ainda assim, na próxima edição, publicaremos uma carta da Federação Espírita Brasileira (FEB) com o que ela entende ser o espiritismo e a umbanda. Entendimento, aliás, que se alinha com o que vc anotou.

Obrigado mais uma vez,
João Loes