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domingo, 18 de novembro de 2018

Um conceito fundamental de Allan Kardec foi adulterado! (*)


Paulo Henrique de Figueiredo


A adulteração de A Gênese em sua quinta edição alterou extirpou conceitos doutrinários. Eles ficaram desconhecidos por 150 anos! Está na hora de recuperá-los. Conheça um deles agora.

Os dogmas religiosos das mais diferentes religiões ancestrais afirmam que Deus nos deu o livre-arbítrio com a condição de que devemos obedecê-lo fielmente. Quem escolher errado, será castigado, sofrerá a queda, enfrentando as dores, ignorância, medo, todo tipo de abandono e sofrimento no mundo. Depois arrependido, Deus dá como recompensa a beatitude eterna!

Allan Kardec, em A Gênese, desmontou esse raciocínio, demonstrando que o livre-arbítrio não foi uma dádiva divina, mas uma conquista progressiva do espírito, por seu esforço, em suas reencarnações. Mas onde está esse ensinamento? Procure no livro inteiro e você não vai encontrar! Foi retirado da edição adulterada em 1872, que não foi feita por Kardec. Quem retirou o trecho certamente acreditava na queda, no castigo divino, num deus vingativo!

Vejamos uma comparação com A Gênese original de Kardec.

Capítulo 3, item 9. Em A Gênese adulterada, termina o parágrafo com a seguinte frase:

“O instinto se enfraquecer, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque assim domina a matéria”.

Mas não foi o que Kardec escreveu na edição original, onde completa:

“O instinto se debilita, ao contrário, à medida que a inteligência se desenvolve, porque assim domina a matéria; com a inteligência racional, nasce o livre arbítrio o qual o homem usa a seu capricho; então, exclusivamente cabe a ele a responsabilidade dos seus atos”.

Veja que ensinamento extraordinário!

Há uma transição natural da condição animal para o espírito humano. Nada é brusco na natureza!

Se por um lado a inteligência enfraquece os instintos, por outro vai conquistando a liberdade de escolher, o livre arbítrio! Ou seja, somente na medida desse progresso, vai sendo responsável pelos seus atos!

É o fim do conceito do pecado, do carma, da queda, do pecado original, do castigo divino e de todos esses dogmas da antiguidade!

O ato errado não gera castigo por uma lei implacável. A responsabilidade é progressiva, na medida da conquista do livre arbítrio. Por isso, quando o espírito sabe o que está fazendo, é inteiramente responsável pelas suas escolhas. O sofrimento é inerente à Imperfeição. E Deus, infinitamente bom, sabe que o destino de todos nós é o caminho do bem.

Esse é um novo ensinamento para os espíritas!

Precisamos restaurar A Gênese original de Allan Kardec, para que essa passagem fundamental, e as outras centenas delas adulteradas, possam ser lidas, estudadas, divulgadas, nos grupos espíritas brasileiros.(Por Paulo Henrique de Figueiredo, autor de Mesmer – A ciência negada do magnetismo animal e Revolução Espírita- A teoria esquecida de Allan Kardec)

Então, quem tem alguma dúvida sobre o valor da restauração da edição original de A Gênese de Allan Kardec, sugerimos: Na dúvida, ficamos com Kardec!


(*) (Por Paulo Henrique de Figueiredo, autor de Mesmer – A ciência negada do magnetismo animal e Revolução Espírita- A teoria esquecida de Allan Kardec)

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Conflitos de conduta e subjugação (Jorge Hessen)

Conflitos de conduta e subjugação (Jorge Hessen)

Jorge Hessen


Charity era viciada em drogas e deu à luz o menino Paris.  Nove anos depois engravidou novamente e teve a menina Ella. O menino era mais introvertido e tímido, enquanto Ella era extrovertida, teimosa e determinada.
Charity conseguiu ficar longe das drogas por alguns anos. Porém, quando Paris tinha 12 anos e Ella 3, teve uma recaída (por seis meses) com cocaína. Foi difícil para Paris perceber que sua mãe era uma viciada. Transtornado, com 13 anos de idade, ele sufocou e esfaqueou sua irmã 17 vezes com uma faca de cozinha. Após o crime, ligou para o 911, o número de emergência local. Paris disse à polícia que estava dormindo e que, ao acordar, viu que Ella tinha se transformado em um demônio em chamas. Então, ele teria pegado a faca e tentado matar o "demônio".
Em 2007, Paris foi condenado a 40 anos de prisão pelo assassinato. Charity estava convencida de que o crime não havia sido um acidente ou resultado de uma psicose temporária, pois, para ela, Paris realmente quis matar a irmã. Charity acredita que a recaída nas drogas contribuiu para deixar Paris furioso. Entretanto, do mesmo modo crê que grande parte do que está por trás da personalidade do filho seja genética, pois o pai de Paris tinha esquizofrenia do tipo paranoica, caracterizada por exemplo pela presença de ideias frequentemente de perseguição, em geral acompanhadas de alucinações.
Cremos que o ambiente familiar e social tem papel importante no desenvolvimento e manutenção de transtorno de conduta. Em alguns casos o uso de álcool e drogas pela mãe durante a gestação, e também de alguns medicamentos, já foram confirmados. As pessoas com transtorno de conduta são caracterizadas por padrões persistentes de comportamento socialmente inadequado, agressivo ou desafiante, com violação de normas sociais ou direitos individuais. São pessoas carentes de amor e de apreço pela sociedade, por isso ignoram o outro. Adotam costumes criminosos sem nenhum remorso, conservando-se frios e insensíveis ao que ocorre ao seu redor.
Para a psicologia o “self” nessas pessoas é desconectado do “ego”, padecendo uma rachadura que impede o completo relacionamento que determinaria a sua adaptação ao grupo social. O Espiritismo explica que isso procede de legados morais e espirituais que brotam das experiências infelizes de outras existências, quando o Espírito delinquiu, camuflando a sua culpa e se esquivando da coexistência social. E há em muitos casos influências espirituais que podem levar a desviosde conduta e mau caráter.
Allan Kardec esclarece que há vários tipos de obsessão, sendo o mais grave o de subjugação, em que o obsessor interfere e domina o cérebro do encarnado. A subjugação pode ser psíquica, física ou fisiopsíquica. Assim, as doenças mentais ou físicas também podem, de acordo com o conhecimento espírita, sofrer influências externas.
Recuando à época de Jesus, conferimos que os evangelistas anotaram diversos episódios de obsessões. A exemplo de Lucas, que descreveu o homem que se achava no santuário, possuído por um Espírito infeliz, a gritar para Jesus, tão logo lhe marcou a presença: “que temos nós contigo?”. [1]
Numa ação obsessiva, seguida de possessão e vampirismo, o evangelista Marcos escreveu sobre o auxílio seguro prestado pelo Cristo ao pobre gadareno, tão intimamente manobrado por entidades cruéis, e que mais se assemelhava a um animal feroz, refugiado nos sepulcros. [2] No episódio da obsessão envolvendo alma e corpo, o apóstolo Mateus anotou que o povo trouxe ao Mestre um homem mudo, sob o controle de um Espírito em profunda perturbação e, afastado o hóspede estranho pela bondade do Senhor, o enfermo foi imediatamente reconduzido à fala. [3]
Na obsessão indireta, cuja vítima padece de influência aviltante, sem perder a própria responsabilidade, o discípulo amado João registrou que um Espírito perverso havia colocado no sentimento de Judas a ideia de negação do apostolado. [4] E na complicada obsessão coletiva causadora de “moléstias-fantasmas”, encontramos o episódio em que Filipe, transmitindo a mensagem do Cristo entre os samaritanos conseguiu que muitos coxos e paralíticos se curassem, de pronto, com o simples afastamento dos Espíritos inferiores que os molestavam. [5]
Diante dessas inquietações espirituais, Emmanuel afirma que o Novo Testamento trata o problema da obsessão com o mesmo interesse humanitário da Doutrina Espírita. Em face disso, devemos manter-nos atentos e ampliar o serviço de socorro aos processos obsessivos de qualquer procedência, porque os princípios de Allan Kardec revivem os ensinamentos de Jesus, na antiga batalha da luz contra a sombra e do bem contra o mal. [6]

Referências bibliográficas:
[1]           Lucas  4: 33,35
[2]           Marcos 5: 2,13
[3]           Mateus 9: 32,33
[4]           João 13: 2
[5]           Atos 8: 5,7
[6]           XAVIER, Francisco Cândido. Seara dos Médiuns, ditado pelo espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 2001


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Genética e caviares ante o mérito natural (Jorge Hessen)

Genética e caviares ante o mérito natural (Jorge Hessen)



Jorge Hessen

O termo meritocracia provém do prefixo latino meritum ("mérito") e do sufixo grego cracia, ("poder”), sugere conjunturas conseguidas por mérito pessoal. É óbvio que a estrutura biogenética (os genes) não definem méritos individuais, embora posam influenciar. Considerando-se que há fatores ambientais e espirituais, os méritos pessoais não podem ser explicados somente por fatores genéticos.
Vociferam, especialmente os ideólogos “caviar”, que há contradição na crença popular da “meritocracia”, considerando o modelo de hierarquização baseado nos méritos pessoais de cada indivíduo. Trombeteiam que nascer em berço de ouro é melhor do que nascer inteligente, porque duas pessoas geneticamente semelhantes podem ter pontuações diferentes no teste de QI, e as mais ricas investiram mais recursos escolares em seus filhos. Esbravejam assim os seguidores da “romanesca ideologia igualitária”, inclusive alguns “espíritas ateus”, conforme declara o blog http://espiritismoateu.blogspot.com/ (creia!).
Essa “vã ideologia igualitária”, que extasia a mente desconexa de lógica, parece ser mais “justa”, e parece atender melhor à parte mais “desprotegida” da sociedade. Porém, a pauta do “igualitarismo” carrega consigo a nódoa desprezível da incapacidade de respeitar o livre arbítrio individual. A “fantasiosa ideologia igualitária” não conseguirá jamais se estabelecer com o consentimento dos cidadãos lúcidos. Em face disso precisa se impor à força para que os “mais iguaizinhos” (grupelhos saqueadores da liberdade individual) conduzam e proíbam a “liberdade” do resto da massa aturdida e reprimida.
Via de regra, os oportunistas e ideólogos “esturjões” ou obsidiados por caviar são ateus, abrangendo, como se vê no blog acima, determinados “espíritas”...(espíritas!?...hum!!!!), materialistas e impetuosos mensageiros de sistemas [repressores] e incontestavelmente repletos de cobiça (fascinados por dinheiro – o materialismo). Tais criaturas bucólicas não compreendem que a tão sonhada e “folclórica ideologia igualitária” seria a curto prazo desfeita pelo pesadelo lógico da meritocracia e pela força das circunstâncias.
As considerações espíritas certamente não podem ser entendidas de forma ingênua e fatalista, segundo o conceito de que as coisas são como são em decorrência unicamente de causas passadas e de que devemos nos sujeitar a elas. Rejeitarmos a extrema desigualdade social e fazermos o possível para reduzirmos as distâncias que existem entre as pessoas é obrigação de todos.  Indubitavelmente não é natural a desigualdade extrema na sociedade. É obra dos egoístas, e não de Deus. Mas essa desigualdade extremada desaparecerá quando o egoísmo e o orgulho deixarem de predominar. “Permanecerá porém a desigualdade do merecimento, pois que a cada um segundo seus méritos, como proferiu Jesus.” [1]
Em verdade, “O Espiritismo [...] em face das doutrinas religiosas enfraquecidas, petrificadas pelo interesse material, impotentes para esclarecer o Espírito humano, ergueu-se uma filosofia racional, trazendo em si o germe de uma transformação social, um meio de regenerar a Humanidade, de libertá-la dos elementos de decomposição que a esterilizam e enodoam”. [2] A Justiça Divina se baseia no livre-arbítrio e nas ações individuais. Não é a opressão coletiva que fará um indivíduo social, fraterna ou moralmente melhor; é o mérito de cada um que refletirá no coletivo.
Não é raro se fazer referência à meritocracia espírita, designada por Kardec como aristocracia intelecto-moral, desmerecendo-a por analogia à meritocracia vigente. A meritocracia espírita é fundamentada nas conquistas morais do Espírito encarnado. Os conceitos do Espiritismo defendem a meritocracia do ideário liberal, a liberdade individual e quem batalha por esses valores não deve ser tido como um antidemocrático.
O conceito meritocrata reflete que o progresso depende diretamente do esforço individual que não é “recompensa”, mas consequência natural, efeito desejado, ou seja, só prospera quem escolhe avançar. Quem assim não age, padecerá as naturalíssimas decorrências educativas conexas. Todavia, do ponto de vista material, a sociedade organiza-se conforme o próprio nível moral dos seres, e quanto mais evoluída, mais o mérito é reconhecido como base da justiça.

Referências bibliográficas:

[1]       KARDEC Allan. O Livro dos Espíritos , questão 812,  RJ: Ed. FEB, 2000
[2]       DENIS, Leon. Depois da Morte, capitulo 24, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1998

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Superações íntimas por meio do perdão (Jorge Hessen)

Superações íntimas por meio do perdão   (Jorge Hessen)


Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com

Com Kardec aprendemos que devemos amar os criminosos [que nos ultrajam] como criaturas de Deus, “às quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem”(1), como também a nós, pelas faltas que cometemos contra sua lei. Não nos cabe dizer de um criminoso: é “um miserável; deve-se expurgar da terra; não é assim que nos compete falar. Que diria Jesus se visse junto de si um desses desgraçados? Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia um doente bem digno de piedade; estender-lhe-ia a mão. Em realidade, não podemos fazer o mesmo, mas pelo menos podemos orar por ele.” (2)
No quotidiano, quando somos ofendidos por esse ou aquele motivo, quase sempre encapsulamos o desejo de revanche e mantemos o "link" mental com as forças poderosas do mal, que somadas a outras tantas circunstâncias potencializam as sombras de nossos desagravos. Naturalmente, o perdão não significa conivência com o erro, até porque a atitude de perdoar e desculpar sem limites pode incitar o criminoso à prática do mesmo ato reprovável. Isso não é perdão, mas subserviência ou omissão.
Ora, todos sabemos que perdoar coisas leves contra nós mesmos é relativamente fácil; porém, quando se trata de algo mais grave como um assassinato, um estupro, uma infidelidade conjugal por exemplo, a dificuldade de superação da mágoa aumenta consideravelmente. Por isso a Doutrina Espírita leva a refletir que o perdão será sempre o sentimento que nas superações pessoais transcendem ao próprio ser.
Escutemos as palavras de Jesus: "Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem e caluniam" (3). E mais: "Se perdoares aos homens as faltas que cometeram contra vós, também vosso Pai celestial vos perdoará os pecados; mas, si não perdoardes aos homens quando vos tenham ofendido, vosso Pai celestial também não vos perdoará os pecados". (4)
Não resta dúvida de que aprendendo a perdoar estaremos promovendo nosso crescimento espiritual. Mas não podemos nos deixar ensopar de hipocrisia ao ponto de dizermos que já conseguimos perdoar todos os que nos ofendem. Certamente os agravos que nos façam não ficarão isentos das consequências naturais, mas deixemos a cargo do Criador a justa reparação.
Ouçamos o Mestre: "Aprendestes que foi dito: olho por olho e dente por dente. – Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal que vos queiram fazer; que se alguém vos bater na face direita, lhe apresenteis também a outra...". (5) Os Benfeitores advertem: "No Cristianismo encontram-se todas as verdades; são de origem humana os erros que nele se enraizaram. Jesus não quis dizer para deixarmos de reprimir o mal, mas para não pagar o mal com outro mal. Perdão é o pagamento do mal com o Bem... O perdão nivela os homens pelo que neles há de melhor, libertando quem perdoou dos maus sentimentos que o escravizavam a quem o feriu.” (6)
Refrear o desejo de vingança não é possível quando alguém sente o coração transbordar de fúria. Contudo, lembremos que entre o desejo de vingança e a execução da ação vingativa existe espaço suficiente para exercermos o livre-arbítrio, ou seja, a escolha entre o bem e o mal. A vingança será sempre uma atitude insensata e inútil, até porque nenhum benefício trará ao nosso progresso, e uma vez consumada, terá satisfeito apenas a nossa inconformação diante dos desconhecidos motivos da nossa provação.

Referências bibliográficas:

[1]           KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Caridade ara com os criminosos, instruções de Elisabeth de France (Havre, 1862),  Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000, Cap. 11 
[2]           KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Caridade ara com os criminosos, instruções de Elisabeth de France (Havre, 1862),  Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000, Cap. 11 
[3]           Mateus, 5: 43 e 44
[4]           MATEUS, cap. VI, vv. 14 e 15.
[5]           Cf. Mateus, cap. V, vv. 38 a 42
[6]           KARDEC Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo, RJ: Ed FEB, 2003, cap. VI, item 5, 118

A escola poderá fazer o cidadão, mas somente o lar pode edificar o homem (Jorge Hessen)

A escola poderá fazer o cidadão, mas somente o lar pode edificar o homem (Jorge Hessen)





Jorge Hessen

No Japão, tarefas escolares como limpeza da sala de aula são feitas pelos próprios alunos que ainda têm atividades extracurriculares de esporte e artes que instruem para o respeito à coisa pública e a importância do trabalho em grupo. Além das aulas, a rotina de um professor no Japão inclui aconselhamento, serviços administrativos e visitas às casas dos alunos. Valoriza-se a aprendizagem ativa, onde o aluno é protagonista, e o professor mediador, sempre com o envolvimento da família na educação para se alcançar os melhores resultados.
Na verdade, os pais são responsáveis pelo desenvolvimento dos valores dos filhos e não devem apostar na escola para exercer essa tarefa. Um pai autêntico é aquele que cultiva em casa a cidadania familiar. Ou seja, ninguém em casa pode fazer aquilo que não se pode fazer na sociedade. É preciso impor a obrigação de que o filho faça isso, e assim cria-se a noção de que ele tem que participar da vida comunitária. Não há dúvida de que ante as balizas do bom senso e moderação os pais precisam estabelecer limites. Porém, essa exigência é muito mais acompanhar os limites daquilo que o filho é capaz de fazer.
Até os sete anos de idade aproximadamente é o período infantil mais acessível às impressões que se recebe dos pais, razão pela qual os pais não podem esquecer o dever de orientar os filhos quanto aos conteúdos morais. “O pretexto de que a criança deve desenvolver-se com a máxima noção de liberdade pode dar ensejo a graves perigos (...) pois o menino livre é a semente do celerado.” [1]
E mais, diante dos filhos insurgentes e incorrigíveis, insensíveis a todos os processos educativos, “os pais, depois de movimentar todos os processos de amor e de energia no trabalho de orientação deles, é justo que esperem a manifestação da Providência Divina para o esclarecimento dos filhos rebeldes, compreendendo que essa manifestação deve chegar através de dores e de provas acerbas, de modo a semear-lhes, com êxito, o campo da compreensão e do sentimento”. [2]
O período infantil é propício para deixar o espírito mais acessível aos bons conselhos e exemplos dos pais e educadores, pois o espírito é mais flexível em face da debilidade física, daí a tarefa de reformar o caráter e corrigir suas más tendências. Sob o ponto de vista moral, Allan Kardec faz comentário à questão 685-A de O Livro dos Espíritos: "Há um elemento que não se ponderou bastante, e sem o qual a ciência econômica não passa de teoria: a educação. Não a educação intelectual, mas a moral, e nem ainda a educação moral pelos livros, mas a que consiste na arte de formar os caracteres, aquela que cria os hábitos adquiridos”. [3]
Todos temos necessidade de instrução e de amor. A escola é um centro de indução espiritual, onde os mestres de hoje continuam a tarefa dos instrutores de ontem. A educação, com o cultivo da inteligência e com o aperfeiçoamento do campo íntimo, em exaltação de conhecimento e bondade, saber e virtude, não seráconseguida tão só à força de instrução, que se imponha de fora para dentro, mas sim com a consciente adesão da vontade que, em se consagrando ao bem por si própria, sem constrangimento de qualquer natureza, pode libertar e polir o coração, nele plasmando a face cristalina da alma, capaz de refletir a Vida Gloriosa e transformar, consequentemente, o cérebro em preciosa usina de energia superior, projetando reflexos de beleza e sublimação. [4]
A melhor escola ainda é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter. Os estabelecimentos de ensino, propriamente do mundo, podem instruir, mas só o instituto da família pode educar. É por essa razão que a universidade poderá fazer o cidadão, mas somente o lar pode edificar o homem. [5]
O período infantil, em sua primeira fase, é o mais importante para todas as bases educativas, e os pais espiritistas cristãos não podem esquecer seus deveres de orientação dos filhos, nas grandes revelações da vida. Em nenhuma hipótese essa primeira etapa das lutas terrestres deve ser encarada com indiferença. O pretexto de que a criança deve desenvolver-se com a máxima noção de liberdade pode dar ensejo a graves perigos. Já se disse no mundo que o menino livre é a semente do celerado. Especialmente na primeira infância os pais espíritas devem alimentar o coração infantil com a crença doutrinária, com a bondade, com a esperança e com a fé em Deus.
Referências bibliográficas:
[1]            XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Pelo Espírito Emmanuel. 17. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1995, perg. 113
[2]            Idem perg. 190
[3]            KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: questão número 685, Ed. Feesp, 1972.
[4]            XAVIER, Francisco Cândico. Pensamento e Vida, ditado pelo Espírito Emmanuel , RJ: Ed. FEB, 1997
[5]            Idem

domingo, 28 de outubro de 2018

O Evangelho segundo o Espiritismo não incluído no “Pacto Áureo”



Antonio Cesar Perri de Carvalho (*)

Estudos e entrevistas que realizamos ao longo de alguns anos nos estimularam à elaboração do livro União dos espíritas. Para onde vamos? (Ed. EME, 2018)1 e, mais recentemente, à preparação da palestra de abertura do Encontro promovido pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo para comemoração - nos dias 20 e 21 de outubro de 2018 -, dos 70 anos do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita (São Paulo, 1948).2,3
Os Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita4 contém riquíssimo material de estudo e propositivo elaborado por notáveis líderes espíritas vinculados ao movimento espírita de São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Rio de Janeiro e do antigo Distrito Federal. 
Como repercussão das teses aprovadas houve rejeição por parte da direção da Federação Espírita Brasileira da época.
Todavia, vários dos protagonistas do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita, por estarem no Rio de Janeiro participando do Congresso da CEPA, repentinamente, foram recebidos pelo presidente da FEB. E num dia e meio, sem prévia preparação aconteceu a reunião que ficou conhecida como a Grande Conferência Espírita do Rio de Janeiro, também chamado “Acordo de Cavalheiros” e cognominado por Lins de Vasconcellos como “Pacto Áureo” e se constituiu no Acordo de Unificação do Movimento Espírita Brasileiro. Na oportunidade, o presidente da FEB Wantuil de Freitas, em nome da Diretoria da FEB, apresentou outra proposição, contendo dezoito itens, sintetizando os princípios sobre os quais poderiam assentar-se a União e a Unificação do Movimento Espírita, além de detalhamento de providências complementares para o funcionamento do Acordo.1,5
O Acordo foi assinado no dia 5/10/1949 na sede da FEB, “ad referendum” das Entidades cujos dirigentes estavam presentes, pois essa reunião não havia sido planejada e mesmo porque o tempo da reunião foi extremamente exíguo para se tratar de temas tão complexos.
Pelas reações ocorridas em São Paulo logo após o evento, e por declarações de alguns protagonistas, sabe-se que prevaleceu um gesto de boa vontade, mas com a expectativa de um futuro aprimoramento do documento.1,5
Esse aprimoramento ou revisão que não ocorreu, faz falta com vistas ao atendimento do cenário atual do movimento espírita.
A primeira questão a ser levantada é sobre o Artigo 1o do “Pacto Áureo”: “Cabe aos Espíritas do Brasil porém em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo.”
E o outro relacionado à fundamentação, é que apenas no Artigo 12o cita-se duas obras de Allan Kardec: “As Sociedades componentes do Conselho Federativo Nacional são completamente independentes. A ação do Conselho só se verificará, aliás, fraternalmente, no caso de alguma Sociedade passar a adotar programa que colida com a doutrina exposta nas obras: O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, e isso por ser ele, o Conselho, o orientador do Espiritismo no Brasil.”
A citação do livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, desde aquela época gerou controvérsias. Independentemente do conteúdo da obra há várias especulações ligadas ao fato de que se trata da única obra psicográfica de Francisco Cândido Xavier que faz citação nominal de um autor não aceito pela ampla maioria dos espíritas brasileiros.1
Aí surgem indagações óbvias: Por quê os proponentes do Acordo de união que foram participar do 2º Congresso da CEPA levando a tese “Prevalência do Espiritismo Religioso”, e a própria FEB deixariam de citar o livro O evangelho segundo o espiritismo, a obra espírita mais lida e comercializada no Brasil? Por quê no citado Acordo não estão relacionadas todas Obras Básicas de Allan Kardec?1
Fato digno de nota é que Francisco Cândido Xavier, não podendo comparecer ao citado Congresso Brasileiro enviou mensagem assinada pelo espírito Emmanuel com o título: "Em nome do Evangelho", incluída nos Anais do Congresso.1,2,3,4,5
À vista disso consideramos que no caso de uma revisão do "Pacto Áureo" ou na elaboração de um acordo de união novo, e sem nenhum juízo do conteúdo geral do livro, seja removida a referência à obra Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho, bem como de apenas duas obras do Codificador, substituindo pela citação completa das Obras Básicas de Allan Kardec.1,2,3
Pelo menos em tempos mais recentes seria uma total incoerência, pois até nas recomendações de Estatutos para os centros espíritas, em geral, há a indicação como Artigo 1º, por exemplo:
“O Centro Espírita ... fundado em ... , neste Estatuto designado “Centro”, é uma organização religiosa, com duração indeterminada e sede na cidade de ... , no endereço ... , e que tem por objeto e fins: I – o estudo, a prática e a difusão do Espiritismo em todos os seus aspectos, com base nas obras de Allan Kardec, que constituem a Codificação Espírita.”1
Depois de analisar o “Pacto Áureo” item a item em nosso livro União dos espíritas. Para onde vamos?, concluímos:
“Em nosso entendimento e experiência, com os apontamentos acima expressos, o texto do “Pacto Áureo” está superado. Imaginemos um dirigente que, ao ler o citado documento, resolva colocar em prática “ao pé da letra” o que está definido em seus artigos. O “Pacto Áureo” é um importante referencial histórico, mas não é mais aplicável na atualidade.”1,2,3
Mesmo se considerando várias ações encetadas pelo CFN da FEB para se divulgar Allan Kardec, como a Campanha Comece pelo Começo, aprovada em novembro de 2014, não se pode olvidar que o “Pacto Áureo”, com a questão doutrinária que destacamos e vários itens defasados, ainda é uma norma vigente. Há necessidade de se rediscutir e se refazer o “Pacto Áureo”!

Referências:
1) Carvalho, Antonio Cesar Perri. União dos espíritas. Para onde vamos? 1.ed. Capivari: Ed. EME. 2018. 144p.
2) Carvalho, Antonio Cesar Perri. 70 ANOS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE UNIFICAÇÃO ESPÍRITA – HISTÓRICO. Texto da palestra em edição digital: http://www.usesp.org.br/Associacao/Documentos; Depois clique em DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA, que contém o arquivo: Palestra - Comemorações dos 70 anos do 1o CBUE.
3) Carvalho, Antonio Cesar Perri. 70 ANOS DO CONGRESSO BRASILEIRO DE UNIFICAÇÃO ESPÍRITA – HISTÓRICO. Vídeo. Link: https://www.youtube.com/watch?v=oZVb7MfxejQ
4) Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita. São Paulo: USE. 191p. Edição em versão digital AEC/USE: http://www.usesp.org.br/Associacao/Documentos; Depois clique em DOCUMENTAÇÃO HISTÓRICA, que contém o arquivo: Anais do Congresso Brasileiro de Unificação Espírita.
5) Monteiro, Eduardo Carvalho; D’Olivo, Natalino. USE - 50 anos de unificação. São Paulo: USE. 1997. 335p.

(*) Foi presidente da USE-SP e da FEB.



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

CÉREBRO TRIÚNO


 


Francisco Habermann

Pode parecer engraçado, mas os músicos, poetas e artistas já sabem o que os cientistas tanto procuram em nosso cérebro. Penso que os políticos também...
Refiro-me aos segredos da nossa cachola – que os estudiosos chamam de encéfalo - essa máquina de evolução milenar que hoje nos domina ou nos engana no dia-a-dia. Percebemos essas nuances quando focamos nossos hábitos, por exemplo.
Hábito é algo interessante e até intrigante. A gente os tem, cultiva-os e nem os percebemos. Ficam tão arraigados em nossa rotina diária que a vida só nos parece boa se nada mudar no cotidiano. Caso mude, vem a crise e sofrimentos. O que não valorizamos são os ensinamentos advindos dessas crises. Aprendemos ( ou não ) com as mudanças. É nesse ponto que queria chegar.
Na atualidade somos explorados por mecanismo de inteligência artificial baseado especialmente em nossos hábitos. A dependência digital eletrônica é um exemplo. É uma realidade moderna e está presente desde a infância dos nascidos nas duas últimas décadas e também entre adesos tardios como este escriba. É mecanismo gerador de hábitos.
O assunto hábito tem tudo a ver com a neurofisiologia cerebral nossa, considerada desde os primórdios da evolução dos organismos vivos aqui na Terra. Vale recordar que a estrutura encefálica vem evoluindo desde o unicelular. Considerando os milhões de anos dessa trajetória orgânica, foram nas crises e nas modificações da rotina existencial que as alterações dos circuitos cerebrais propiciaram as necessárias modificações de hábitos. Os que entendem da evolução histórica desta máquina dizem que ela tem três andares: o reptiliano ( mais antigo, instintivo – no tronco encefálico ), representando o passado; o intermediário, racional, cortical, representando o presente; o lobo frontal – fonte superior de idealismo elevado, representando nosso futuro. Visão integradora ciência-espiritismo sobre esse assunto é abordada no recomendado livro ‘O cérebro triúno – a serviço do espírito’ dos professores Irvênia L.S. Prada, Décio Iandoli Jr e Sérgio L.S. Lopes ( AME Editora, SP,2018, 561 páginas ).
Será que a situação atual dos nossos cérebros – diante de seríssima crise de hábitos em variadas frentes, inclusive a política – permanece ainda limitada apenas na área primitiva reptiliana, instintiva, dominadora, competitiva pelo poder, violenta, disruptiva?
Nossos circuitos cerebrais necessitam serem religados aos andares superiores urgentemente. Os poetas e artistas do belo e superior já fazem isso. Foi o que Fernando Pessoa ( na voz de Alberto Caeiro ) já dizia há muito tempo ( ‘Guardador de Rebanhos’): “Sou um guardador de rebanhos, / O rebanho é os meus pensamentos...”
Vale uma bela reflexão nesta semana!