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terça-feira, 12 de novembro de 2019

UM DEUS VERDE



Margarida Azevedo
(Portugal)

O homem do séc.XXI, confrontado com as vantagens da tecnologia, que não só lhe torna a vida mais fácil como está ao serviço de todos, isto é, não é propriedade de uma classe privilegiada (o telemóvel do presidente da república é igual ao do motorista), leva, inevitavelmente, à reflexão de que se o homem atingiu este patamar de conforto pelos seus próprios meios, se foi capaz de através da tecnologia aproximar classes sociais, qual a dádiva de Deus para o homem? Dito de outro modo, qual o bem em nós que é, exclusivamente, proveniente de Deus? Ou o que é que Deus nos dá que seja superior a isto?
Por outro lado, talvez ao arrepio do que era de  esperar, a tecnologia não conseguiu afastar o homem de Deus. Pelo contrário, há um resíduo de insatisfação que não é possível colmatar tecnologicamente. As dores da alma são idênticas desde sempre e vão muito para além da luta pela sobrevivência, a defesa de pertences, as lutas pela melhoria das condições de vida. O ser humano é, por natureza, insaciável, problemático, detesta sentir-se só no mundo, muito embora esse mundo o assuste. O olhar para o céu e admirá-lo, deliciar-se com o incomensurável, ou passear o olhar pelos campos e assistir ao acontecer da natureza sempre foram o móbil para êxtases, sensações estranhas, delírios ou visitas a outras realidades. É o fenoménico a fazer despertar para outros sentidos da vida, fazendo-o curvar-se na ânsia de superar o “medo do escuro”.
Assim, aquilo que denominamos fé, cuja natureza desconhecemos, é absoluto, a priorista, ou pelo contrário, existe porque há um delírio ou uma tontura provocados pelas forças da vida natural e cósmica, na sucessão infinita de fenómenos a que estamos inevitavelmente submetidos? Parece que a explicação da primeira não está propriamente ao nosso alcance, porque vivemos o desajuste ou a impossibilidade de puro pensamento; a segunda retrata-nos como portadores de uma fé como ímpeto de espanto. Porém, quer num caso quer noutro há fé, fé sobre a qual é de capital importância reflectir.
Vejamos. Perdeu sentido, tornou-se uma incoerência, a conquista do reino de Deus segundo parâmetros de austeridade, sacrifícios, abstinências; hoje, isso toca as raias do fanatismo, retrata mesquinhez espiritual, apouca a presença do Divino no homem, consequentemente, prática inglória e estéril; por outro lado, longe vão os tempos da extensão dos rituais e cultos dos templos ao lar, em estreita contiguidade, com fim à pureza e recíprocas vantagens no céu. Tal uso ficou reduzido a alguns resistentes mais ortodoxos, e às religiões da natureza cuja teologia ganha terreno. E porquê?
Porque o conceito de natureza como terra, planeta, vida, casa, lar, família, enfim, subiu ao podium. Ele estende o sentido de crime vs castigo a tudo quanto existe: queimar uma floresta ou tratar mal um animal está tão sujeito a castigo divino como um crime contra  os haveres do outro, a violência doméstica, etc. “Deus não gosta que atentem contra a Sua obra.”, é o que mais se ouve.
Fé e ecologia é um binómio que as Religiões do Livro têm que levar a sério. A ecologia sobrepôs-se a tudo e a todos. O lar já não é uma casa da família, é também um lugar ecológico; o templo é um espaço onde se ensina e amar a Deus, o próximo e a nautreza, e, por isso, tem o dever pedagógico de sensibilizar para a vida espiritual num sentido abrangente. Hoje, toda a gente critica quem muito bate com a mão no peito, mas não sabe tratar do cão. Já não é possível amar a Deus sem amar a natureza por Ele criada, donde a boa prática ecológica faz parte do estatuto do humano como ser religioso. Lembra-te, Israel, que te tirei da terra do Egipto, da terra da servidão, não adorarás outros deuses além de Mim, não farás nem adorarás figuras, já não chega; amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, já não basta. Hoje, dir-se-ia: “Lembra-te, que além de Mim e do teu próximo, tens que amar a Natureza magnífica, os rios e os oceanos, tudo o que existe no fundo do mar, na terra e tudo o que voa pelos céus. Quando orares, agradece em primeiro lugar o ar que respiras, a água que bebes, os alimentos que te saciam.”  
A crise da história e da racionalidade do homem moderno, provocadas pelo desgaste social, traça um caminho para Deus baseado na desolação, não já no pecado enquanto uma falta moral. De tanto querer impôr-se à natureza, o homem sente que lhe perdeu o pulso, assume os desastres naturais como responsabilidade sua, em resultado de más práticas, e teme o desmoronar da vida. Mais temível do que a pena moral de Deus, o castigo divino pelas intrigas palacianas que tantas guerras fizeram, por interesses energéticos, pelos mais cínicos interesses que tantas mortes causaram, o que o homem mais teme é a reacção dos Elementos, as catástrofes naturais, ainda que possa dizer que, no fundo, ambas tenham a mesma origem, divina, a segunda é bem mais temida.
 Esta concepção esverdeada de pecado, inevitável face ao estado degradante a que o planeta chegou, pela mão do homem e pela ambição doentia, é ponto de charneira para a emergência de uma nova relação com Deus. Pensar o futuro é reflectir numa nova forma de vida, um novo conceito de felicidade baseado na partilha, não apenas com o próximo, mas também em conformidade com os rios e os oceanos, as florestas e a fauna, respeitando-os e amando-os enquanto autónomos e como fazendo parte do mesmo planeta e de nós mesmos.
Assim sendo, o pecado é alteridade do bem, da paz, do respeito e do amor; voz, não já da nossa natural ignorância, mas a ousadia do querer sobrepor-se à Criação (que é tudo, humano e não humano). O homem  continua a ser o grande desconhecido para si mesmo, não há dúvida. Falar de Deus e de si próprio perde-se. Mas isso não significa que faça do bem uma quimera, uma construção longe da vida terreal. Não pode destruir e destruir-se, alegando que só no outro mundo e mum momento fora da História é que é possível ser feliz. Pelo contrário, o bem é o conjunto de acções e pensamentos conduzentes à felicidade individual e colectiva. O bem é sempre viável não impossível. Felicidade e bem são parceiros na conquista do inefável, quem sabe, dos salutares delírios.  São  caminhos, não o próprio Deus. Deus é inqualificável. O pecado conduziu-nos até aqui. A tomadade consciência da desolação dá lugar à esperança.
A nossa vivência religiosa problematiza esta concepção de bem: ou porque o homem está a pagar uma dívida muito cara a Deus, contraída sabe-se lá onde e quando (ou “quandos”), pouco se importando com as implicações espirituais e religiosas de uma tal posição que, espremida, é vagainespecífica e uma resultante da subversão da fé a um passado nebuloso; ou porque vivemos tempos apocalípticos, (todas as épocas tiveram os seus apocalipses, a de Jesus foi uma delas), com a consequente esperança de um líder messiânico libertador e justiceiro. São disso exemplo os novos grupos religiosos que vão surgindo diariamente, ou por dissidência dos já existentes ou novos de raíz, de políticos quais salvadores da pátria e exemplos de fé, com grande moral e cheios de bons costumes, de boa vontade e munidos de belos discursos, que prometem pôr tudo na ordem enquanto o diabo esfrega um olho. Não faltam por aí messias: grupos, indivíduos, partidos políticos, religiões, máximas, preceitos, enfim. Apetece perguntar: qual é o líder que, hoje, não é messias?
O homem moderno mais crítico e mais atento, obviamente opõe-se-lhe, porque está  numa relação de proximidade com Deus do tipo “tu cá, tu lá”; o “Pai Nosso” já não diz “vós”, mas “tu”. Para Deus está reservada uma conversa de alma aberta. Deus está aqui e agora, trespassa os pensamentos;  não está longe nem se esconde, não quer ser desconhecido, relativiza-se na nossa humanidade; cultua-se não somente no templo, mas na natureza porque Ele é Vida. O culto é  um encontro social da fé e uma teatralização de um tempo longínquo, gerador de um sentido que é sempre novo. Cultuar é curvar-se em oração numa ritualística toda memória. A noção de eterno começa aí: a perpetuação de um acontecimento marcante na história, ponto de charneira de uma viragem que mudou o rumo de um povo ou uma nação. Todos os povos são portadores de algo que jamais poderá morrer: um conjunto de factos onde se encontram a História e a Fé.
A memória é uma força da fé na medida em que o apresenta facto histórico como uma vontade de Deus como Ser libertador. Por ela, Deus continua tão participativo como outrora. Por isso, o homem moderno dispensa o passado culpabilizador, seja ele qual for, como for, onde for. É do futuro que ele se ocupa. O que está morto, destruído, disso já não passa. Agora interessa saber o que pode construir, ou melhor, co-construir com o seu Criador. Para quê pensar em culpa, destruição, falta, erro? Já não se trata apenas da nossa História Humana, também da História Natural.
Quanto à fé, transfigurou-se, porque o homem é ele mesmo um ser transfigurado, uma caricatura do que já foi. A palavra da oração é outra, amadureceu, mantendo-se, no entanto, manifestação da transcendência na imanência. A mesma palavra diz e desdiz, chora e sorri, é de cá e de lá, tem força e fraqueza, tem pecado e …, tem natureza e história.
É facto que a fé assumiu, mais do que nunca, o seu duplo papel: religioso e cultural. Mas ainda é mais verdade que se tornou tripla: religiosa, cultural e natural. O reino de Deus já não está num céu azul, mas aqui e agora, ecologicamente.
Por meio da fé, todas as coisas são novas todos os dias, porque todos os dias são novos, singulares e únicos. A natureza, no seu aparente eterno retorno, é uma novidade constante; uma força renovadora qual horizonte de esperança e de liberdade. O homem moderno não pode perder esse horizonte: amar a Deus, o Próximo como a si mesmo e à Natureza, acima de todas as coisas, bem, já não vale a pena dizê-lo porque isso é todas as coisas (o que há mais além de Deus, o outro e todas as coisas?). A grande fé é amor.


quinta-feira, 7 de novembro de 2019

ESPINHO NA CARNE. INFANCIA-ADOLESCENCIA-VULNERABILIDADE SOCIAL


Luiz Carlos Formiga

                                                                                        
"JR é hemofílico. Contundiu-se em um jogo de futebol. Pai analfabeto, desempregado, não tem recursos para a medicação indicada. JR foi ao hemocentro que atende hemofílicos. A internação deixou-o nervoso. O estresse prejudica o processo de coagulação. Piorou, a ponto de sangrar em vários pontos do corpo. Os cuidados de enfermagem tiveram que ser constantes. Ele também está infectado pelo vírus da AIDS.
 Isolado, sozinho e com saudades passou a ter comportamento difícil, recusando a medicação, grita com médicos e enfermeiras. Tornou-se problema.
No entanto, não é um paciente problema, mas uma criança que está sofrendo, que quer levar uma vida normal, ir para casa e brincar.
JR não sabe que tem AIDS.  Seu estado emocional não permite que seja informado. Se ele não entende por que tem hemofilia, como explicar-lhe por que tem AIDS? JR tem, apenas, 11 anos."
Em 1977, quarenta anos atrás, fiquei estupefato lendo a Revista de Pediatria (vol. 43).
Um artigo relata 21 casos de tentativas de suicídio em crianças, 9 a 14 anos, por ingestão de produtos químicos. Ainda hoje trago o espinho na carne.
Após o atendimento médico, foi feito estudo das condições e circunstâncias sociais/familiares que pudessem estar relacionadas direta ou indiretamente com o evento, e ainda uma análise dos fatores que pudessem permitir a distinção entre a encenação suicida e a verdadeira tentativa.
Dentre os fatores sociais/familiares relacionados com a tentativa e as circunstâncias precipitantes, destacam-se o alcoolismo dos pais em 6; mau relacionamento em 5, e a ausência em 3. Como precipitante - desavença familiar.
Em 13 casos as mães tinham atividades profissionais diurnas fora de casa e, usualmente, seus filhos menores ficavam apenas na vigilância do mais velho. Em 14 casos, o número de irmãos variava de 4 a 8 e em apenas um caso foi encontrado filho único.
Os Centros de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil (CAPSi) são as principais instituições públicas de saúde a oferecer atenção diária a crianças e adolescentes que demandam cuidados em saúde mental. Nesses Centros, os profissionais são mobilizados para casos de uso abusivo de álcool/drogas, autismo e outros transtornos.
O trabalho com os familiares pode se tonar um dos maiores desafios, porque são pessoas carregadas de angústia, buscando respostas para os sintomas, tratamento e acolhimento dos filhos. Por outro lado, elas também sentem muita dificuldade em lidar com a doença dos filhos.
Os profissionais de saúde terão que ajudá-los a exercerem suas funções de cuidado, e, ainda, resistir à vontade de assumir os seus lugares. Faz-se necessário um trabalho clínico para que estes desenvolvam ou resgatem capacidades maternas e paternas.
Crianças e adolescentes que fazem uso de drogas lícitas ou ilícitas, nos dias de hoje, transformaram-se numa questão de extrema gravidade, fazendo emergir a angústia dos profissionais que os atendem e os posicionamentos polêmicos que envolvem o assunto. Manter um adolescente usuário de drogas em tratamento com outros casos e faixas etárias distintas implica para a equipe uma série de dúvidas relacionadas ao manejo adequado e à relação desses sujeitos com os demais pacientes.
Sentindo-se impotente, essas equipes ainda podem se sentir sem as possibilidades de contar com outros setores para o cuidado desses casos difíceis e podem se aprisionar em discussões e queixas repetidas.
O autismo é outro grande desafio para a prática clínica onde os profissionais compartilham também muitas dúvidas sobre a forma de intervenção, condução do tratamento, além de incômodo diante da angústia dos familiares, que sempre buscam respostas e resultados rápidos. (1)
Aos desafios acima, podemos somar a questão do prazo de validade da atual definição de saúde que é utópica e já ultrapassada, na visão de alguns profissionais de saúde. Dizem que ela visa uma “perfeição” inatingível separando o físico, o mental e o social. Não se pode fazer a clivagem entre mente e soma, “devendo-se tratar o doente e não a doença”.
Temos ainda que pensar que as injunções sociais atuam no aparato complexo que é o sujeito. O estilo e o ritmo de vida imposto pela cultura e a modalidade da organização do trabalho, podem impedir o trabalhador de manter seu funcionamento mental pleno. A vida, nas metrópoles, aponta na direção de uma unidade “sócio-psicossomática”.
Será que no futuro estaremos concordando com Segre & Ferraz, que sugerem que “saúde é um estado de razoável harmonia entre o sujeito e a sua própria realidade”? (2)
Na Ética das Virtudes buscava-se “O Caminho do Meio”. Depois, com a Ética do Amor, aprendemos a “fazer ao outro o que gostaríamos que o outro nos fizesse”.
Estamos diante de uma ética transdisciplinar, aquela que não recusa o diálogo, a discussão, seja qual for sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica.
Existem inteligências diversas, as mais conhecidas são a cognitiva e a emocional. No entanto, a espiritual é a que parece representar o mais expressivo grau de inteligência. Nesta, as ligações neuronais alcançariam posições bastante complexas, com ativa participação da base cerebral, zona do conhecido lobo límbico. Este modelo participaria das criações psicológicas, onde a intuição representaria a mola mestra do processo.
Inteligência emocional fala de emoções, a espiritual fala da alma. A espiritual tem a ver com o que algo significa para mim e não apenas como as coisas afetam minha emoção e como reajo. Na fase evolutiva em que nos encontramos a inteligência espiritual coletiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos numa cultura espiritualmente estúpida.
Umas síntese arriscada, a cognição nos capacita a achar caminhos e identificar as melhores rotas. A afetividade nos ajuda a escolher a melhor. A inteligência espiritual nos oferece a certeza na escolha.
Bill recostou-se na cadeira alta e contou.
“Nós moramos no bairro judeu, em Varsóvia, começou ele, pausadamente.
Moramos lá, minha esposa, nossas duas filhas e nossos três garotos. Quando os alemães chegaram á nossa rua alinharam a todos contra o muro e abriram fogo com as metralhadoras. Supliquei para morrer com a minha família, mas, porque falava alemão, eles me botaram num grupo de trabalho.
Fez uma pausa, talvez revendo esposa e cinco filhos. 
Eu tinha de decidir no ato se passava a odiar os soldados que tinham feito aquilo.
Era, realmente, uma decisão fácil.
Eu era advogado. Minha prática, com frequência, me havia mostrado o que o ódio podia fazer às pessoas, de corpo e mente. Aliás, fora o ódio que acabara de matar as seis pessoas que me eram mais importantes no mundo.
Decidi então que, fosse qual fosse o tempo que me sobrasse de vida, iria empregá-lo no amor a todo o ser, com que viesse a entrar em contato."

Leia mais
1.   Oliveira, A.C.B & Miranda, L. 2015. Práticas clínicas e o cuidado possível no CAPSi: perspectivas de uma equipe interdisciplinar. Acesso em novembro de 2019. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1983-34822015000100011
2.   Segre, M. &  Ferraz, F.C. 1997. O conceito de saúde. Ponto de Vista. Rev. Saúde Pública, 31 (5): 538- 542. São Paulo. SP. Acesso em novembro 2019.

terça-feira, 29 de outubro de 2019

É tristeza ou depressão? Eis a questão!

É tristeza ou depressão? Eis a questão!  (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
Brasília-DF

Antes de abordarmos o tema, cabe distinguir a simples tristeza da depressão. A tristeza é um sentimento corriqueiro que surge ocasionalmente em nossos corações. Mormente quando advém um acontecimento que sacode a nossa vida, porém é provisória.
Estranhamente, hoje em dia qualquer tristeza é tratada como doença psiquiátrica. Os pacientes preferem recorrer aos remédios a encarar os desafios da vida. Muitos médicos se rendem aos laboratórios farmacêuticos e indicam antidepressivos sem necessidade, exceto os psiquiatras, que são os que menos receitam antidepressivos, porque estão mais preparados para reconhecer as diferenças entre a “tristeza normal" e a patológica (depressão).
O que diferencia a "tristeza normal" da patológica é a intensidade. A tristeza patológica é muito mais intensa. A normal é um estado de espírito. Além disso, a patológica é longa. É o aperto no peito, a dificuldade de se movimentar; a pessoa só quer ficar deitada, tem dificuldade de cuidar de si própria, da higiene corporal. Na "tristeza normal" pode acontecer isso por um ou dois dias, mas depois passa. Na patológica, fica nas entranhas do ser.
Quem mais receita antidepressivos não são os psiquiatras, são os demais médicos. Os psiquiatras têm uma formação para perceber que primeiro é preciso ajudar a pessoa a entender o que está se passando com ela e depois, se for uma depressão, medicar. Agora, os não psiquiatras não querem ouvir. O paciente diz: “Estou triste.” O médico responde: “Pois não”, e receita o ansiolítico. Eis o problema!
A depressão deriva de duradoura ansiedade íntima. É uma indiferença de sentir o gozo pela vida, resultando em certo desgosto por viver. Essa amargura ou vazio d’alma podem estar escoltados por ideias de morte que se manifestam de múltiplas formas: o deprimido pode almejar morrer e até atentar contra a própria vida, ou meramente pode não ansiar mais viver, porém não pensa em tirar a própria vida e até receia a morte.
O processo depressivo pode variar de magnitude e é qualificado pela psiquiatria como depressão leve, quando os sintomas não intervêm em demasia no cotidiano, como depressão moderada quando já há um comprometimento maior na sustentação das atividades habituais e como depressão grave – neste estágio a pessoa torna-se bastante limitada na labuta cotidiana.
É muito importante buscar modos de se evitar chegar nesse nível, trabalhando-se com as causas profundas da doença, que por ser uma doença das emoções não tem sinais físicos ou bioquímicos. Frequentemente o doente deprimido ouve frases do tipo “você não tem nada” ou “depressão é frescura”, às vezes pronunciadas até por clínicos, que após escutarem o paciente requerem exames complementares que exibem resultados negativos.
Por outro lado, há aqueles médicos que se deixam levar pelo lobby da indústria farmacêutica. Não se pode mais ficar enfadado, apoquentado, triste, porque isso é imediatamente transformado em depressão. É a medicalização de uma condição humana. É transformar um sentimento normal, que todos nós temos, dependendo das situações, numa entidade patológica. Há situações em que, se não ficarmos abatidos, pode gerar transtornos emocionais – como quando se “perde” um ente querido. Mas muitos médicos não compreendem racionalmente alguns sentimentos e sintomas humaníssimos.
Muitos aflitos costumam recorrer aos tranquilizantes e se debatem aflitivamente para que a aflição não os abarque a vida cotidiana. É comum nos extasiarmos ante a beleza das estrelas do firmamento, em rogativas ao Criador, a fim de que a angústia não nos abata e nem nos alcance a caminhada, ou ainda para que os sofrimentos desviem para outros rumos. Contudo, a realidade das provas e expiações ante os estatutos de Deus chegará inexorável como mecanismos naturas de nossa evolução.
Ante os ventos impetuosos das chibatas emocionais, nos sentimos vencidos e solitários. Mas em realidade, o que parece infelicidade ou derrota pode significar intercessão providencial de Deus, sem necessidade, portanto do uso de tranquilizantes para aliviar a dor. Em muitos momentos da existência, quando choramos lágrimas de angústias, os Benfeitores se rejubilam de “lá”, da mesma forma em que os pomicultores de “cá” descansam, serenos, após o labor do campo bem podado. A vida é assim!
Essas lágrimas asfixiantes, muitas vezes representam para nós alegrias nas dimensões superiores da vida espiritual. Evidentemente nossos protetores do além não são indiferentes quando estamos em padecimentos atrozes, mas eles sabem exatamente que tal situação sinaliza possibilidades renovadoras no buril do nosso crescimento espiritual.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Espíritas progressistas?... Que coisa mais estranha! (Jorge Hessen)


Espíritas progressistas?... Que coisa mais estranha! (Jorge Hessen)


Jorge Hessen
Brasília-DF

Doutrinariamente falando, seria o espírita de “esquerda” ou de “direita”? Nem uma, nem outra. Ou melhor, no mínimo, um estudioso de Kardec deve ser de “centro” espírita (é lógico!). Humor à parte, nas hostes do Espiritismo não deveria haver espaços para militâncias ideológicas de “esquerda” ou de “direita”. Lembrando que longe (bem longe mesmo!) das instituições doutrinárias não é vedado ao espírita a participação do movimento político-partidário. Isso é uma questão pessoal.
Nas hostes espíritas, porém, não se deveria adotar qualquer confraria política. Atrair militância política partidária de “esquerda” ou “direita” para o ambiente espírita seria tão esdrúxulo quanto uma roda quadrada. Em face disso, não se deveria tratar duelos eleitorais (no sentido de desinteligências) nos recintos espíritas. A Doutrina Espírita encontra-se acima de nuances políticas transitórias.
Assistimos com estupefação promoção de “seminários” entre os tais espíritas “progressistas”, aqueles que se declaram espíritas “socialistas”, mas que, de praxe, não abrem mão de um requintado “caviar”. Tais “espíritas” “socialistas” /“progressistas” / “protetores dos pobres e oprimidos”, via de regra, estão pouco se lixando com os deserdados e não movem uma palha para conhecerem de perto e ou improvisarem uma visitinha às instituições doutrinárias especializadas em prestação de serviços à comunidade de indigentes econômicos.
Tais “espíritas progressistas” apontam Kardec como um ingênuo por ter explanado em O Evangelho Segundo o Espiritismo sobre a desigualdade das riquezas explicando-a sob a lei da reencarnação. Evocam tais “espíritas progressistas” que o proprietário dos meios de produção gera riquezas só para si, enquanto aos que trabalham resta o salário, representando apenas uma parte da riqueza gerada.
Creem no lema “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades", por isso os “espíritas progressistas” divergem de Kardec, dizendo que o Codificador se equivocou quando afirmou que é um ponto matematicamente demonstrado que a fortuna igualmente repartida daria a cada qual uma parte mínima e insuficiente.
Kardec assegurou também que se houvesse a repartição dos bens materiais (riqueza), o equilíbrio estaria rompido em pouco tempo, pela diversidade dos caracteres e das aptidões. Tal verdade kardeciana é insuportável para os “espíritas progressistas”, pois estes defendem a distribuição irrestrita dos bens produzidos pelas empresas,  a fim de que os proletários possam viver na prerrogativa e violência ideológica do infausto igualitarismo; os “espíritas progressistas” idealizam uma sociedade altruísta (à base de caviar), sem valorizar as legítimas conquistas individuais para a boa performance das estruturas sociais.
Quando Kardec afirmou que se a repartição da riqueza fosse possível e durável, cada um tendo apenas do que viver, e que seria o aniquilamento de todos os grandes trabalhos que concorrem para o progresso e o bem-estar da Humanidade, os “espíritas progressistas” alardearam que isso representa uma blasfêmia, pois as tecnologias produzidas têm atendido fundamentalmente às necessidades supérfluas da grande massa de consumidores – portanto, pessoas que já possuem o necessário podem utilizar a sua riqueza para o consumo do supérfluo.
Regurgitam os tais “espíritas progressistas”, questionando por que supor que Deus é o agente da concentração de riquezas? Protestam, então, que a riqueza se concentra pelo simples fato de que quem já possui fortuna tem mais chances de vencer num mercado competitivo, e assim acumular mais riqueza num movimento crescente de concentração de capital. Como se observa uma, dedução horizontalizada, leviana, mecanicista e nada razoável dos “insurgentes progressistas”, que insistem em dizer que isso não significa que devamos “ler a realidade” como um “plano de Deus”.
Acreditam os “progressistas” que a riqueza pode e deve ser concentrada sob a propriedade coletiva (sic), visando exclusivamente o benefício geral da humanidade, não permitindo a desigualdade de riqueza, pois assim toda a sociedade acaba “refém” da decisão do endinheirado de bem ou mal utilizar a riqueza. Além do que, a sua apropriação fica sendo necessariamente injusta, já que os trabalhadores que recebem salário como remuneração pela venda de sua força de trabalho não ganham integralmente por toda a riqueza por eles produzida.
Expõem ainda os “progressistas” que no Brasil as desordens distributivas estão na ordem do dia, pois os ricos se tornaram mais ricos, os pobres se tornaram menos pobres e uma certa classe média tradicional viu sua posição relativa em relação a essas duas outras camadas prejudicada. A classe média perdeu status. Os ricos se distanciaram e os pobres se aproximaram, daí o conflito atual. Que saibam utilizar a inteligência a fim de entenderem que “as classes [sociais] existiram e existirão sempre, o que, porém, deve preocupar, e é racional estabelecer a solidariedade entre elas, a conciliação de seus interesses, a multiplicação urgente das leis de assistência social, únicas alavancas mantenedoras da ordem.''[1]
É bem verdade que a desigualdade social ou econômica é um problema presente em todos os países (ricos ou pobres), decorrente da má distribuição de renda e, ademais, pela falta de investimento na área social. Compreendemos que uma repartição mais equitativa dos “bens” é imprescindível. Há “trocentas” teorias sociológicas, mil sistemas diferentes, tendendo a reformar a situação das classes desprovidas, a assegurar a cada um, pelo menos, o estritamente necessário. Ótimo!
Mas, infelizmente, noutro cenário, ao invés da recíproca tolerância que deveria aproximar os homens, a fim de lhes permitir estudar em conjunto e resolver os mais graves problemas sociais, tem sido com violência que o militante reivindica seu lugar na ágape social. Outrossim, é uma lástima ver o endinheirado aguilhoado no seu egoísmo e recusando a ofertar aos famintos as menores migalhas da sua fortuna. Dessa forma, um muro tem separado ambos, e os quiproquós, as selvagerias, as cupidezes, as animosidades, os desrespeitos acumulam-se dia a dia.
Politicamente sabemos que as leis elaboradas pelos legisladores podem, de momento, modificar o exterior, mas não logram mudar a intimidade do coração humano; daí vem serem os decretos de duração efêmera e quase sempre seguidos de uma reação mais depravada. A origem do mal reside no egoísmo e no orgulho. Os abusos de toda espécie cessarão quando os homens se regerem pela lei da caridade.
Para confirmar as magníficas teses de Kardec sobre o assunto, reflitamos com Emmanuel: “A desigualdade social é o mais elevado testemunho da verdade da reencarnação, mediante a qual cada espírito tem sua posição definida de regeneração e resgate. Nesse caso, consideramos que a pobreza, a miséria, a guerra, a ignorância, como outras calamidades coletivas, são enfermidades do organismo social, devido à situação de prova da quase generalidade dos seus membros. Cessada a causa patogênica com a iluminação espiritual de todos em Jesus-Cristo, a moléstia coletiva estará eliminada dos ambientes humanos”.[2]

Referências bibliográficas:
[1] Xavier Francisco Cândido. Palavras do infinito, III parte, ditado pelo Espírito Emmanuel, SP: Ed. LAKE, 1936
[2] Xavier , Francisco Cândido. O Consolador, pergunta 55, ditado pelo Espírito Emmanuel, RJ: Ed. FEB, 1978

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

A Principal Vítima. Goleada Flamengo, STF.



Luiz Carlos Formiga

No aqui e agora, a principal vítima dos memes é um gaúcho.(1)
A goleada virou um prato cheio para os piadistas das redes sociais.
Futebol nos oferece surpresas, como aquele  7 X 1, que choramos diante da Alemanha.
Chorei  naquela goleada de  8 X 2, quando o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu à favor do aborto. (2)
Lágrimas porque estamos hoje caminhando na borda do precipício.
Deus não existe, disse um garotinho, sem esperança.
Carvalhosa diz que “O STF não tem direito de transformar o Brasil numa República de Bandidos” (3)
Por outro lado, parece não ter perdido a esperança, depois do voto do ministro Luís Roberto Barroso. (4)
O que estará sentindo agora, depois que foi aberto o caminho para a derrota da operação Lava-Jato com a ministra?
Meus olhos sempre se molham, quando percebo a minha individual incompetência, a minha impotência. Aí escrevo para não surtar. Só assim não me sinto omisso. (5)
Preciso ter uma “sacada genial”. Aí agradeço a Hermógenes: “quando convencido da impotência aplicava uma estratégia e sempre saia vitorioso. Diante de Deus, entregava-Lhe o problema ou a si próprio, confiando e predisposto a aceitar o que lhe viesse. Numa prova de confiança, amor e fé, agradecia antecipadamente o que Deus acha-se melhor. Alívio imediato”. (6)
Acho que depois disso, só indo às ruas, nem que seja escrevendo.
Qual a principal vítima do Supremo? E das drogas?
Em tempo, saiu o vídeo 2 do MAP/Cristo Consolador sobre Dependência Química e Espiritualidade, em link provisório.


 O primeiro está no facebook . (7)

Leia mais

terça-feira, 22 de outubro de 2019

FERNANDO BEN E AS FALSAS CARTAS DE FATIMA




ACESSE LINK

 
É Preciso JUDICIALMENTE ser dado um BASTA nas atividades dos médiuns charlatões. FERNANDO BEN PEÇA PERDÃO AOS FAMILIARES ENGANADOS POR VOCÊ. TODAS (ISSO MESMO! TODAS) CARTAS DE FATIMA SAO FALSAS MENSAGENS MEDIUNICAS. PEÇA PERDÃO A DEUS E MUDE DE PROFISSÃO. 🙏FACA ISSO, PELO AMOR DE DEUS!
COMPARTILHEM COM TODOS OS SEUS AMIGOS DAS REDES SOCIAIS (WHATSAPP, TWITTER, FACEBOOK) JESUS E KARDEC AGRADECEM.

ACESSE O LINK
https://www.youtube.com/watch?v=XhmNnKDfyWQ&t=19s

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

O arrependimento como um convite à extração da pureza íntima para reparação do erro (Jorge Hessen)

O arrependimento como um convite à extração da pureza íntima para reparação do erro (Jorge Hessen) 


Jorge Hessen 
Brasília-DF 

A Providência Divina oportuniza ao Espírito falido uma experiência reencarnatória desafiadora, como um convite (amoroso e/ou doloroso), para reparação e reaprendizado das derrocadas morais de vidas passadas e atuais. 

Precisamos ajuizar o preceito de Causa e Efeito com o máximo discernimento, a fim de nos conscientizarmos sobre seu mecanismo, que desfere tanto reparações desafiadoras, quanto gratificações surpreendentes, sucessivamente, justas, criteriosas e controladas, as quais expressam a resposta da Providência Divina contra a desarmonia constituída ou submissões aos Códigos divinos da consciência em suas profundas estruturas. 

Ninguém está sujeito ao império aleatório da “casualidade”, pois o acaso não existe. A casualidade não pode governar nossos destinos. É o código de Causa e Efeito ou a Providência divina, que tudo ordena, corrige e atua na imensidade colossal do Universo. Tal divino ditame é para que nós nos resguardemos de nós mesmos e não objetiva processos punitivos sem indultos. 

Experimentamos, após a desencarnação, os resultados das imperfeições que não conseguimos corrigir na vida física. As Leis divinas, ínsitas na consciência, asseguram que felicidade e desdita sejam reflexos naturais das nossas escolhas em grau de pureza ou impureza moral. A felicidade relativa reflete a concernente ascensão moral do Espírito, enquanto a imperfeição causa dor e a dor quando não é aceita amorosamente se transforma em sofrimento. Portanto, quanto mais evoluído é o Espírito maior o grau de felicidade e menor é a amplitude da dor. 

Pelas nossas livres escolhas somos responsáveis pelas consequências determinantes da trajetória do nosso destino, podendo delongarmos as dores pela persistência no mal, ou atenuá-las e até anulá-las pelo exercício do bem. Um dos mecanismos que suavizam o açoite da dor é o arrependimento. Entretanto não nos basta o arrependimento, ou seja, termos a consciência da dimensão do delito com o firme propósito de não reincidir no mesmo, pois são imprescindíveis a expiação (como ação de extrair a pureza), isto é, extrairmos a pureza que há em nossa essência divina, a fim de que haja a necessária e amorosa reparação. 

A reparação, por sua vez, consiste em, ao fazermos o bem primeiramente a nós mesmos, bancarmos em seguida o bem àqueles a quem fizemos o mal. Em que pese a diversidade de gêneros e graus de dores dos Espíritos imperfeitos, a Lei de Deus estabelece que a dor (que jamais será punitiva) seja inerente à impureza espiritual. 

Toda “imperfeição”, assim como todo delito dela decorrente, traz consigo a necessidade de inevitável reparação. Assim, a doença é um convite divino para a reeducação reparadora dos excessos e do emprego mental irresponsável nasce o tédio, sem que haja mister de sentença condenatória especial para cada erro ou indivíduo. Podendo nos libertar das nossas imperfeições por efeito da vontade, pensamentos e sentimentos podemos igualmente anular as dores decorrentes e assegurar a atual felicidade relativa.