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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Uma resposta reflexiva para Carlos Vereza

Uma resposta reflexiva para Carlos Vereza
Um cego guiando outros cegos o abismo será  inevitável , disse Jesus


Prezado Carlos Vereza,

A sua intransigente defesa do “pseudomédium” (citado na reportagem do Fantástico) não fará dele um médium ungido e verdadeiro. 
As fraudes “pseudomediúnicas”, que o mesmo pratica, são evidentes nos apontamentos investigativos comprobatórios, que demonstram os disfarces das cognominadas “cartas de Fátima”, preparadas através dos dados informativos (pessoais e familiares) extraídos das redes sociais.
O sinistro da situação é reconhecermos que os familiares supostamente “confortados” pelas cartas de “faz de conta”, seguramente, após a reportagem do Fantástico, ficarão em situação de instabilidade psíquica e emocional, isto porque, naturalmente não depositarão mais o crédito integral nas cartas “pirateadas” que possuem.  
Além de que, não será com as espetacularizações e  humilhantes doações de esmolas aos deserdados que o pseudomédium obterá a serenidade da consciência delituosa. Até porque ele vem respondendo a um processo criminal junto à Policia Civil do Rio De Janeiro sob “acusação caluniosa” e “estelionato”.
Em verdade, há alguns anos o pseudomédium vem causando enormes estragos morais e afetivos nas almas dos milhares de familiares enganados, que buscaram de boa-fé o suposto atrativo mediúnico, porque jaziam em momentos de dor e sombria vulnerabilidade emocional por causa da ausência dos seus queridos. 
Eis aí uma oportunidade favorável para que esses familiares que foram e se sintam tapeados mostrarem o rosto ao público e divulgarem seus depoimentos em vídeos nas redes sociais, contando a sua história a fim de alertarem outras famílias para não se tornarem vítimas desse crime de lesa-Deus no campo da abençoada mediunidade. (*)
Lamentavelmente muitos destes parentes enganados preferem fingir que acreditam nas supostas cartas “consoladoras” , enquanto isso o falso médium prosseguirá nos embustes (VENDENDO SEUS LIVRESCOS).
Senhor Carlos Vereza, está havendo de sua parte e demais intolerantes  seguidores do pseudomédium uma absoluta inversão dos valores morais e éticos. Informo-lhe que muitos outros investigadores de assuntos metafísicos, inclusive o Guilherme Velho, há vários anos estamos colhendo material e testemunhos, visando analisá-los para edificação das nossas convicções com foco no fortalecimento e confirmação dos princípios espíritas, através das sanções naturais da imortalidade.
Guilherme Velho ao ser entrevistado no referido programa não se apequenou, ao contrário disso, representou-nos muito bem ao confirmar por meio de provas cabais que as fraudes do pseudomédium são reais. As tramoias mediúnicas igualmente foram confirmadas na entrevista das vítimas enganadas, que você está desmerecendo e friamente injuriando ao encastelar, falsa reputação, a um impostor da mediunidade.
Carlos Vereza, você está promovendo uma injusta perseguição não somente ao aguerrido investigador, mas a todos os outros pesquisadores, envolvidos no caso, entre os quais me incluo. Nada justifica, neste caso, a sua disposição abrutalhada de tratar-nos como estúpidos. 
Você está sob o guante da agressividade, alimentando desamor com extremada intransigência contra os atuais pesquisadores espíritas que estão contribuindo honestamente na busca do resguardo do bom nome do Espiritismo.
Na sua incondicional inversão dos legítimos valores morais, sob a égide da sua proeminência e prestígio de ex-ator global,  há uma avalanche de manifestos em exagerada e abominável desproporção numérica no cenário deste embate, entre os idólatras iludidos que acobertam o pseudomédium e os pesquisadores criteriosos que apontam as falcatruas do mesmo.
Se a justiça humana não aplicar as sanções que apenam os crimes (citados acima) do tal afamado e venerado pseudomédium, defraudador dos princípios da probidade, com certeza absoluta as Leis divinas (da própria consciência dele) os advertirão,  a fim de que se prepare psicológica, moral e economicamente  para encarar a imprescindível reparação dos atinados agravos morais causados pelas suas opções malsãs.
Que Deus tenha PROFUNDA misericórdia a todos os familiares enganados e que fortaleça o bom ânimo daqueles que buscam marchar pelas estradas da VERDADE KARDECIANA.

Cordialmente
Jorge Hessen
Pesquisador espírita


(*) Disk Denúncia
Delegacia de Crimes Cibernéticos - RJ
Fone 21 2202 0638
Se você recebeu uma carta fraudada
Denuncie e se preferir o seu anonimato será preservado.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Psicografias em investigação: Fernando Ben é acusado de falsificar mediunidade

Psicografias em investigação: Fernando Ben é acusado de falsificar mediunidade


Reportagem do programa Fantástico (TV Globo) relata a acusação de supostas fraudes de mediunidade de Fernando Bien, dito médium de psicografia.

Com o título "Suposto médium espírita, que lotava ginásios, é acusado de fraude em suas psicografias" e subtítulo "Fernando Ben é suspeito de tirar informações das redes sociais para colocar nas cartas psicografadas e foi indiciado por estelionato e denunciação caluniosa. Ele nega acusações.", a matéria global reporta testemunhas que alegam que o suposto médium frauda a mediunidade coletando pelas redes sociais informações de pessoas falecidas cujos familiares e amigos costumam seguir as sessões das "Cartas de Fátima" atrás de um contato com esses Espíritos queridos, para então Ben compor supostas mensagens mediúnicas e com isso ganhar notoriedade para depois se beneficiar de seu trabalho através de, por exemplo, doações e vendas de produtos.



A respeito de pseudomediunidade e usurpação desse "dom", nós já publicamos aqui um artigo interessante, assinado pelo pesquisador espírita Jorge Hessen, com o título "Internet, redes sociais e os pseudomédiuns, ambiciosos e mistificadores", de 14 de fevereiro deste 2019. Aliás, Hessen foi um dos críticos processados por Fernando Ben exatamente devido a suspeita levantada de seu trabalho mediúnico. Inclusive, Hessen foi o articulador do manifesto público  alertando os espíritas e simpatizantes sobre a exploração que se tem feito da mediunidade, especialmente a pretexto de cartas de entes falecidos. Esse manifesto foi citado na reportagem do Fantástico.

Abaixo, a entrevista completa do repórter da Globo com o médium:



Não entraremos no mérito do trabalho de Fernando Ben, confiando à nossa justiça civil a devida apuração das acusações e a defesa do suposto médium, sabendo ainda que, além das competências investigativa terrena, estamos todos sob o pálio da justiça divina, implacável e absolutamente eficaz. Não conhecemos Fernando Ben pessoalmente e nem acompanhamos intimamente o seu trabalho, de modo que nem podemos absolvê-lo nem tampouco condená-lo por estas acusações. Mas, aproveitando o ensejo da matéria, vamos tratar do problema conceitual, que é a exploração da mediunidade.


Exploração da mediunidade

Mediunidade é um canal extraordinário que a Providência Divina concede em benefício tanto dos encarnados quanto dos Espíritos, donde transcorrem aí mecanismos diversos de ajustes e experimentações salutares para o processo evolutivo de todos os envolvidos. O trabalho de "cartas consoladoras", de que  a biografia de Chico Xavier é ícone, tem transformado vidas e vidas, positivamente, criando laços humanos com a espiritualidade em face dos valores superiores. Veja-se, por exemplo, o resultado do livro Esperança e Fé, que há pouco publicamos aqui (saiba mais sobre isso).



No entanto, dada a fraqueza espiritual de pessoas ainda carentes de um amadurecimento consciencial e as tendências de egoísmo desses espíritos deveras imperfeitos, o instrumento da mediunidade não poderia escapar da exploração, como o previu Allan Kardec, na codificação do Espiritismo. Tanto que ele dedicou um capítulo especial ao tema na obra O Livro dos Médiuns, o guia prático da mediunidade e a melhor orientação para a boa conduta diante do dom de intermediar as mensagens do mundo espiritual. No capítulo XXVIII temos então o título "Do charlatanismo e do embuste", onde o codificador espírita assevera a força motriz das usurpações da mediunidade:
Como tudo pode se tornar objeto de exploração, nada de surpreendente haveria em que também quisessem explorar os Espíritos. Resta saber como eles receberiam a coisa, dado que tal especulação viesse a ser tentada. Diremos desde logo que nada se prestaria melhor ao charlatanismo e à trapaça do que semelhante ofício. Muito mais numerosos do que os falsos sonâmbulos, que já conhecemos, seriam os falsos médiuns e este simples fato constituiria fundado motivo de desconfiança. O desinteresse, ao contrário, é a mais concreta resposta que se pode dar aos que só veem trambiques nos fenômenos. Não há charlatanismo desinteressado. Assim, qual a intenção visada pelos que usassem de embuste sem proveito, sobretudo quando a honra os colocasse acima de toda suspeita?
Allan Kardec

O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXVIII, item 304


Portanto, o sinal mais evidente de falsidade mediúnica é o do interesse qualquer do pseudomédium, seja esse interesse material ou mesmo a vaidade, o desejo de ser notado, reconhecido, ou seja, a ostentação da personalidade. Por isso, onde houver qualquer vantagem, ou ilusória vantagem, em favor daquele que se apresenta como portador da espiritualidade, aí está um grave vestígio de charlatanismo. Por outro lado, onde se encontra humildade e desprendimento do tarefeiro, nisso temos bom indício de boa prática mediúnica.

Faz bem lembrar também que a mediunidade não é um patrimônio do Espiritismo: ela existe dentro e fora da prática espírita — Fernando Ben, aliás, declara-se "não espírita", mas seguidor da "Filosofia de Fátima", uma nova doutrina orientada por sua mentora espiritual (o Espírito denominado Fátima) , inclusive por evocação do médium ou compulsoriamente por vontade de um Espírito que deseja se manifestar e encontre os meios de se manifestar através de qualquer pessoa dotada de percepções espirituais.


Consequências da pseudomediunidade

Toda vez que se levanta suspeita de embuste  mediúnico há prejuízo moral para o movimento espírita, porque o senso comum — que ignora a Doutrina Espírita — tende a generalizar a tudo e então põe em xeque a honestidade de todos os médiuns e até mesmo a validade do Espiritismo. Daí por que Allan Kardec nos exorta a denunciar a falsa mediunidade ou a usurpação desse dom. Desta feita, é sim uma baixa na divulgação da doutrina.

Já para o embusteiro — o falso médium — nós podemos visualizar duas gravíssimas consequências:
  1. Em mistificando os valores da espiritualidade, o falsificador afasta de si justamente a iniciação da verdadeira e boa mediunidade, pois os bons Espíritos repugnam tais atos;
  2. A falsa atividade mediúnica não deixa de ser um ensaio para o pior aspecto de sua instrumentação, que é a obsessão: aquele que usurpa os valores espirituais só tende a atrair o concurso de comparsas; e o que não falta é Espíritos obsessores sedentos por se divertir às custas da perturbação de pseudomédiuns interesseiros.
A criatividade artística levou às telas do cinema uma boa representação desse tipo de charlatanismo através do filme Ghost - do outro lado da vida (1990), em que uma falsa vidente (interpretada por Whoopi Goldberg) acaba por desenvolver capacidades mediúnicas, atraindo a companhia constante — e perturbadora — de Sam (Patrick Swayze), se bem que neste filme as coisas não foram tão ruins assim quanto pode ser na vida real. Que o diga quem tem o devido conhecimento de um processo obsessivo do tipo mais sério, como o de subjugação.


A falsa vidente no filme Ghost

Mediunidade realmente não é algo com o que se deva brincar.

Além de tudo, é revoltante saber que por trás de interesses pessoais se brinque com os sentimentos alheios, sentimentos esses dos mais tocantes, pois estamos falando de uma das maiores dores e sofrimentos que se possa experimentar neste mundo, que é a ideia de "perda" de uma pessoa amada, enquanto que muita gente realmente imagina que esta vida carnal seja a verdadeira existência: uma carta mediúnica verdadeira pode dar não só conforto, mas abrir a mente dos familiares a respeito da imortalidade da alma, da continuação dos laços de afeto e a esperança de um reencontro com os entes queridos; de outra forma, a frustração a partir de uma fraude mediúnica pode desesperar corações e jogar pessoas na senda da incredulidade acerca de qualquer ideia espiritual.

Veja também: "Sobre charlatões, milagres, varellas e outros efeitos colaterais do recurso mediúnico".

E não poderíamos deixar de recomendar a leitura de O Livro dos Médiuns (baixe aqui gratuitamente), tanto para aqueles que gostariam de servir à causa espiritual através da mediunidade, quanto para aqueles que apenas desejam conhecer melhor a natureza desse canal de intermediação entre a Terra e o mundo invisível.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Percepção e Subjetividade I




Luiz Carlos Formiga
A Psicologia Cognitiva permite definir percepção como o conjunto de processos pelos quais reconhecemos, organizamos e entendemos os estímulos em nosso ambiente. A sensação não deve ser confundida com ela, mas é imprescindível para que ocorra o fenômeno. Percepção é processo duplo, psicológico e fisiológico. A sensibilidade é captação pura e simples de um estímulo, sendo exclusivamente biológico. Para que ocorra a percepção não basta a existência de um excelente instrumento fotossensível, como é o olho, com seus sete bilhões de cones, na fóvea, e outros milhões de bastonetes, encontrados na periferia da retina. Percepção não é resposta rígida, ligada ao estímulo, mas um complexo processo bipolar resultante da interação entre condições de estímulo e fatores inerentes ao observador.
Há, nesta hora, que considerar o papel das características internas do pesquisador, seus interesses e valores, sem esquecer os fatores externos sociais, que também influenciam o processo. Considerando apenas o biológico, sem cogitar do biomédico, ainda temos que lembrar as aberrações, cromática e esférica.
Vamos sempre nos defrontar com inúmeros estímulos, de vários tipos. No entanto, no palco onde a vida mental acontece (consciência), teremos apenas um limitado número deles. Estamos diante do foco da atenção, que é influenciada, dentre outros, pelo movimento, tamanho, repetição.
Teoricamente podemos conjecturar que a pessoa que recebe constrói essencialmente o estímulo percebido usando informação contextual, sensorial e conhecimento anterior. Por esse motivo faço convite para uma rápida experiência.
Pense ligeiramente no que acontece quando folheamos um texto publicado numa revista técnica.
Em seguida e sem pressa, vá folheando até as referências bibliográficas ou, de modo inverso, comece pelo fim, no endereço eletrônico disponível.
Finalmente responda.
O que acontece com a percepção, quando já possuímos ou não, conhecimento anterior, em áreas como a Educação, Psicologia, Direito e Biomedicina?
Percebeu?
Inicialmente, o texto considera a natureza humana como de ordem biológica, psicológica, social e espiritual, lembrando a política de humanização do Ministério as Saúde, do SUS e a postura ética de um profissional de saúde, que transcende escuta de queixas, e vai à responsabilidade pela resolução dos problemas e a promoção da saúde. Essa política irá evitar maior sofrimento, sempre geral, físico, social e psíquico.
O artigo procura apreender a realidade na Medicina Laboratorial, onde esse profissional é capaz de perceber a existência de uma pessoa, mesmo que esteja por trás de um mero tubo de ensaio. Valoriza a pessoa, a prudência, a diligência e a perícia. Pessoa como lecionou Miguel Reale “é o valor fonte de todos os valores”.
Leitores de maior sensibilidade, com percepção que tangencia a Extra-Sensorial (PES), desconfiam que continuaremos noutro artigo. E, estão certos.


quinta-feira, 3 de outubro de 2019

AS ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS,UM SUSTO (continuação)



Margarida Azevedo


O MUNDO DE QUE NÃO FALAM 

A maior incógnita da humanidade, haverá vida após a morte?, não se resolve no desprezo por esta vida, mas em encetar esforços para compreendê-la. Já Sto. Agostinho dizia que ninguém ama o desconhecido. Isto significa que crer na vida após a morte não significa de modo algum que se saiba como ela é. Ninguém sabe. Assim sendo, o mundo sensível é aquele que nos caracteriza, logo é com ele que nos devemos ocupar.

As questões da sobrevivência e Deus, desde sempre acopladas, têm condicionado os nossos comportamentos ao longo dos séculos. No entanto, pergunta-se: Cabe às organizações religiosas, exclusivamente, a abordagem das mesmas? Serão elas os espaços privilegiados de debate da sobrevivência e da existência de Deus? Não é difícil perceber que, sendo estas questões o móbil existencial estruturante do humano, a Mitologia, a Ciência e a Fé também têm aí o seu campo de acção. Dito de outro modo, naveguemos por onde navegarmos, a imortalidade é o fundamento de todas as pesquisas e de todas as experiências. Sobreviver num plano qualquer, ir parar a qualquer lado é o maior anseio de sempre.

A mitologia conta uma história para explicar o que os outros saberes não explicam, a maior, como surgiram todas as coisas, porquê um cosmos? Os mitos das origens com as suas cosmogonias, os deuses e as suas lutas, a trama complexa em prol da supremacia humana são um maravilhoso representado por seres estranhos e por nós mesmos, tão estranhos como eles.

A ciência observa, investiga, pesquisa, experimenta; baseia-se em evidências. Conclui que há leis imutáveis numa organização brilhante. Procura a objectividade da linguagem criando novos conceitos. Temos cada vez mais vocábulos, cada vez mais sentido para os que já possuímos, nesta constante curiosidade pelo saber.

A fé é transformadora. Por ela se fazem milagres; o maior é a luta contra todas as evidências, face a um problema sem solução. A própria evidência é uma afronta, que o digam as mães que pela oração lutam contra a doença incurável de um filho; ou a esperança de que apelando a forças incomensuráveis tudo pode ser de outro modo. Isto porque a fé não é uma coisa vulgar, no sentido que habitualmente damos ao vocábulo. Por meio da fé uma planta não é simplesmente um vegetal, mas algo portador de uma força que a razão desconhece porque não capta. Pela fé, todas as coisas são portadoras de muitas coisas, outras, protagonizando uma cadeia de forças. O mesmo com o ser humano. Cada homem/mulher é outra coisa que não apenas o masculino e o feminino da espécie humana, mas seres capazes de momentos inefáveis.

Numa época em que a sobrevivência da humanidade parece que está em risco, é oportuno reflectir sobre o importante contributo de todos os saberes. A Mitologia, a Ciência e a Fé, com toda a legitimidade, podem e devem partilhar a pergunta: O que vai ser de nós? Sim, porque a Natureza não vai morrer, nem a ciência, nem os mitos, nem a fé. Elas não serão nem um pouco abaladas com isso. As respostas é que serão diferentes. Parecce, no entanto, que a questão não deve colocar-se pela sobrevivência, mas antes o que irá sobreviver de nós? Será o mito, a ciência? A fé? Todos? Irá algum prevalecer sobre as outros?

Ainda que tudo acabasse, algures no pluriverso infinito, podemos imaginar seres a escrever romances, ficções e mitos nos seus mundos. Quem sabe se sobre nós também, à luz do seu imaginário, insignificantes habitantes de um planeta pequeno e periférico num sistema solar. Um planeta também ele plural e rico em civilizações e do qual se sabe que muita coisa desapareceu para dar lugar a outras coisas. Um planeta de memória.

Será a nossa memória a imortalidade? Será que outros seres, muito curiosos, andarão pelo espaço à procura do nosso memorial? Parece que somos muito importantes, a ponto de se construírem naves para procurar memórias vivas de gente tão cientifica e tecnologicamente primária.

Vão descobrir, seguramente, que não há sociedades sem fiéis, nem fiéis sem sociedade; que o nosso mundo é um espaço teológico onde se espelha a diversidade de fés; que temos em comum com eles a curiosidade, o espírito de aventura e, muito naturalmente, o instinto de sobrevivência.

Vêm para nos destruir, há quem pense, para extorquir os nossos recursos energéticos. Mas nós temos a energia do Sol e do vento, e temos a terra fértil e jamais alguém os levou. Por quê inventar um cosmos povoado de ladrões? Por que não pensar se os habitantes dos outros mundos não andarão à procura da sua mesma imortalidade, tal como nós? Pela força dos deuses a que obedecem, vão à aventura enfrentando o desconhecido? Terão também um povo escolhido que lhes veio falar de um Deus Supremo? Que profetas, que leituras serão as suas? Terão orações cósmicas? A nossa é o Pai Nosso. Porquê pensar neles apenas sob o plano tecnológico, científico e sob todas as superioridades do intelecto? Porque não ir também à fé?

Porém, estas não serão as questões que mais nos preocupam? Está-se a projectar no universo os medos do desconhecido, sempre com o aspecto de infernos, adamastores, seres monstruosos que nos vêm devorar? O mais importante será ocuparmo-nos com o muito que há para fazer na nossa rua, na terra a que pertencemos, a localidade em que habitamos?

Separar, hoje, a fé do mundo físico e da ecologia, do respeito pelo outro num sentido universal e, consequentemente, da noção de integridade humana, é conduzir os fiéis a um túnel sem uma luz ao fundo. As organizações religiosas não podem continuar a conduzir os fiéis rumo a uma constante pré-ocupação com o além abstracto sem antes os ocupar com o aqui e agora. A imediatez do nosso tempo também pode ser vista como uma referência organizativa da nossa fé, rumo a um futuro que se chama sobrevivência física. Não é pecado estar vivo e de boa saúde. As organizações religiosas não podem ser constantes movimentos desvalorativos da vida no seu sentido mais mundano. Não podem prometer um mundo de bem-aventuranças, de prémios ou felicidade infinita a quem, meramente ao seu serviço, destruir ou retardar o progresso, desigualar homens e mulheres, sociedades, povos.

Nada há de pior que temer o próximo. Nisso se baseia a falta de diálogo, de observação atenta, de abertura e, principalmente, do narcisismo de fés que se têm como superiores. É certo que podemos dar a conhecer ao outro a nossa forma de fé. Porém, isso torna imperioso que o ouçamos a ele na sua fé também. Os contágios naturalmente daí decorrentes serão uma mais-valia, sem que isso implique necessariamente que cada um deixe de ser quem é.

Ora mais ocupadas em assustar as pessoas, criando-lhes o medo dos infernos eternos, as organizações religiosas têm sido isso mesmo, organizações ao serviço dos infernos ardentes, da destruição em massa, da morte impune, da manipulação de interesses, culminando numa acumulação de fortunas incalculáveis.

É comum ouvir-se os lamentos da falta de valores do nosso tempo, mas ninguém refere o que foi semeado ao longo dos séculos. O maior valor das organizações religiosas tem sido o vil metal. Contudo, de uma coisa temos que nos lembrar: nada dá saltos. É importante perceber que a nossa evolução é lenta. As nossas acções representam a nossa natureza recôndita, o grau evolutivo que transportamos e ao qual estamos apegados no pavor de nos perdermos. Somos incógnita, oriundos de algo que desconhecemos. Perpetuamos a ignorância a cada existência no esquecimento que nos caracteriza. Enfim, viver mais não é que aceitar, para não enlouquecer, que sobrevivemos no desconhecido de nós mesmos. Ora a fé também é uma força muito presente no combate a esse desconhecido.

Temos o Amor como a grande religião do mundo, mas ainda não há organização religiosa que o tenha como o móbil principal. Quem lê 1Cor 13, 1-13 tem aí a mais bela das bases, um hino para quem muito quer amar, e com isso evoluir.

Que não se faça dos erros de ontem uma justificação para os desentendimentos de hoje, alimentando desaires e ódios. O perdão é a grande mensagem de Jesus.

Seria tão bom se o mundo se congregasse apenas, apenas, imagine-se, para adorar a Deus, glorificá-Lo na alegria de estarmos todos neste mundo, no prazer de nos vermos, de nos olharmos; seria tão bom viver num mundo de fé, tão simplesmente de fé e nada mais; crer porque se crê.

Não são as políticas que conduziram o mundo ao actual estado caótico. Foram as organizações religiosas, porque nunca souberam actualizar os seus discursos. Quando os eruditos se perguntam, muito academicamente, porque é que os discursos religiosos falharam, eles têm que assumir a resposta: As organizações religiosas não tiveram em conta a natureza humana na sua intimidade e, por isso, não trabalharam em parceria com ela. Combateram-na, e esse foi o grande erro. O maior fracasso é não aceitar a humanidade, isto é, como nós somos. Só nessa base nos podemos modificar.

A sexualidade, para algumas organizações religiosas, oscilou entre o acto vergonhoso e o deboche, ou então um ímpeto do diabo, reduzindo-a exclusivamente a fins procriativos, como nos animais; a natural atracção entre homem/mulher passou ao estatuto de doença espiritual desviante de Deus, o celibato forçado a grande virtude.

Lamentavelmente, estamos longe do fim de tais aberrações, mas um dia tudo será diferente. Vamos ter fé.

Que Deus abençoe esta Terra.




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Sites e bibliografia consultados:

Os mesmos dos da primeira parte.

KARDEC, A., O Livro dos Espíritos, CEPC, Lisboa, 1984, Livro Terceiro, As Leis Morais, cap. II, Lei de Adoração, pp. 275-284.

LE BOM, Gustave, Psicologia das Multidões, Publicações Europa-América, Mem-Martins, s/d.

Sites:

Father George Coyne Interveiw (1/7) Richard Dawking

Faith in the Future: The Promise and Perils of Religion in the 21st Century

Marcelo Gleiser – Ciência e religião: em busca do desconhecido

Richard Dawking:

Fala sobre religião e ateísmo

A força da religião

O que a religião pode fazer com alguém

R.D. e os perigos da Fé e das religiões com suas crenças injustificadas

Deus, Um Delírio, o Vírus da Fé

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

O que é o mal?

Jane Maiolo


O que é o mal?

Tu és mestre em Israel e não conheces essas coisas?...
Por Jane Maiolo
Jorge Hessen

Uma das maiores indagações humanas, desde que o mundo é mundo, é a questão da existência do mal.
O mal existe? Se existe, quem o criou?
Afinal, qual poderia ser a definição plausível para a questão do mal?
Seria o mal a ausência do bem, consoante conceituava filosoficamente o pensador Agostinho, teólogo de Hipona, no fim do século IV?  
Jorge Hessen
Talvez pudéssemos estabelecer que o mal é a consequência natural dos nossos atos, na condição de incipientes do senso moral e, portanto, desconhecedores dos sentimentos superiores que carregamos no escrínio da consciência.
Os Espíritos asseguram que o mal nada mais é do que a ignorância do bem. E o grau de responsabilidade dos atos varia de acordo com o conhecimento. Assim, em si mesmo, o mal não existe. Será que o mal pode ser traduzido na forma de sofrimentos, misérias e agravos outros? O mal não é uma energia inerte ou força dinâmica que brota por si só, porém, é a reverberação natural da escolha equivocada do Espírito em sua marcha evolutiva quer corporificado ou incorpóreo.
A vida é bancada pela lógica das nossas livres escolhas, que podem ser acertadas ou não, portanto, o erro ou o “mal” têm naturalmente um protagonista, um nome, um sobrenome, um endereço psíquico. Mas não podemos esquecer de que somos perfectíveis e pelas leis divinas da liberdade, somos regidos pelo direito de errar com o dever de reparar o “mal” através do serviço no bem no limite das nossas forças.
Portanto, seria o sofrimento um mal?
A desventura física é o mal?
Quais prejuízos morais derivariam da reprodução do mal?
Se afirmarmos que o sofrimento é um mal em si, então é preciso desconsiderar as fases do desenvolvimento que passam os seres vivos, visto que as metamorfoses presentes no reino animal geram cargas de sofrimento físico. Agonia, aliás, sem o qual não se transformaria em outro ser, tal qual ocorre com a borboleta e o sapo. Da mesma forma ocorre com a cobra  e a águia que não se metamorfoseariam sem processos árduos e doloridos da natureza.
Obviamente tais sofrimentos estão na ordem natural das coisas, porém, há de se pensar e destacar o sofrimento moral humano que é uma escolha de cada um.
Notemos os panoramas de abandono, solidão, maus-tratos, lesões afetivas, abusos, agressões físicas e psicológicas, preconceitos, a tudo isso titulamos de mal, embora transitório, mas que não provém de Deus, porém, são expressões materializadas dos comportamentos da criatura humana no uso inconveniente do livre-arbítrio.
 Nesse contexto, não podemos admitir que tais males sejam a argamassa para ajustar a cerâmica amorosa da vontade de Deus. O Criador é amor e nos Seus estatutos não há espaços para o mal. O Autor da Vida dota-nos de liberdade na consciência a fim de aprendermos com o chamado erro (mal), através do próprio esforço, para a conquista do bem com foco na eterna felicidade ou aquisição definitiva dos sentimentos superiores.
O mal se apresenta na consciência da gestante que consome crack. Se materializa naquele marido que agride a esposa. Na conduta desacertada que invade a dignidade do trabalhador que jaz furtando na empresa que o emprega. É a deslealdade entre amigos. É o flerte virtual com pessoas comprometidas afetivamente com outros corações.
Ampliar a compreensão da essência do que consagramos chamar de mal é questão de razão e coerência. Lembrando que Deus não é o algoz combatente do mal. A rigor, o mal não precisa ser combatido, todavia deve ser suplantado consciente e amorosamente.
Seriam a miséria, a desventura, a dor o enigma do mal? Ora, o entendimento sobre o infortúnio ser o mal modifica-se sobremaneira quando se abrange a pluralidade das existências, a imortalidade da alma e a Providência divina. Aliás, dimensões conceituais e filosóficas que o Espiritismo esclarece sem falazes rodeios. Sob esse enfoque, a miséria, as dores, as desilusões, a desdita não são traduções nem abstrações do mal, visto que estamos incursos em vastas experiências reencarnatórias, e muitas vezes nos desafios da adversidade muitos sofredores alcançam expandir os sentimentos superiores sob situações intensamente desafiadoras.
Conclui-se que: O sofrimento há em caráter transitório. A miséria não perdura para sempre. A dor é passageira. O homem que erra, esbarra circunstancialmente no mal que não é permanente. Deus é amor, logo é soberanamente bom e justo. Deus instituiu o livre-arbítrio para os todos os seres inteligentes. Deus acata as decisões, certas ou erradas, do homem, por isso jamais penitencia.
O mal somente se conserva pulsante, palpável, visível enquanto não se percebe a imortalidade e a transitoriedade da forma física na trajetória evolutiva do homem.
Por mais que o mal derive dos atos circunstanciais e equivocados do Espírito é absolutamente lógico errarmos e aprendermos com o erro, reparando o equívoco pela prática do bem, a ter bloqueada a consciência, perdendo a prerrogativa natural de agirmos livremente, errando e acertando, ante a lei divina da liberdade que jamais se desvincula da lei de responsabilidade.
A cada um segundo suas obras, disse Jesus. Por isso, a educação moral moldadas nas lições do Evangelho é, sem dúvida, um dos mais seguros caminhos para a conquista dos sentimentos sublimados.

Referência Bibliográfica
João  3:10




Jorge Hessen, (DF), É jornalista, historiador e escritor. Articulista com textos publicados na Revista Reformador da FEB, O Espírita de Brasília, O Médium de Juiz de Fora, Brasília Espírita, Mato Grosso Espírita, Jornal União da Federação Espírita do DF. Artigos publicados na Revista eletrônica O Consolador, no Jornal O Rebate, Jornal A cidade, Portal Para ler e pensar, site da Federação Espírita Espanhola, site Garanhuns espírita e outros…

sábado, 28 de setembro de 2019

A Música e Saúde Física e Mental


Luiz Carlos Formiga


A música tem a capacidade de evocar imagens e sentimentos que não precisam ser refletidos. As variações sonoras são identificadas pelos Lobos Frontais do Cérebro como fonte de prazer.


O Encéfalo estrutura e ordena a sequência de sons e elabora um sistema de significados particular e inédito.


A música não atua apenas como uma forma de expressão artística, mas também como uma maneira de processar o mundo.

Imagine o que pode acontecer num festival de Corais!


O poder terapêutico da MÚSICA.






Inscreva-se e compartilhe. A saúde agradece.



quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sensacionalismo



Vladimir Alexei
Belo Horizonte das Minas Gerais,
26 de setembro de 2019.



No afã de noticiar estudos e pesquisas, diversos divulgadores espíritas tem abusado do bom-senso, a ponto de transformarem a divulgação espírita em algo comum, pequeno. Não deveria ser.

Em busca de audiência, seja pelas redes sociais, Youtube e demais veículos de comunicação proporcionados pela internet, tem muita gente fazendo propaganda enganosa. O título dos trabalhos diz uma coisa e o seu conteúdo versa sobre outra completamente diferente.

E não é difícil perceber, nem precisa ser da área para constatar. Palavras como “exclusivo” , “nunca visto antes”, “informações inéditas”, são expressões usadas para chamar a atenção sobre um conteúdo que, não raras vezes, interessa apenas aquele que o está veiculando: na maioria das vezes não acrescenta absolutamente nada em termos de estudo e aprendizado doutrinário. Puro sensacionalismo.

O mais grave, talvez, seja a falta de ética, mesmo que o objetivo jamais seja esse. É preciso cuidado ao intitular um trabalho, seja como for e qual for, para não cair em descrédito junto ao seu público. Tem tanto lixo na internet com títulos sugestivos, que perde-se muito tempo procurando, assistindo, filtrando, para encontrar algo que realmente aborde estudo doutrinário.

É comum, por exemplo, expositores convidarem para a leitura das “’Revistas Espíritas” editadas por Allan Kardec. Entretanto, não explicam, não informam a origem daqueles trabalhos, não apresentam “porque” aquelas revistas funcionaram como laboratório para Allan Kardec, ou seja, aplicam o conteúdo totalmente descontextualizados, como se oferecessem algo “inédito” para o seu público. Não é inédito e muitas vezes, deveria ser precedido de esclarecimentos abordados nas obras fundamentais da Doutrina Espírita (os livros de Kardec que estruturam a Doutrina dos Espíritos).


Recentemente passamos por publicações fruto de pesquisas de fôlego, como é o caso da obra "O Legado de Allan Kardec" da Simoni Privato Goidanich. Esse trabalho é belíssimo e deveria ser lido por todos. É, de fato, uma pesquisa inédita, que revela fatos que mostram o quanto o trabalho de Allan Kardec foi distorcido em sua continuação. A autora mantém canal no Youtube (convidamos a todos a assistirem: vale a pena!), com a mesma sobriedade que desenvolveu o trabalho escrito. Sem rodeios, sem falas excessivas, sem contos monótonos, vídeos curtos, porém, objetivos, fruto do livro. Conteúdos que valem a pena ler (livro) e assistir (Youtube). Entretanto, fora esse trabalho da Simoni, o que se vê é mais do mesmo: sensacionalismo.

A internet está repleta de leituras, releituras e interpretações de textos históricos que em nada mudam o conteúdo doutrinário. Absolutamente nada. Esse trabalho da Simoni, mostra, com farta documentação, que houve supressão de conteúdo do trabalho de Allan Kardec. Fomos privados de compreender todo o conteúdo. A pesquisa percorre um caminho que é descrito no livro com muita clareza. E o que temos feito desse trabalho? Quais estudos foram produzidos, demonstrando os textos suprimidos e os impactos no aprendizado doutrinário? Nenhum. Os estudos na internet estão pobres! Chamamos a atenção para o sensacionalismo em se dar “furos”, com conteúdos que em nada evidenciam contribuição ao entendimento doutrinário. 

Os demais esforços são estudos que estão na periferia da importância doutrinária para alcançar os objetivos efetivamente transformadores que os estudos das Obras de Allan Kardec proporcionam.

O mesmo sensacionalismo, com atores diferentes, que se engalfinham há anos, ocorre com a figura do Chico Xavier: pouco se estuda o trabalho vertido por sua mediunidade. Entretanto, as estantes (virtuais e físicas) estão abarrotadas de subjetividades acerca da figura do médium, seu passado, suas lutas e reveses. Saturou, de tanto sensacionalismo!

Por trás do sensacionalismo, há uma fragilidade que pode ser explicada à luz da psicologia ou mesmo doutrinária: não se discute a boa intenção de ninguém. Acredito piamente no desejo de todos fazerem algo de bom e útil. Talvez, nesse momento, o melhor agora fosse fazer silêncio. Sejamos críticos de todos os trabalhos, analisemos tudo à luz da doutrina espírita e tenhamos misericórdia para com os trabalhadores. Muitos são cegos guiando cegos.