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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Sofrimentos e doenças são heranças de nós mesmos (Jorge Hessen)

Sofrimentos e doenças são heranças de nós mesmos (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com

Os sofrimentos e as doenças compõem a lista das provas e das vicissitudes da vida terrena e são inerentes à grosseria da natureza material da Terra e à imperfeição moral do homem. Nos orbes mais avançados, física ou moralmente, o organismo humano, mais depurado e menos material, não está sujeito às mesmas enfermidades da Terra.
Sob o ponto de vista espírita, analisamos as doenças usualmente como espelhos dos distúrbios psicossomáticos. Tanto a medicina quanto a psicologia estão percebendo que não existe separação na inter-relação da mente e do corpo que transitam nos múltiplos contextos da vida social, familiar, profissional e pessoal. Ademais, há, sem dúvida, distintas ocasiões em que as “enfermidades” do corpo são convocadas para “curar” as ulcerações da “alma”.
“Mens sana in corpore sano”, ou seja, "mente sã num corpo são" é uma referência atribuída ao poeta romano Juvenal. A intenção do autor foi lembrar àqueles dentre os cidadãos romanos que faziam orações ingênuas, ao passo que tudo que se deveria pedir numa oração era saúde física e espiritual. Podemos proferir que a frase de Juvenal é uma afirmação de que somente uma mente sadia pode produzir ou sustentar um corpo saudável.
É verdade! As células do nosso organismo se alimentam do mesmo teor das nossas vontades, pensamentos e desejos. Tudo que se passa na mente se passa no corpo. As doenças nascem não só do descuido com o corpo, mas principalmente da negligência sobre a nossa forma de pensar. A invasão microbiana comumente está vinculada a causas espirituais que fragilizam a imunidade biológica; assim sendo, as doenças nascem da mente desorganizada. E dentre os causadores de doenças estão a raiva, a mágoa, as frustrações, o rancor, a inveja, o sentimento de culpa.
Nossas imperfeições morais provocam naturalmente os sofrimentos e as moléstias do corpo físico. As emoções malsãs atingem imediatamente o corpo físico, que serve como um dreno por onde escoam essas potências negativas. Muitas vezes os acúmulos de emoções não escoam, não fluem; ficam presos ao corpo físico e se manifestam em algum órgão em forma de grave doença.
Somos livres para fazermos o que quisermos, mas também somos os responsáveis pelos atos que originam consequências naturais. Recebemos da vida aquilo que à vida oferecemos. Colhemos o que plantamos, pois os nossos males morais são provocados por nós mesmos; daí compete somente a nós modificá-los, a fim de que a doença não se instale em nossa vida como teste compulsório contra os desvios de conduta.
Os mecanismos de causa e efeito não têm caráter punitivo, mas educativo. Enquanto permanecermos na imperfeição moral o sofrimento e as doenças serão reflexos naturais das nossas livres escolhas, convidando-nos para as obrigações de esforços do aperfeiçoamento espiritual a fim de refazermo-nos conosco mesmos.
Em resumo, ainda que sob o tacão das provas e expiações, somos e sempre seremos herdeiros de nós mesmos, pois encontramo-nos em processo de crescimento interior na busca da auto iluminação, que é o destino do qual nenhum de nós consegue escapar.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Como enfrentar as “culpas” e desculpas? (Jorge Hessen)

Como enfrentar as “culpas” e desculpas?  (Jorge Hessen)

Jorge Hessen

A percepção da “culpa” tem sido objeto de investigações e influências no amplo debate temático da Doutrina dos Espíritos e das ciências psíquicas. Sabe-se que são intermináveis e graves as consequências da conservação da “culpa” em nossa vida, podendo alcançar indescritíveis destroços emocionais, psicológicos, comportamentais e morais.

A famosa “culpa” se consubstancia numa sensação de angústia adquirida após reavaliação de um ato tido como reprovável por nós mesmos, ou seja, quando transgredimos as normas da nossa consciência moral.

Sob o ponto de vista religioso, a “culpa” advém na transgressão de algo “proibido” ou de uma norma de fé. A sanção religiosa tange para a reprimenda e condenações punitivas. A sinistra “culpa” religiosa significa um estado psicológico, existencial e subjetivo, que indica a busca de expiação de faltas ante o “sagrado” como parte da própria autoiluminação como experiência sectária. Frequentemente a religião trata a “culpa” como um sentimento imprescindível à contrição e a melhoria pessoal do infrator, pois o mesmo alcança a mudança apenas se reconhecer como “pecaminoso”o ato cometido.

Essa interpretação religiosa não se compatibiliza com as propostas espíritas, até porque a “culpa” é uma das percepções psíquicas que não se deve nutrir, por ser uma espécie de mal-estar estéril, uma inútil insatisfação íntima. Em verdade, quando nos culpamos tolhemos todo o potencial de nos manifestar com segurança perante a vida.

A “culpa” tem perigosas matrizes nas exigências de auto-perfeição que nos constrange a curvar-nos diante de alguns atos equivocados. Tal estado psicoemocional provoca em nossa consciência alguns sentimentos prejudiciais tais como o autojulgamento, a autocondenação e a autopunição. Importa libertar-nos das lamentações, dos processos psicológicos de transferência da “culpa”, da autocomiseração, das condutas autopunitivas e assumirmos com calma a responsabilidade pelos nossos próprios atos.

É verdade! O comportamento autopunitivo causa gravíssimas doenças emocionais, notadamente a depressão. Atualmente a depressão é um colossal drama humano. “Eu não mereço ser feliz”, “eu não nasci para ser amado”, “ninguém gosta de mim” etc. Aqui se manifesta um comportamento autopunitivo de complicado tratamento psicológico e espiritual. Neste caso a “culpa” está punindo e aprisionando. O culpado está acomodado na queixa e na lamentação (pela “culpa”). Mais amadurecido psicologicamente poderia avançar pelo caminho do auto perdão e capacitaria abrir mais o coração para a vida.

Nas patologias depressivas, muitas vezes há muito ódio guardado no coração. Muitas vezes oscilamos entre atos que geram a artimanha do “desculpismo” e ações que determinam a “culpa”. Dependendo de como lidamos com tais desafios, a “culpa” permanece mais forte, produzindo situações que embaraçam o estado psíquico e emocional, razão pela qual não nos podemos exigir perfeição, inobstante, devemos fazer esforços contínuos de auto-aperfeiçoamento, afastando do “desculpismo” que nada mais é do que uma porta de escape para a fuga das próprias obrigações.

Sim! É preciso que nos perdoemos. O auto perdão ilumina a consciência, predispondo-nos à reparação necessária a fim de realizarmos o bem àqueles a quem fizemos o mal; praticarmos a bondade em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-nos humildes se temos sido orgulhosos, amáveis se temos sido austeros, caridosos se temos sido egoístas, benignos se se temos sido perversos, laboriosos se temos sido ociosos, úteis se temos sido inúteis.

Pensemos o seguinte: nós erramos porque somos humanos ou somos humanos porque erramos? Na verdade, todos acertamos e erramos, não há pessoas perfeitas na Terra. Se fizermos as coisas certas nos regozijemos por isso, porém se erramos sigamos em frente e aprendamos com o erro, pois quando aprendemos com os erros eles se tornam o grande caminho da lição e do crescimento interior. Desta forma fica ilustrado que, se errar é humano, diluir os erros e ter resignação são as alavancas para impulsionar a vida, para prosseguir a marcha nas trilhas do bem, trabalhando e servindo, para reparar os fracassos da caminhada.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A legenda do "povo ungido na terra da promissão” robustece a permanência de “núcleos” de domínio do movimento espírita brasileiro (Jorge Hessen)

A legenda do  "povo ungido na terra da promissão” robustece a permanência de “núcleos” de domínio do movimento espírita brasileiro (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com

Trafega há alguns anos nas redes sociais um vídeo cuja temática versa sobre a confusa “missão” do Brasil como “Coração do mundo e pátria do Evangelho". Assistimos o jornalista André Trigueiro fazendo citações, mencionando uma pesquisa que aponta para tão-somente 11% dos brasileiros que se declaram voluntários na área da filantropia.
Trigueiro alega que o Brasil é o país com maior número absoluto de homicídios. Na hipotética “pátria do Evangelho” outra questão gravíssima é o problema do aborto. Segundo estimativa da Organização Pan-Americana da Saúde ocorrem no Brasil mais de 1 (um) milhão de abortos por ano. No Brasil são roubados mais de 400 mil veículos, o que dá uma média de 1 (um) veículo a cada minuto.
O jornalista destaca ainda que ocorre no Brasil o maior escândalo de corrupção da história humana, revelado a partir da “operação lava-jato”. Considerando os gigantescos valores financeiros desviados, é um episódio sem precedentes na história da humanidade. [1] Diante dessas informações instigantes, Trigueiro levanta a questão se realmente o Brasil é a “Pátria do Evangelho coração do mundo”.
Um dos oradores, “movido” por entusiasmo aguçado ousou aventurar determinadas e excêntricas anotações, visando explicar a “missão” do Brasil. O palestrante expôs que os espíritas brasileiros imaginam que o Brasil poderá ser um modelo político, econômico e social, e que desfilará como uma grande “rainha” (sic...) diante de um mundo se ajoelhando diante dela. Falou sobre Jesus tentando convocar seus transcendentes colaboradores para improvisarem um inventário do cristianismo na Terra. Descreveu a transfiguração do semblante de Jesus humilhado. Citou o Cristo modificando estratégias, procurando na Terra um ambiente geográfico especialmente “magnetizado”. E nos seus estranhos arroubos o orador se superou ao descrever o Brasil como “o coração do mundo”, porque aqui se encontra a maior concentração de magnetismo do planeta (?!). Afirmou também que só reencarnariam no Brasil as turbas de espíritos infelizes que se encontravam nas regiões mais tenebrosas do umbral, ou seja, os espíritos que faliram nesses últimos milênios, quais sejam os soldados das cruzadas, os inquisidores, os políticos corruptos de todos os tempos, os generais homicidas da história, os religiosos que se desvirtuaram.
A “cereja do bolo” adveio com a citação da máxima do Cristo aos seus colaboradores de então: “eu não vim para os sãos, mas para os doentes”. Deste modo, o Brasil nada mais é do que um nosocômio, e não uma galeria de arte e nem vitrine de ídolos e “santos” (imagine se fosse, hein...?). Conclui então o aplaudidíssimo palestrante que no Brasil está reunido o que há de pior no caráter dos humanos, por isso é um grande hospital do Cristo para a regeneração dos réprobos da humanidade.
Todos sabemos: nenhuma nação é e nem pode ser espiritualmente mais importante do que as outras na Terra. Além disso, o brasileiro se encontra espiritual e eticamente muito aquém a inúmeras nações mais afáveis e dignas, especialmente no quesito probidade.
Como “hospital” torna mais evidente que o Brasil não detém nenhuma missão espiritual peculiar diante do mundo. Até mesmo porque nossa pátria é um dos países menos filantrópicos, sopesando a doações financeiras e dedicação caritativa voluntária do serviço ao semelhante. Considerando ainda todas as aberrações políticas e sociais, o que sobraria nesse contexto para o suposto “hospital” ou “povo escolhido”? Seria o trabalho dos espíritas leigos teleguiados pela “Cúria candanga”? Obviamente que não, pois conhecemos como se encontra a confusa prática doutrinária no Brasil.
Por conseguinte, se compararmos com o mundo não necessitamos fazer um esforço exagerado para observar os exemplos de civilidade, respeito às leis e progresso que nos têm dado outras nações. Quem mantém e difunde sofregamente a ilusão de “Brasil coração do Mundo...” é a instituição centralizadora do M.E.B. a fim de manter o poderio que tem domado com o seu universo místico e historicamente roustanguista, a massa de manobra (espíritas neófitos) conduzida sob o tacão de uma ideologia primária e dominante, anulando a possibilidade de um trajeto histórico e protagonista do espírita mais leal a Kardec.
Creio ser urgentemente necessário que os líderes e presidentes das federações estaduais (bispos de dioceses?!) consigam se alforriar da “lavagem cerebral” ameaçadora que a “Cúria candanga” lhes inflige sob o tacão do fadigoso jargão “quem não está com a “Cúria da L2 Norte de Brasília” é desagregador e está com a treva”.
Os decênios passam, e a Cúria candanga arrasta multidões enceguecidas com ela. É hora de repensarmos esse nativismo bairrista que assemelha-se à ilha da fantasia kardeciana tupiniquim. A verdadeira pátria do Evangelho é e deve ser o coração de cada cidadão que se pautar nos preceitos da honestidade, da liberdade e da bondade, ainda que por qualquer circunstância esteja habitando países longínquos.
Como espírita brasileiro, confesso que sou um entusiasta do Brasil e da potencialidade daqueles bons cidadãos brasileiros, bem como de suas virtudes e cultura. Todavia enfatizo que essa visão de que somos ou seríamos uma espécie de "povo ungido" na “terra da promissão” é extremamente alucinante e só reforça a conservação de núcleos de poder (que se revezam entre si) no movimento espírita brasileiro.

Referência:
{1} Debate realizado durante o 4º Congresso Espírita do Estado do Rio de Janeiro, em outubro de 2015

sexta-feira, 8 de junho de 2018

SUICIDIO: RECORDAR, PREVENIR E SOBREVIVER



Luiz Carlos Formiga

“Mas se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua família,
 negou a fé e é pior do que o infiel.” Paulo. (I Timóteo, 5:8)

“Formam famílias os Espíritos que a analogia dos gostos, a identidade do progresso moral e a afeição induzem a reunir-se. Esses Espíritos, em suas migrações terrenas, se buscam, para se agruparem, como o fazem no espaço, originando-se daí as famílias unidas e homogêneas. Se, nas suas peregrinações, acontece ficarem temporariamente separados, mais tarde tornam se encontrar, venturosos pelos novos progressos que realizaram. Mas, como não lhes cumpre trabalhar apenas para si, permite Deus que Espíritos menos adiantados encarnem entre eles, a fim de receberem conselhos e bons exemplos, a bem de seu progresso.” O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec, cap.XIV.
Um entrevistador perguntou ao médico psiquiatra: porque parece estar mais difícil aos membros da sociedade atual encontrar um significado para a vida, uma razão para a sobrevivência, sobreviver para que?
A resposta lembra que “essas sociedades buscam apenas satisfazer e gratificar cada uma das necessidades humanas”. Não há uma consciência lúcida coletiva, mas sim um “grito não escutado, pela busca de significado. A sociedade está frustrando o desejo inato humano pela busca de sentido.”
Para encontrar o sentido da vida, temos primeiro que adquirir a certeza de que “foi Deus que deu luz aos olhos, perfumou as rosas, deu ouro ao sol  e prata ao luar. Foi Ele que colocou as estrelas no céu, fez o espaço sem fim, deu o luto as andorinhas, deu luz ao firmamento, fez poeta o rouxinol, colocou no campo o alecrim e deu as flores à primavera.”
Como enfrentar sem Deus a mágoa, a dor, todo sofrimento que se sente na alma? Como aumentar a resistência interior e sentir a calma, aquela que surge na alma do poeta da música portuguesa?
 Para encontrar o sentido da vida, temos primeiro que nos convencer que “foi Deus que deu voz ao vento.” (*)
Na entrevista o psiquiatra acrescenta “que é mais fácil encontrar sentido na vida se a pessoa for religiosa, mas, não religiosos também podem encontrar esse sentido. Diz que não podemos comandar, nem obrigar ninguém a ter fé.”
Por outro lado, você pode compartilhar com ela fatos que a façam pensar que o suicídio é um ato estúpido. (**)   
Existe algo de tóxico no mundo da pós-graduação, diz A Gazeta do Povo. Mestres e doutores que se cuidem. Pesquisa com estudantes de mestrado e doutorado conclui que eles têm seis vezes mais chance de sofrer ansiedade e depressão. (1)
Um Núcleo Espírita Universitário, poderia ser útil?
Espíritas podem ter depressão? Podem chegar ao suicídio?
No Rio de Janeiro, resistindo à dominação “político-materialista” o primeiro Núcleo a surgir foi o NEU-Fundão (UFRJ), tendo como norte o “Estatuto das Casas do Caminho”.
Uma “Carta aos Companheiros”, assinada por dois espíritos, José Petitinga e Vianna de Carvalho foi muito útil na sua implantação.
Algumas afirmações merecem ser recordadas:
“Há lugar para todos trabalharem; não, porém, como pretensos chefes, hierarquizados perigosamente e com uma supervalorização dos títulos e conquistas mundanos.”
“A realeza é, sempre espiritual. A superioridade, em nossos labores, é de qualidade moral”.
“Se o Plano Superior já te permite pisar na seara espírita não te limites à prece”.(2)
Deprimidos se suicidam na universidade?
Com o titulo Arquitetura segura – uma reflexão para o futuro”, aconteceu simpósio na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
A UERJ é Pela VIDA.
Torre Eiffel. 370 pessoas se suicidaram de 1898 até 1971. Foram colocadas grades protetoras. (3)
Qual a relação entre arquitetura, suicídio e anencéfalos? O Joanna de Ângelis respondeu essa questão. (4) Podemos afirmar: “Os renascimentos ficam a cargo de autoridades e servidores da Justiça Espiritual. Estes especialistas administrarão recursos a cada aprendiz da sublimação, de acordo com as obras edificantes que lhes contem no currículo da existência. Somos ainda espíritos de mediana evolução, portadores de créditos apreciáveis, mas com dívidas numerosas, por isso nossas reencarnações exigirão muita cautela de preparo e esmero de previsão.”
Na vida a Esperança não pode morrer, mesmo sendo a última. Há sempre um amanhã. (5)
Discutir esse assunto é dever de educadores, do primeiro grau à pós-graduação.

(*) Foi Deus. Emilio Santiago https://www.youtube.com/watch?v=Mb_mIvrlc9g

(**)Dr. Frederick Von Stein, a mudança necessária
“A Face Oculta da Medicina”. No CREMERJ.

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quinta-feira, 7 de junho de 2018

A cultura do medo no movimento espírita

Vladimir Alexei


Belo Horizonte das Minas Gerais,
07 de junho de 2018.


O Evangelho é fonte inesgotável de ensinamentos superiores, traduzidos em uma linguagem parabólica, metafórica, que permite cada um compreender aquilo que melhor toca o seu coração. É maravilhoso e sublime a Pedagogia de Jesus!
Tão admirável que o homem, em estágio infinitamente inferior, conseguiu apequenar esses ensinamentos ao subverter a humildade dos ensinamentos do Evangelho com o poder que ele proporciona aos que possuem, comprovando, mais uma vez, que somos seres em construção. Tijolo por tijolo, conquista por conquista, erro por erro, degrau por degrau nossa caminhada em ascensão leva-nos a recordar diatribes do movimento espírita que chocam, pelo primitivismo com que lideranças espíritas ainda se posicionam ante os dilemas da vida.
Lembro-me, de fato ocorrido há mais de vinte anos, quando um cidadão falou-me, ao pé do ouvido, estarrecido, que o então presidente de uma federativa foi visto tomando “cerveja” em um mercado famoso na cidade. O tom da fala, a maneira como foi comentada, davam mostras do quanto a hipocrisia é presente no meio espírita, como se aquilo fosse a sentença que definiria aquela liderança. Pode parecer implicância e muitos dirão que é, e talvez até seja mesmo, mas o estrago causado pelo roustainguismo, com essa cultura do “caído”, do “pecado”, só faz alimentar o “cheiro de sacristia” no movimento espírita.
O espírita é um ser em formação como todos os outros. Possui inumeráveis defeitos e a doutrina espírita é a plataforma encontrada para trabalhar essas imperfeições a partir do esclarecimento. Quanto mais ilumino a minha mente, mais consigo iluminar o meu espírito para enfrentar as lutas do caminho. Entretanto, o que vemos é um desfile sem fim de vaidades, elitismo, perpetuidade nas cadeiras da presidência de um centro, como os filhos da viúva fazem pelo Trono de Salomão (entendedores, entenderão...).
O estimulo vem de cima. Da federação e de suas federadas, quando suas lideranças assemelham-se a seres predestinados a conduzir o rebanho ao aprisco do Cristo. E muitos assim se portam!! Com falas suaves, evangelho na ponta da língua, mas olhos de águia, não para combater os desafios da vida, defendendo os menos favorecidos e sim para defender o próprio assento do “assédio das trevas”. Tudo são “as trevas” para esses fatalistas, mal sabendo serem eles instrumento dela...
Cansamos de ler e até de presenciar, por meio de reuniões mediúnicas, as “trevas” que eles veem fora, dominando-os dentro, manipulando-os como quem manipula uma peça de xadrez.
Se o outro bebe, fuma, possui desvios na conduta, é devedor seja lá do que for (até agiota no movimento espírita encontramos!), isso só mostra que o desafio dele vai exigir mais, muito mais dele, entretanto, ele está no lugar certo, com a doutrina poderosa que será capaz de fortalece-lo a ponto de não precisar mais dedicar energia a essas coisas terrenas, mesmo que seja a luta de uma vida inteira. Ser pobre não é motivo para tratar as pessoas como inferiores, como esses mega, ultra, plus, advanced Congressos “espíritas” fazem parecer. Ou seja, quanto mais elitizado, quanto menos acesso as pessoas tiverem, melhor será o evento. Com isso, aqueles que não podem participar, se sentem em meio a uma cultura que dominou a terra, onde eleitos podiam tudo e os preteridos chafurdavam no medo, indiferença e falta de amor.
Até quando a cultura do medo ditará o ritmo no movimento espírita?

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Cadafalso doutrinário

Vladimir Alexei

Belo Horizonte das Minas Gerais,
Corpus Christi, 31 de maio de 2018.

Em um mundo sacudido em suas bases pela intolerância, difícil tem sido conseguir transmitir reflexões que nos auxiliem a sair do diagnóstico das incertezas vividas pelo ser humano. No movimento espírita não tem sido diferente.
Nos valemos da prerrogativa do estudo doutrinário como plataforma para sustentar as renovações que tanto ansiamos, mesmo que não tenhamos plena consciência do que se deve exercer e dos caminhos a trilhar, sem perceber o cadafalso criado.
Muitos se apropriam da erudição de Allan Kardec, como se fosse aquele o único caminho a trilhar por todos. Belíssimos autores dedicaram-se com afinco legando-nos obras de pujante riqueza cultural e intelectual. Sir Willian Crookes, cognominado o “grande cientista do invisível” afirmou que o mundo espiritual não é apenas uma questão de possibilidade. É um fato.
Sustentar o fato da existência espiritual, assim como das influências e manifestações dos espíritos em nossas vidas, permitiu que pudéssemos compreender com mais propriedade, após milênios de efeitos e manifestações dessa interface com o mundo espiritual, que o desenvolvimento emocional não caminha com a mesma velocidade que o intelectual.
O avanço nos estudos estimulou o abismo que existe entre os corações que caminham pela estrada doutrinária. As redes sociais preencheram lacunas deixadas pelas casas espíritas, tanto quanto ao estudo, quanto pela convivência. Todavia, por mais real que seja essa situação, as redes sociais não substituem a casa espírita.
Estudo sistematizado, não é estudo engessado, que não permita o educando extrapolar suas reflexões na transversalidade do conhecimento que a vida exige. O matemático é um filósofo dos números, cuja sensibilidade é construída de maneira lógica, racional, sem perder as conexões com o coração. O filósofo, por sua vez, é a sensibilidade em busca do conhecimento racional, criando ponte entre os saberes.
Existe uma fórmula “mágica” para que dê tudo certo? Claro que não. Existem caminhos – por isso a metodologia é importante –, que nos conduzem por mais tempo nas reflexões doutrinárias, não para nos tornarmos catedráticos e sim para nos tornarmos pessoas melhores. É o adágio que circula nas redes sociais: “o que adianta ter doutorado e não cumprimentar o porteiro?”.
Ainda que não seja consenso, estudar o espiritismo é um exercício de fortalecimento da fé. O conhecimento ilumina o caminho para alcançarmos a fé. Sem fé, nos agredimos de forma espantosa, a ponto de vermos hoje, muitos espíritas deprimidos, inseguros e vítimas fáceis daqueles que ainda são sustentados pelo orgulho.
Tudo está em constante – e nem sempre sentida – transformação. Por que o estudo doutrinário não tem acompanhado? Vemos, estupefatos, estudos circulando na internet, com páginas e páginas para corrigir uma vírgula, como a defender teses que não passam de manifestações do ego!
Recentemente acompanhamos a celeuma em torno da publicação de A Gênese, seus milagres e predições segundo o espiritismo. Antes disso ressuscitaram a esposa de Allan Kardec que sempre figurou como uma primeira dama à parte de tudo que estava acontecendo (o que não é verdade, basta ler O Processo dos Espíritas e outras obras que abordam sobre ela). Com isso livros estão sendo produzidos – de boa qualidade, graças a Deus! –, palestras e encontros gratuitos também acontecem de forma a resgatarmos o “espiritismo primitivo”, aquele dos tempos de Kardec. Sabem qual efeito prático tem, esse tipo de estudo e pesquisa, fora o benefício da pesquisa e do conhecimento para quem desenvolve esses estudos? Não direi nenhum porque serei queimado vivo, mas é mínimo.
Por que? Porque o tempo vem ensinando, por meio da observação direta e do estudo da vasta bibliografia produzida pela pena iluminada de Chico Xavier, que não se desenvolve o ser, sem que o conhecimento auferido seja colocado em prática junto com alguma ação efetiva em benefício do próximo. É uma hipótese? Sim! Pode ser comprovada? Bastam os estudiosos que nos deram a graça de ler até aqui, desenvolverem ou resgatarem tais estudos. A vida do Chico Xavier, em nossa opinião, é um exemplo de que é assim que funciona, mas, está aberto a outras interpretações, principalmente daqueles que ficam discutindo estudos e pontos de vistas nas redes sociais sem colocar a mão na massa.
É preciso coragem para pensar diferente. É preciso coragem para aceitar que se erra. É preciso coragem para não seguir cabeças inteligentes que apenas repetem os mesmos passos do passado: conduzem rebanhos...
Leon Tolstoi, quando encarnado, escreveu um livro chamado “Uma Confissão”. Nessa pequena, porém, profunda obra, ele disse que “a doutrina religiosa que me foi transmitida desde a infância desapareceu dentro de mim da mesma forma como nos outros; a única diferença é que, como comecei cedo a ler e pensar, minha renúncia à doutrina religiosa se tornou consciente também muito cedo.” (pg. 19) Parafraseando Tolstoi, a doutrina espírita que me foi transmitida no início, não mais existe. A partir do momento em que comecei a pensar, a distinguir um do outro, ficou evidente, de forma clara, que o estudo doutrinário só faz sentido se praticado em conjunto com ações de caridade desinteressada.
Vivemos no movimento espírita aquilo que P. Caillé disse: “continuamos a procurar os solucionadores de problemas do planeta Alfa, embora nos encontremos no planeta Beta”. Encontramos soluções para os problemas dos outros e não percebemos o que estamos fazendo com os nossos. Discute-se, diuturnamente quem foi Chico Xavier, se homem ou mulher, Kardec ou não, quantas de suas vidas, mas não se estuda a pujança de sua obra e os efeitos da ausência dessa obra no meio espírita. Publica-se uma obra de Allan Kardec, direto da primeira edição, após mais de cem anos estudando as outras traduções, como se isso fosse revolucionar o movimento espírita para melhor.
Discute-se a respeito de espíritas entrarem para a política, como se fosse a solução para as aflições que vivemos! Manifestações do ego, ainda que seja respaldada por projetos políticos e “doutrinariamente” adequados! Até quando esse movimento espírita continuará assim? Assemelha-se ao movimento político: por muito menos bateram panela. Por muito menos dizem que os “Espíritos Superiores estão com dificuldade de ajudar os encarnados em função da espessa nuvem de ódio” que paira pela Terra, como se não tivéssemos vivido duas grandes guerras mundiais e daí para pior.
“A reforma do conhecimento exige a reforma do pensamento”, já asseverava Edgar Morrin. Enquanto o espírita quantificar a extensão de suas obras pelos critérios materiais de medição, veremos sempre mais do mesmo. Não são os títulos e as conquistas transitórias que evidenciam a riqueza do seu trabalho. Ainda é o bom, velho e atual Evangelho de Jesus, tantas vezes incompreendido, tantas vezes estudado de forma a criar, mais dissensões do que uniões entre seus profitentes.
Ou o movimento espirita se reinventa, junto com as atividades das casas espíritas, ou continuaremos apedrejando Alfa, quando deveríamos construir Beta.





quarta-feira, 30 de maio de 2018

Mensagens de um “tal” “Emmanuel”

Mensagens de um “tal” “Emmanuel”
Carlos Alberto Braga Costa

Carlos Alberto Braga Costa
Belo Horizonte- MG

            Chegou-nos, pelos canais da internet, uma de muitas mensagens apócrifas supostamente de autoria dos Benfeitores que operam nas Esferas Espirituais.
            Em meio ao caos político e econômico que atravessa a nação brasileira, a moda agora revela os “Espíritos Superiores” envolvidos com as querelas humanas, como se não houvesse no Mundo Espiritual atribuições relevantes.
            Política, economia, lava jato, greves, eleições, passaram a ser tema do alto escalão das esferas dos “mortos”. Parafraseando o poeta Humberto de Campos quando ainda encarnado, insuflava no surto de seu escárnio, criticando a obra “Parnaso de Além-Túmulo” pronunciando nas gazetas do Rio de Janeiro:- “os vivos estão em apuros, pois os mortos estão descendo para substituí-los”.
            Pelo menos se fomenta para aqueles a serem substituídos, uma onda de correntes de orações para salvá-los e acalmar os ânimos exaltados. E, ao que parece, o Brasil precisa de muitas preces. Isso nos faz pensar como andam a deriva os outros países que não tem a missão de ser o coração do Mundo. (Sic) 
            Nessa apoteose de mensagens, a maioria tem selo divino, pois são assinadas pelos mais famosos vultos do Movimento Espírita, a saber: Anjo Ismael, Eurípedes Barsanulfo, Bezerra de Menezes, André Luiz, e outros para assuntos espíritas. Tirandentes, José Bonífácio e tantos políticos desencarnados que se mobilizam para cuidar das PECs, Medidas Provisórias, Decretos Leis e outra tantas resoluções advindas dos 3 poderes do Brasil.
            Para não perder o posto de coordenador da falange impoluta, surge um novo Emmanuel. Destaca-se por ser político do astral e salvador da pátria. Para alguns ele já reencarnou para ser, pasmem, presidente. Cabe, no entanto, descobrir quando e por qual partido. Só sabemos que esse de agora, vem aos mortais revelar-se preocupadíssimo com os problemas do “Planalto Central”.
            Como se não bastasse, tem soluções espetaculares. Abre portais miraculosos, revelando novidades que alteram subitamente a vida no território humano. Vamos aguardar o que irá sugerir na próxima eleição, pois também anda incentivando as famosas correntes de oração.  
            Com Chico Xavier tínhamos Emmanuel ensinando e exemplificando nas tarefas do Consolador. Depois da desencarnação do médium mineiro, não sabendo o motivo, temos “Emmanuel” para todos os gostos e necessidades, contradizendo o que ele fez com tanta propriedade.  Pergunta-se: O cargo está vago? Ou a coisa anda preta mesmo?
            Brincadeiras a parte, sabemos que não. Emmanuel é um Espírito com muitas responsabilidades quanto ao progresso pessoal e coletivo e continua atuando proficuamente nas frentes espirituais, junto aos médiuns sérios e fidedignos aos princípios do Espiritismo. A lógica aponta para sua atuação, como antes, voltada para o desenvolvimento no campo moral e no auxílio aos sofredores.  E, atualmente, junto de Chico Xavier que ingressou na admirável falange do bem nos domínios e dimensões do ultra tumba.
            Certa feita, Chico Xavier quebrou o protoco e desferiu um golpe certeiro contra a suposta exclusividade entre ele e o Espírito Emmanuel.
            Dialogando com Júlio César G. Ribeiro, após psicografar um texto do benfeitor Emmanuel, ele assim pronunciou: “É Emmanuel puro! Precisamos saber que Emmanuel não é de Chico e nem de ninguém.” Em seguida Julinho, conforme carinhosamente era tratado por Chico, questionou: - “Chico! Será que Emmanuel só pode psicografar por você? E quando você se for?... Os espíritos guardam preferências por médiuns? E o grande médium acrescentou com humildade: “Dei-lhe explicações bastante convincentes acerca das afinidades espirituais e dos compromissos assumidos em nome das responsabilidades mediúnicas, lembrando-lhe que Emmanuel é de todos e para todos.... Esta mensagem veio a calhar, meu filho...”[1]
            Com esse depoimento, Chico Xavier demonstra que todos são livres para operar e se relacionar. A beleza do trabalho do Cristo enseja dinamizar as relações, ampliando experiências e favorecendo a interação entre os habitantes das diversas dimensões nas “Moradas do Pai”.
            Conclui-se que todo exclusivismo representa polarização fanática e absurdo enquistamento personalístico.
            Voltando ao venerando Emmanuel e as supostas “mensagens”, sabe-se que ficou notoriamente conhecido como Espírito coordenador de vasta literatura de conteúdo Espírita.
            Polígrafo admirável, exegeta de alta qualidade, educador por excelência, escritor nobre, romancista de alta categoria, hábil na síntese de seus textos, apresentou um estilo inconfundível. Ético no trato dos temas polêmicos, fiel aos princípios Codificados por Allan Kardec, Emmanuel se revelou notável evangelista.
            Bem diferente desse “tal” “Emmanuel”, que se manifesta místico, ufanista, político e nacionalista.
            Não nos prenderemos no tema “ocupação dos Espíritos Superiores”. No entanto, o dever como aprendizes da Boa Nova à Luz do Espiritismo e admiradores dos veros Educadores do além-túmulo, seria usar de prudência antes de sair espalhando mensagens que chegam pelos mais diversos caminhos virtuais sem antes analisar fonte, autor, estilo, conteúdo e circunstância.
            De confusão, basta o que está fora das hostes espíritas! Todo cuidado é pouco com as mensagens assinadas por espíritos ilustres.
            A lógica patenteia a observação séria, honesta e criteriosa antes de espalhar vírus pela rede extraordinária de intercâmbio virtual.
            Se continuarmos agindo impensadamente com o desculpismo de que isso “não faz mal algum”, em breve constataremos que “bem também não faz”. E por essa desculpa, em nome do Espiritismo, poderemos estar prestando um desserviço à causa do Consolador.
            Sem contar que estaremos apoiando e/ou engrossando as fileiras dos tais pretensos “emmanueis”...
            Quanto ao Brasil, sem dúvida que devemos nos unir em prece, e trabalhar de sol a sol com confiança que o futuro é construído a partir do agora.
            A cada um segundo suas obras....
            Para encerrar, vamos estudar.
            Convido o web amigo a meditar com o Espírito Emmanuel numa reflexão de conjuntura a respeito do cenário da política nacionalista dos idos de 1935, conforme pode ser acessado no link https://chico-xavier.com/2018/05/28/nacionalismo-fraternidade-espirito-emmanuel-f-c-xavier/  cremos que as ponderações do aludido texto poderia contribuir com a análise do cenário atual, obviamente em foro de imortalidade.  
Ave, Cristo!

Referência bibliográfica:
[1]       MATTOS. Divaldinho. De Amigos para Chico Xavier, SP: Ed. DIDIER, 1997