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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Rótulos e máscaras


 
Vladimir Alexei
Belo Horizonte das Minas Gerais,
15 de fevereiro de 2018.



Estudar o Espiritismo é algo sublime, capaz de transformar-nos a maneira de pensar e agir em relação a pessoas, situações e de um modo geral, com a própria Vida. Mas estudar o Espiritismo ainda requer estudo, por mais redundante que seja, de tão óbvio.
Houve uma época em que a produção literária espírita, preenchia lacuna significativa, quanto a interpretações daquilo que a Doutrina Espírita revelou. Além do magistral trabalho de Allan Kardec, muitas pesquisas e estudos foram empreendidos com o objetivo de esclarecer pontos e ampliar entendimentos que o Espiritismo, por intermédio dos Espíritos Superiores, lançou luz.
Pesquisadores e pensadores espíritas teceram obras fenomenais, tanto pela forma, como pela profundidade do seu conteúdo. A cada nova interpretação e a cada novo entendimento, uma avalanche de livros era produzido tentando explicar e fazer luzir algum ângulo até então abordado de uma maneira diferente.
Essa diversidade fez com que o espírita tivesse, em suas mãos, um leque extenso de opções para seu estudo, que o movimento espírita convencionou “fragmentar” e rotular em trabalhos de cunho religioso, científico e filosófico. A crítica ao rótulo não é gratuita. Foi um recurso didático utilizado para conseguir melhor transmitir os ensinamentos dos espíritos. Entretanto, após mais de meio século de divulgação do Espiritismo nos moldes atuais, adotados pela esmagadora maioria das casas espíritas que possuem ciclos de estudos, estudos sistematizados, etc., percebe-se, mesmo sem método ou instrumento científico mais adequado, que o estudo do espiritismo ficou mascarado.
A fragmentação, por exemplo, é duramente criticada pelo educador Edgar Morin, quando diz que o retalhamento das disciplinas, torna impossível apreender “aquilo que é tecido junto”. Por que estudar “ciência, filosofia e religião”, quando o que deveríamos estudar é a “Doutrina Espírita”? Será que “tríplice aspecto” da doutrina consegue explicar a complexidade do que o Espiritismo aborda? Quando dizemos Doutrina Espírita, aplicamos um “zoom” que evidencia as inter-relações entre os conhecimentos (“tecido junto”), deixando claro que há mais do que um tríplice aspecto. No entanto, a aplicação do conteúdo fica a cargo do expositor, que pode abordar assim ou não.
Talvez – e esse é outro ponto da nossa reflexão –, quando iniciaram os estudos, no início do século XX, traduzir o pensamento das obras de Kardec, comportava um nível de abordagem que preservasse muito mais o entendimento e a interpretação, no sentido de “simplificar”, do que de ampliar considerações daquele aprendizado em relação a outros temas do cotidiano. Isso muda quando Dr. Carlos Imbassahy (Pai) assume a pena e nos dizeres do Herculano Pires, em sua “fortaleza” direto de Niterói, consegue relacionar as descobertas científicas com as revelações doutrinárias e tecer comentários filosóficos a respeito de conclusões – ilações, hipóteses, inferências, etc., todas válidas no campo da exposição de ideias –, que poderiam agradar ou não espíritas e não espíritas.
O movimento espírita – não o movimento de unificação, que não unifica nem entre eles – tem sido convidado a rever a eficácia e os objetivos do aprendizado, consequentemente, das atividades doutrinárias da casa espírita. Será que ainda buscamos “unanimidade” ou aprendemos com a diversidade nas casas espíritas?
Unanimidade é utopia no mundo atual, beirando a atrofia. Convergências de entendimento, ainda que existam diferenças na construção do conhecimento, são desejáveis. Veja um exemplo: “se dou comida aos pobres, todos me chamam de santo. Mas quando pergunto por que são pobres, me chamam de comunista.” Essa frase do Dom Helder Câmara ilustra a diferença dos pensamentos e a sua complexidade. Tentar simplificar, rotula. Explicar: mascara porque evidencia apenas a compreensão daquele que está expondo o pensamento. Na complexidade do mundo atual, percebe-se que há muito conhecimento e informação entre os extremos para se tomar uma decisão simplista.
Nesse sentido, sabendo que as necessidades humanas estão cada vez mais globais, complexas e com níveis de exigência dantes observado, um leigo, neófito, apenas curioso, que enfrenta críticas, se expõe, tendo apenas como instrumentos diminuta experiência e uma convicção pessoal, não tem alcance e nem competência para empunhar bandeira que não seja aquela de provocar, estimular e refletir acerca do que temos visto, vivido e aprendido na Doutrina Espírita.
Desconstruir rótulos começa com a revisão do próprio papel de divulgar o espiritismo. Ao contrário do que muitos divulgadores dizem, quando assumem a tribuna, ouso refletir com os amigos, que não está faltando Kardec, nem obras de conteúdo doutrinários, nem muito menos estudo. Está faltando amor, benevolência, simplicidade.
Simplicidade é diferente de simplismo. Com as redes sociais, reduziram as discussões a críticas contumazes, sem ao menos apresentar argumentos. Quando as questões apontam para o “comportamento”, alguém se manifesta contrário, lamentando que a discussão “sempre” redunda em questões comportamentais. Todo aprendizado religioso, moral, filosófico, de alguma forma afeta o comportamento. Circula vídeo no whatsapp do Padre Fabio de Melo falando sobre a “quaresma”. Em linhas gerais, o convite dele é para que o católico substitua a abstinência por comida e bebida, por melhorias no comportamento. Qual o problema do espírita de hoje em entender isso?
Precisamos resgatar a linha mestra que nos vincula aos primeiros cristãos, aqueles que sentiram o perfume da presença do Mestre, seguiram seus passos, sonhavam com suas prédicas, criavam conexões de Suas parábolas com os desafios do cotidiano. Resgatar a alegria de servir, a beleza de amar desinteressadamente, de auxiliar o próximo, mais próximo, a partir de uma renovação interior, capaz de nos mostrar a grandeza da vida e seu aprendizado.
Que as dificuldades do caminho não nos paralisem os gestos nobres. Que o desejo de servir seja maior do que os rótulos e máscaras que existem no caminho. E que a presença do Cristo seja constante em nossas vidas, hoje e sempre.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Diante da Teoria do “caos” nada sucede sem o consentimento de Deus (Jorge Hessen)

Diante da Teoria do “caos” nada sucede sem o consentimento de Deus (Jorge Hessen)

Jorge Hessen

Há 5 séculos a moderna ciência ocidental pavimentou as sendas para os estudos de Copérnico, Galileu, Kepler, Bacon e Descartes, resultando no paradigma mecanicista do processo científico. Posteriormente, tal padrão científico foi corroborado por Newton, que observou as leis do movimento, criando uma realidade determinista regida por leis físicas e matemáticas, onde tudo era “exato”, “absoluto” e “inalterável”.
O funcionamento do mundo físico passou a ser visto como o de um relógio, através de movimentos lineares e precisos. Todavia, no final do Século XIX, o pesquisador Poincaré desafiou, pela primeira vez, esta visão determinista dos sistemas, revelando os desempenhos irregulares e não previsíveis deste sistema newtoniano, portanto , desvendando os comportamentos caóticos na dinâmica da vida.
Atualmente há respeitáveis estudos, análises, debates e críticas sobre a famosa “teoria do caos”. Para alguns , é uma das teorias mais importantes do Universo, presente na essência em quase tudo o que nos cerca. Seus causídicos afiançam que variações insignificantes no início de um determinado evento (mudança climática, por exemplo) podem gerar transformações profundas no futuro, o que tornaria o sistema (ou eventos) caóticos e impossíveis de serem previstos.
O termo caos, assim traduzido para o português, é originado da palavra grega “cháos", que significa vasto abismo ou fenda. Através dos romanos, passou a ter a conotação de desordem. A “teoria do caos” também está relacionada com as variações do mercado financeiro e com o crescimento populacional e, como vimos, com a concepção de impossibilidade de previsões climáticas a longo prazo.
No século XX, durante um evento científico ocorrido em Washington , em 1972, o meteorologista Eduard Norton Lorenz, fundamentado em seus estudos, formulou equações que demonstravam o “efeito borboleta”. Para isso apresentou um artigo intitulado “Previsibilidade: o bater de asas de uma borboleta no Brasil desencadeia um tornado no Texas?”. Criando tal adágio, traduziu ideias de que pequenas causas podem provocar grandes efeitos, independentes do espaço e do tempo.
O físico Stephen Hawking também anotou o seguinte: "Uma borboleta batendo as asas em Tóquio pode causar chuva no Central Park de Nova Iorque".[1] Hawking explicou que não é o bater das asas, ingênua e meramente, que provocará a chuva mas a influência deste pequeno movimento sobre outros eventos em outros lugares é que poderá levar, por fim, a influenciar o clima.
Com base em tais afirmativas observa-se que o tema é instigante, por esta razão abreviaremos o debate apoiado nas argumentações dos Benfeitores espirituais. O espírita tem consciência de que o “acaso” não existe. Na produção de certos fenômenos como os ventos, as chuvas, os trovões, os raios e as tempestades, os Espíritos se reúnem em multidão. Alguns deles [Espíritos] agem às vezes com conhecimento de causa, outros não, sobretudo os Espíritos mais atrasados, entretanto quando sua inteligência estiver mais desenvolvida também comandarão e dirigirão alguns fenômenos naturais.[2]
Para o restabelecimento do equilíbrio e da harmonia das forças físicas da natureza os Espíritos na condição de agentes da vontade do Criador precisam exercer ação sobre a matéria e sobre os elementos a fim de agir, presidir e dirigir certos fenômenos. Até porque Deus não exerce ação direta sobre a matéria. Para isso o Criador encontra agentes (Espíritos) dedicados em todos os graus da escala dos mundos.
Portanto, os fenômenos naturais têm uma finalidade providencial, não ocorrem por causas aleatórias. Naturalmente tudo tem uma razão de ser e nada [nos fenômenos naturais] acontece sem a permissão de Deus. [3]

Referências bibliográficas:

[1] HAWKING, Stephen. O Universo Numa Casca De Noz. SP: Ed. Nova Fronteira, 2002.
[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed. FEB, 1999, questões 539, 540
[3] Idem, questão 536

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Buscar a verdade ou ter razão?

Buscar a verdade ou ter razão?
Vladimir Alexei

Vladimir Alexei

vla.alexei@gmail.com
Belo Horizonte, das Minas Gerais, em
05 de fevereiro de 2018.

É recorrente, no movimento espírita brasileiro, a polêmica em torno da divulgação doutrinária. Parece-nos característica do ser humano, independente da religião. Em alguns momentos, as diferenças se avolumam e o desentendimento de ideias passa a ditar o ritmo da desunião no movimento, como se não fosse mais possível uma convivência fraterna, em meio a pensamentos diferentes.
A mais recente, versa sobre as alterações existentes na obra A Gênese, publicada pela primeira vez por Allan Kardec em 1868. Quando as discussões são amplas e as reflexões vão além dos extremos (gosto, não gosto; aceito, não aceito; concordo, discordo; etc...), é possível extrair informações interessantes que estimulam a busca por novos conhecimentos.
Alguns companheiros tem a desfaçatez de afirmar que esse tema eclodiu sobre os auspícios dos “espíritos superiores” que, provavelmente, cansados em ver a “lengalenga” dos encarnados, decidiram abrir o livro “preto” (ou seria vermelho?), contendo anotações que os encarnados não poderiam saber antes, porque não estavam preparados. Estamos preparados?
Nietzsche diz o seguinte: “à força de querer buscar as origens nos tornamos caranguejo. O historiador olha para trás e acaba crendo para trás”. O olhar apressado, do presente, ante informações do passado, torna as diferenças ainda mais absolutas, o que suscita outras reflexões.
O professor Cesar Perri, ex-presidente da federação, usa tom adequado e a linguagem prudente de um catedrático, ao reconhecer a importância dos questionamentos ante o que se convencionou chamar de “fatos novos”, a respeito das alterações ocorridas na quinta edição de A Gênese. Elementos antes dispersos, ganharam interpretação e análise conjunta que chamou a atenção. Isso seria bom, se não fosse a ausência de diálogo entre os espíritas...
Polemiza-se o assunto ao se questionar se houve “adulteração”, já que alteração houve, o que parece consenso. Quem tem razão? Foi realmente adulterado? Quem está em busca da verdade? O uso da razão só perde para a vaidade em manifestar-se sempre, e apenas, quando a conveniência aponta que é o momento. Dentre os que, no limite de seus conhecimentos, expõem-se a críticas quando erram e aqueles que só aparecem para criticar aquilo que a lógica diz ser errado, seja prudente e observe... a lógica e a razão continuam sendo usadas de forma errada. Se o que motiva a lógica é a vaidade, perde-se a razão.
Por outro lado, o movimento espírita ganhou um novo “vilão”: Leymarie. Voltando às mentes férteis e cultas de nosso movimento espírita, citado no terceiro parágrafo desta pensata, questionamos: por que os “espíritos superiores” estimulariam o aparecimento de mazelas de uma figura até então secundária, cuja sombra não foi capaz de projetar-se ante a luz dos ensinamentos enfeixados nas obras de Allan Kardec? Permitiriam isso para fazer com que a dissensão entre os espíritas aumentasse? Os doutores dirão que sim. Simples assim.
Fico com Nietzsche: no afã de buscar na história os fatos, ou a melhor versão para os fatos, a figura de Leymarie ganhou destaque negativo, como se isso alterasse todas as mazelas produzidas no movimento espírita brasileiro, pela federação, ao publicar as obras de um certo advogado francês. E mesmo sendo Leymarie um ser egoísta que agiu por conta de interesses próprios, o que dizer de todos os presidentes que passaram pela federação e eram adeptos do pensamento do advogado francês? Em termos práticos, continuamos na periferia dos eventos.
Henri Sausse (Allan Kardec), Gaston Luce (Leon Denis) e tantos outros, dedicaram-se, com os recursos que possuíam, para preservar não somente a memória desses expoentes, mas também seus legados, suas obras. Por que ainda alçamos figuras tão falíveis quanto nós outros à condição de “Judas”? O que buscamos com isso? A verdade? A federação há mais de um século se mantem à margem da verdade e, ao primeiro vestígio de um pensamento contrário, manifesta-se sem a menor convicção daquilo que deveria dizer. Seria melhor não ter dito nada.
Isso quer dizer então que devemos aceitar tudo? Deixar tudo como está? Evidentemente que não. A busca pela verdade exige despir-se de certezas e convicções que foram construídas ao longo de uma Vida, para conseguir ver alternativas onde antes figuravam apenas hipóteses. Kardec exemplificou isso ao abrir mão de suas ideias em prol das orientações trazidas pelos espíritos superiores. “Hoje, a batalha se trava no terreno do Espírito” (Edgar Morin).




sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Inutilidade das federações e órgãos de “unificação” espírita no Brasil (Jorge Hessen)


Jorge Hessen
jorgehessen@gmail.com

Em 1978, durante a reunião do “CFN” Conselho Federativo Nacional (colégio cardinalício) da FEB, um representante da FEEES- Federação espírita do estado de Espírito Santo defendeu a transformação do” CFN” (colégio cardinalício)- numa Confederação Espírita Brasileira.  Porém, Francisco Thiesen, então presidente da FEB, ameaçou pronunciando que a FEB jamais transformaria o  “CFN” (colégio cardinalício) numa Confederação porque o “CFN” (colégio cardinalício)  era um órgão de [“propriedade”] da FEB. Entretanto, afirmou que os presidentes das federações estaduais eram livres para se reunirem fora do “CFN” (colégio cardinalício) e criarem uma Confederação Espírita Brasileira.  

Como no Brasil tudo é peculiar, os dirigentes das federações estaduais continuam achando “delicioso” se submeterem ao autoritarismo febiano. Exceto o brioso  Gelio Lacerda da Silva, ex-presidente da FEEES - Federação espírita do Espírito Santo, que narra na obra “Conscientização espírita”[1], “a direção da FEB  na pessoa do vice-presidente, Sr. Juvanir Borges de Souza, ao término da reunião do Conselho Federativo Nacional “CFN” (colégio cardinalício), em Brasília, de julho de 1980, me advertiu dizendo que a reforma estatuária da FEEES fechou as portas a Roustaing e que, se não fosse mudado, a FEB cancelaria a adesão  da FEEES ao  “CFN” (colégio cardinalício)”.

Lacerda acrescenta que a “FEB vem tomando atitudes arbitrárias e ameaçadoras dessa natureza, isso ao longo de sua existência, sob o olhar dulcificado e complacente dos dirigentes das federativas estaduais. Gelio afirma que com a FEB o movimento espírita vive sob regime de liberdade vigiada". [2]

Mas Deus é justo. Para quem não sabe, me apraz informar que o ex-prestigioso parque gráfico febiano, localizado em São Cristóvão, Rio de Janeiro,  faliu (encerrou suas atividades) por intervenção, obra e graça da Providência divina.

Vivemos novos tempos. Creio que a era virtual, das redes sociais e de outras plataformas da internet despedaçaram a supremacia da FEB e das federações estaduais. Hoje em dia, nenhum estudioso ou adepto do Espiritismo necessita dessas entidades antiquadas. Em verdade a Doutrina dos Espíritos tem chegado a incomensurável número de adeptos, graças ao novo paradigma da difusão das obras de Allan Kardec.

Prevemos uma era de união espontânea, bom ânimo, coragem e sabedoria dos espíritas em torno das obras codificadas por Kardec, e obviamente distantes da chibata da “uniformização”, que é o farol da infausta “unificação” federada. Deste modo, temos observado que afastados das “cúpulas federativas infalíveis” vige maior fraternidade entre os espíritas. Hoje se acolhe e se convive com diversos modos diferentes de abranger, interpretar e vivenciar o projeto da Terceira Revelação.

Como dizia Chico Xavier - “É preciso fugir da tendência à "elitização" no seio do movimento espírita. É necessário que os dirigentes espíritas, principalmente os ligados aos órgãos federativos, compreendam e sintam que o Espiritismo veio para o povo e com ele dialogar. É indispensável que estudemos a Doutrina Espírita junto com as massas, que amemos a todos os companheiros, mas sobretudo, aos espíritas mais humildes social e intelectualmente falando e deles nos aproximarmos com real espírito de compreensão e fraternidade. Mais do que justo evitarmos isso, a "elitização" no Espiritismo, isto é, a formação do "espírito de cúpula", com evocação de infalibilidade, em nossas organizações. [3]

Ora sabemos que no “espírito de cúpula” e “evocação de infalibilidade”, o primeiro decorre do segundo. Considerar-se “infalível” e superior aos outros é o que caracteriza a prepotência. Chico aponta com coragem que estes problemas estão acontecendo nos "órgãos  federativos". Por que Chico fez tal confissão? Por causa do distanciamento da “cúpula” dos espíritas deserdados. Pela excessiva centralização hierárquica e destruição dos canais de diálogo da maioria das federações com a comunidade pobre dos espíritas de periferia. “Sinceramente, não conseguimos compreender o Espiritismo, sem Jesus e sem Kardec para todos, com todos, e ao alcance de todos, a fim de que o projeto da Terceira Revelação alcance os fins a que se propõe”. [4]

Referências bibliográficas:

[1]DA SILVA, Gelio Lacerda. Conscientização espírita, 1ª. edição, SP: EME editora 1995
[2] Idem
[3]cf. Entrevista concedida ao dr. Jarbas leone varanda e publicada no jornal uberabense o triângulo espírita, de 20 de março de 1977, e publicada no livro intitulado encontro no tempo, org. Hércio m. C. Arantes, editora Ide/SP/1979.
[4]Idem

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

150 anos de A Gênese: importância e fidedignidade


Antonio Cesar Perri de Carvalho



Entre as várias obras de autoria de Allan Kardec, com A Gênese completa-se o quinto volume das chamadas Obras Básicas da Codificação. Kardec discorre sobre questões importantes que destaca no subtítulo: os milagres e as predições segundo o Espiritismo; e analisa a Gênese de acordo com as leis da Natureza e a interpretação espírita.

A edição da Revista Espírita de janeiro de 1868 anunciava que o livro A Gênese estaria à venda no dia 6 de janeiro de 1868. O exemplar desta Revista, de fevereiro de 1868 trazia uma dissertação do espírito S. Luís sobre a nova obra. Surgem notícias sobre novas edições: 2a edição (março de 1868); 3a edição (abril de 1868); e ao longo daquele ano Kardec transcreveu vários trechos dessa nova obra na Revista Espírita. Até a desencarnação de Kardec (1869), existiam quatro edições dessa Obra Básica.1,2

A propósito das edições subsequentes à partida de Kardec é que surgem algumas dúvidas e polêmicas. Esta questão reapareceu durante reunião da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional, ocorrida em Bogotá (Colômbia), em outubro de 2017, com divulgação de carta do presidente da Confederação Espírita Argentina e consta a informação de que teria sido motivação de um questionamento em um momento da reunião do Conselho Federativo Nacional da FEB, em novembro de 2017.

A dúvida reinante é sobre a fidedignidade da versão francesa que serviu de base para as traduções de A Gênese. Já existiam várias controvérsias, mas agora reaparecem principalmente a partir da recente edição de A gênese, pela Confederación Espiritista Argentina, com tradução realizada por Gustavo N. Martínez, a partir da 1a edição francesa, lançada aos 6/01/1868.3

A propósito, são foram louváveis as providências do presidente da Confederação Espírita Argentina em levar a questão ao CEI, conforme trecho de sua carta, onde registra que: “esclarecer a grave questão, o presidente da CEA solicitou uma pesquisa à sra. Simoni Privato Goidanich, e que foi realizada pessoalmente nos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, localizadas em Paris, assim como na própria C.E.A. e na Associação Espírita Constancia, de Buenos Aires.”[*] O presidente da instituição prossegue: “Esta pesquisa resultou no livro El Legado de Allan Kardec, editado pela CEA [...] que demonstram que o conteúdo definitivo de La genèse, les miracles et les prédictions selon le spiritisme é o do único exemplar que foi depositado legalmente durante a existência física de Allan Kardec na Biblioteca Nacional da França e que, portanto, o mestre jamais modificou esse conteúdo, publicado em 1868.”4

O livro El legado de Allan Kardec, de autoria de Simoni Privato Goidanich, foi lançado na sede da C.E.A., em Buenos Aires, aos 3/10/2017.5

Henri Sausse, o principal biógrafo de Kardec e dinâmico líder espírita francês, em artigos – um deles intitulado “Uma infâmia” - publicados no jornal Le Spiritisme, em 1884 e 1885, já levantava questões sobre as adulterações na 5a edição de A Gênese e apontou 126 alterações no texto original.5

Entre muitos estudiosos há a suspeita de que alguns trechos de A Gênese poderiam ter sido alterados provavelmente por Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901). Este dirigente, com a desencarnação de Kardec, passou a exercer as funções de redator-chefe e diretor da "Revue Spirite" (1870 a 1901) e gerente da "Librairie Spirite" (1870 a 1897). Consta que, na prática, exerceria muita influência na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, cuja presidência era formalmente ocupada pelo Sr. Vautier; e passou a cuidar das edições e autorizações de traduções de obras de Kardec.2 E Leymarie foi presidente da “Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”.6

Como ilustração histórica dessas autorizações há o caso brasileiro das traduções pioneiras das obras de Kardec. No princípio do ano de 1875, Pierre-Gaëtan Leymarie autorizou em carta ao dr. Joaquim Carlos Travassos a tradução das obras de Allan Kardec para o português. Essa missiva foi publicada na íntegra na Revista Espírita, edição de 1875. Joaquim Carlos Travassos (1839-1915) traduziu para o português quatro obras básicas da Codificação, com exceção de A Gênese, em 1875 e 1876, utilizando o pseudônimo de "Fortúnio". As quatro obras foram publicadas pela Editora B. L. Garnier, do Rio de Janeiro.6 Em biografia sobre o tradutor Travassos, Zêus Wantuil comenta: “[...] a única coisa de interessante a anotar, sem nos referirmos ao bom estilo do tradutor, é o judicioso esclarecimento, de fundo rustenista, que vem na obra ‘O Céu e o Inferno’...”6

Leymarie teve intensa atuação na França. A 1ª edição da revista Reformador, de janeiro de 1883, noticia que ele representou a França em congresso ocorrido em Bruxelas, objetivando a criação de uma União Espiritualista Universal.7 Há correspondências de Leymarie com a então novel Federação Espírita Brasileira.

A ação de Leymarie foi polêmica, inclusive foi envolvido no histórico “processo dos espíritas”, relacionado com exploração das chamadas fotos de espíritos, em que foi condenado. Muitos registros constam em livro histórico e esgotado de Berthe Fropo - Beaucoup de Lumière -, uma espírita atuante, fiel aos ideais de Allan Kardec, muito amiga de Amélie Boudet, vizinha e apoiadora desta depois da desencarnação do codificador do Espiritismo.2 No ano de 2017 o citado livro foi traduzido e disponibilizado em edição digital bilíngue: a tradução em português e o original em francês - Beaucoup de Lumière (1884).

Berthe Fropo aborda o ponto crucial do desvirtuamento doutrinário ocorrido no movimento espírita francês pós-Kardec, comprometendo a continuação das obras do Codificador da Doutrina. Nessa obra histórica fica evidenciado que “com o aval de Amélie Boudet, Gabriel Delanne e Berthe Fropo se lançaram numa investida para reavivar os planos de continuação das obras de Kardec, que nas mãos de Leymarie haviam sido deturpados, por influência de ideologias outras, como o roustanguismo e — ainda mais fortemente — a mística doutrina da Teosofia de Madame Blavatsky e do Coronel Olcott.”2

Portanto, há indícios para haver suspeitas sobre eventuais alterações promovidas por Leymarie em itens de A Gênese.

Isso posto, citaremos apenas um item da citada obra em apenas algumas traduções para o português.

A tradicional edição de A Gênese, traduzida por Guillon Ribeiro (FEB) a partir da 5a edição francesa de 1872, não traz nenhuma informação adicional.8 A edição do Instituto de Difusão Espírita, traduzida por Salvador Gentile, utiliza a mesma edição francesa adotada por Guillon Ribeiro.9

Na edição da FEB, traduzida pelo Evandro Noleto Bezerra, também a partir da 5a edição francesa de 1872, o tradutor introduz uma nota de rodapé no item 67 do capítulo XV, anotando que há uma diferença com relação à edição de 1868, com Kardec ainda encarnado. Justifica que “ao revisar a obra com vistas à 4a edição, Allan Kardec houve por bem suprimir o item 67 que constava nas edições anteriores”. Nessa nota de rodapé, de número 124, o tradutor Evandro transcreve o item suprimido em outras versões “pelo seu inestimável valor histórico, o item 67 das três primeiras de edições de A Gênese”.10

Na edição do Centro Espírita Léon Denis, a tradutora Albertina Escudeiro Sêco, se baseia numa 4a edição francesa, de 1868, e introduz o item 67 original, a saber:

“67. A que se reduziu o corpo carnal? Este é um problema cuja solução não se pode deduzir, até nova ordem, exceto por hipóteses, pela falta de elementos suficientes para firmar uma convicção. Essa solução, aliás, é de uma importância secundária e não acrescentaria nada aos méritos do Cristo, nem aos fatos que atestam, de uma maneira bem peremptória, sua superioridade e sua missão divina. Não pode, pois, haver mais que opiniões pessoais sobre a forma como esse desaparecimento se realizou, opiniões que só teriam valor se fossem sancionadas por uma lógica rigorosa, e pelo ensino geral dos espíritos; ora, até o presente, nenhuma das que foram formuladas recebeu a sanção desse duplo controle. Se os espíritos ainda não resolveram a questão pela unanimidade dos seus ensinamentos, é porque certamente ainda não chegou o momento de fazê-lo, ou porque ainda faltam conhecimentos com a ajuda dos quais se poderá resolvê-la pessoalmente. Entretanto, se a hipótese de um roubo clandestino for afastada, poder-se-ia encontrar, por analogia, uma explicação provável na teoria do duplo fenômeno dos transportes e da invisibilidade. (O Livro dos Médiuns, caps. IV e V.).” E, naturalmente faz uma renumeração, surgindo o item 68 que, nas outras tradições citadas é o item 67.11

Dessa maneira, são pertinentes os recentes questionamentos surgidos nas acima citadas reuniões. Companheiros do “Le Mouvement Spirite Francophone” confirmaram-nos no final de 2017 que a primeira impressão da 5a edição, revisada, ocorreu em 1872, e verificou-se que muitos trechos foram eliminados da quarta para a quinta, inclusive no capítulo sobre o corpo de Jesus.

Ao ensejo dos 150 anos de lançamento de A Gênese, seria de fundamental importância o esclarecimento sobre algumas dúvidas que pairam sobre as versões editoriais da significativa obra de Allan Kardec e a tradução para o português do exemplar de 1868, registrado na Biblioteca Nacional da França.


Referências:

1) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. Revista Espírita. Ano XI. No. 1. 1868. Rio de Janeiro: FEB.

2) Fropo, Berthe. Trad. Lopes, Ery; Miguez, Rogério. Muita luz. 1.ed. Edição digital: www.luzespirita.org.br; acesso em novembro de 2017.

3) Kardec, Allan. Trad. Martínez, Gustavo N. La génesis. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina. 2017.

4) Carta do presidente da Confederación Espiritista Argentina, Sr. Gustavo N. Martínez, de 14/10/2017, distribuída em reunião do Conselho Espírita Internacional, em Bogotá (Colômbia).

5) Goidanich, Simoni Privato. El legado de Allan Kardec. 1.ed. Buenos Aires: Confederación Espiritista Argentina, 2017. 440p.

6) Wantuil, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. 1.ed. Cap. Joaquim Carlos Travassos. Rio de Janeiro: FEB. 1969.

7) Reformador, Ano I, n.1, 21 de Janeiro de 1883, p.1-4.

8) Kardec, Allan. Trad. Ribeiro, Guillon. A gênese. 1.ed. Cap. XV. Item 67. Rio de Janeiro: FEB. 1977.

9) Kardec, Allan. Trad. Bezerra, Evandro Noleto. A gênese. 1.ed. Cap. XV. Item 67. Rio de Janeiro: FEB. 2010.

10) Kardec, Allan. Trad. Gentile, Salvador. A gênese. 53.ed. Cap. XV. Item 67. Araras: IDE. 2008.

11) Kardec, Allan. Trad. Sêco, Albertina Escudeiro. A gênese. 3.ed. Cap. XV. Itens 67-68. Rio de Janeiro: Ed. CELD. 2010. 


(Publicado na Revista Internacional de Espiritismo, Ano XCII, edição de fevereiro de 2018, p.21-23)


[*] Nota: trata-se da tradicional e histórica Asociación Espiritista Constancia, fundada em Buenos Aires no ano de 1877. Os trechos da carta foram traduções livres feitas pelo articulista.