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terça-feira, 13 de outubro de 2020

A força criativa do Movimento Espírita e os seus frutos

Por Jane Maiolo

 E, avistando uma figueira perto do caminho, dirigiu-se a ela, e não achou nela senão folhas. E disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente.” [1] 

Há séculos as anotações do apóstolo Mateus tira a paz de muitos estudiosos e pesquisadores das novas escrituras. Descreve-nos ainda o evangelista que Jesus entrou no templo de Deus, e expulsou todos os que vendiam e compravam no templo, e derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas.[2] Teria de fato acontecido esse episódio? Jesus de fato teria feito “secar” a figueira e expulsado os vendilhões do templo?

Questionamentos como esses são válidos para que possamos extrair as lições espirituais das anotações que descrevem a história religiosa de um povo, o seu relacionamento ante as questões humanas e as percepções em torno das normas de conduta num determinado contexto.

Causa-nos estranheza defrontar com algumas reflexões que apontam a indignação do mestre perante os cambistas do templo no período das comemorações consagradas pela tradição, como por exemplo, na ocasião que antecedia a Páscoa dos judeus.

Será que Jesus se indignava?

Talvez ainda não meditamos a respeito das diferentes faces  de Jesus. A postura de indignação do Mestre nos revela seu lado enérgico, justo, amoroso e incorruptível. Postura de quem não se coaduna com as peripécias do mal.

No período da Páscoa judaica os peregrinos deslocavam-se à Jerusalém com a preocupação de cumprir os rituais de purificação no Templo e assim ficar nas “graças” de Deus. Ao chegarem, deparavam-se com imensos balcões de negócios comerciais (feiras), explorados por mercadores e sacerdotes inescrupulosos, fazendo com que muitos peregrinos não pudessem cumprir os ritos tradicionais da festa em face da majoração exorbitante do preço dos animais que eram utilizados para a oferenda do sacrifício.

Jesus nos ensina que é preciso o forte tomar a defesa do fraco, por isso age de maneira a ensinar, através de um recurso didático, intitulado na cultura judaica como “parábola de ação” ou “mímica judaica”. Lição que os homens guardariam na memória. Era comum um profeta registrar um ensinamento através de “parábolas de ações” ou “mímicas judaica” . Recursos esses tradicionalmente utilizados pelos profetas do antigo testamento.

Jesus nunca foi condescendente com o erro. Condescendência é atitude de quem concorda com algo embora tenha vontade de recusar, mas não o faz por medo, fraqueza ou para manter-se numa zona de conforto.

O episódio da expulsão dos vendilhões do templo e a passagem da figueira que secou são representações simbólicas de um ensinamento, ou seja, Jesus ao verificar que o templo (figueira) não produzia os frutos da vida e salvação transmite um ensinamento precioso para os homens, utilizando a “mímica judaica”.

A lição proposta aos discípulos refere-se que não basta a beleza e a suntuosidade das folhas, mas a árvore tem que produzir frutos, ou seja, o templo só tinha aparência de sagrado ou de casa de Deus, porém tornara-se um ambiente improdutivo ou como advertido por Ele um covil de ladrões”, [3]desprovido de frutos de amor ,vida e salvação. Ele ainda reforça que: “Não nasça de ti nenhum fruto” ou seja, para continuar a reproduzir esses padrões melhor que se extermine com essa estrutura e não reste pedra sobre pedra.

Jesus tinha fome!

Desejava o Mestre alimentar-se das obras de Deus. O templo, que era a única árvore do caminho, não estava produzindo o alimento para as almas, que não mais ignoramos ser o amor.

Entretanto Jesus é visto por nós como o Filho de Deus, o Messias, o Cordeiro, o Mestre, o Senhor, o Rei ,o Mito! Porém, no século XIX , Jesus ganha outra característica singular na Terceira Revelação: a de “Modelo e Guia” da humanidade conforme resposta dos espíritos a Allan Kardec na questão 625 de O Livro dos Espíritos.[4]

O Movimento Espírita orgulha-se dessa percepção avançada e verdadeira, mas seria importante refletir se os frutos da figueira têm alimentado a fome de amor daqueles que procuram os “templos” (instituições espíritas) com o intuito de saciar–se de abrigo acolhedor ,consolação ,esclarecimento e orientação espiritual.

Preocupar-se com o comércio, oferendas e sacrifícios simbólicos e ou materiais ainda estão na pauta das aflições humanas, porém há que se aferir qual o grau de envolvimento com estas questões que embaraçam o crescimento espiritual.

Não resta dúvida que as folhas da nossa figueira são exuberantes, porém é ocasião de aferição dos valores morais e época de saciar nossa fome de amor e consolação. Em verdade, frutos estes que já deveríamos colher em todas as árvores espalhadas nas hostes espíritas aqui do Brasil e d’outros países.

Ao longo de décadas o Movimento Espírita tem contribuído para minorar a fome de pão, as agruras do frio, as agonias da ignorância espiritual. Reuniões mediúnicas têm aliviado o fardo psicoemocional de muitas criaturas obsidiadas, atormentadas, desequilibradas.

Campanhas pela fraternidade, pela paz e pela vida extrapolam as fronteiras do Brasil e multiplicam-se num crescente clamor pela dignidade humana. Hospitais, sanatórios ,educandários, escolas têm sido erigidos buscando contribuir para a diminuição do sofrimento atendendo a demanda aflitiva do momento. Mães, pais e familiares têm se beneficiado com as psicografias das mensagens advindas dos entes amados que os antecederam na grande viagem.

Homens da Ciência, da filosofia e da religião têm doado seu tempo para levar instrução e motivação aos seus pares em vários lugares do mundo. Em suma, a força criativa do Movimento Espírita é concreta, apetecedora, profundamente consoladora. É importante que esses frutos de vida e amor sejam apetitosos e acessíveis a todos.

Com Jesus e Kardec avançaremos rumo à alvorada de uma Nova Era após a longa madrugada das incoerências religiosas nutridas pela ignorância espiritual.

Referências bibliográficas:

[1]           Mt. 21:19

[2]           Mt. 21:12

[3]           Mt. 21:13

[4]           Kardec Allan. O Livro dos Espíritos, questão 625, RJ: Ed. FEB, 2002

 

 

Jane Maiolo - Professora, Gestora na Educação Infantil, Psicopedagoga. Psicanalista, Colaboradora da Sociedade Espírita Allan Kardec de Jales. Pesquisadora dos textos do Evangelho. Colaboradora da Agenda Brasil Espírita- Jornal O Rebate /Macaé /RJ – Jornal Folha da Região de Araçatuba/SP -Jornal de Jales–Blog do Bruno Tavares –Recife/PE - colaboradora do site www.kardecriopreto.com.br- Revista Verdade e Luz de Portugal, Revista Tribuna Espírita de João Pessoa, Apresentadora dos Programas Sementes do Evangelho e Evangelho e saúde emocional da Rede Amigo Espírita. Janemaiolo@bol.com.br -

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Nova-velha “práxis” espírita

Vladimir Alexei
Belo Horizonte, das Minas Gerais,
09 de setembro de 2020.


O movimento espírita está se reinventando como pode. Cabeças que pensam fora da caixa se movimentam de alguma forma criando posicionamentos interessantes, controversos, mas que, em momento algum, são insossos como o que assolava o meio espírita.

Talvez engolfados pelos próprios problemas, alguns espíritas se preocupam muito mais com o psicologismo que tenta impor o posicionamento da Psicologia sobre a Ciência Espírita, do que propagar o Espiritismo, gerando um movimento espírita sem identidade Espírita 

Outro aspecto que também tem sido preocupação no meio espírita é o político. Muitas celebridades espíritas se posicionaram como de “direita” – o que é bastante louvável, principalmente quando a maioria fica em cima do muro apenas criticando –, e desandaram a justificar seus posicionamentos, inclusive citando espíritos que possuem papel importante no meio espírita.

Como consequência, aqueles que não pensam dessa forma se entrincheiraram criando um movimento à “esquerda”, com teses bem estruturadas, discursos eloquentes e incisivos, abordando temas urgentes como o combate à fome e a desigualdade social.

Em meio a todos os movimentos da atualidade, algumas conexões históricas não vieram à tona, contudo, cabe comentar, ainda que en passant: nossas ações ecoam pelo tempo, com reveses inimagináveis, diferentes até daquilo que motivou tais ações.

O que se vê hoje de “direita” e “esquerda” espírita, e a busca por uma nova “práxis espírita”, na realidade, é uma releitura adequada ao século XXI daquilo que já foi feito desde o século XIX, pela Federação Espírita Brasileira com seu “movimento de unificação”.

Ao criar um “movimento de unificação” a Federação desuniu os espíritas. Criou uma ruptura e combateu ardorosamente esse posicionamento durante mais de um século. Como resultado, ainda que em um “inconsciente coletivo”, temos o movimento espírita atual e a tentativa de uma nova práxis, cada vez mais entrincheirados, sem diálogos, completamente opostos, críticos ferrenhos uns dos outros e de tudo que “não é espelho”, como diria Narciso.

O que fazer?

Um psiquiatra, já que começamos o texto falando da Psicologia, escritor dos mais lidos do Brasil na atualidade, disse em uma de suas obras: “Ele (Jesus) foi mestre numa escola em que muitos intelectuais, cientistas, psiquiatras e psicólogos são pequenos aprendizes.”

Jesus disse que nenhuma ovelha de seu rebanho se perderia. O rebanho é um só! A primeira ação deveria ser desativar as masmorras, trincheiras e cárceres, criando pontes entre todos, para um diálogo fraterno, amigo, complementar.

Temos muito a aprender com o posicionamento de cada um, se pararmos de tentar ensinar...

Essa, quem sabe, pode ser uma nova-velha práxis espírita: vencer a nós mesmo pelo trabalho em benefício dos mais necessitados e em prol de uma sociedade mais justa e inclusiva.

Tudo isso, e muito mais, sempre foi o que Chico Xavier fez... 



segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Armas de fogo para quê? Somos pela paz

 Armas de fogo para quê? Somos pela paz



Jorge Hessen 
Brasília - DF 

Um encontro entre jovens, em um condomínio de luxo de Cuiabá, se tornou uma tragédia no dia 12 de julho de 2020. Naquela tarde, como fazia com frequência, Isabele Guimarães, de 14 anos, foi à casa das amigas. Horas depois, a jovem foi morta com um tiro no rosto. A autora do disparo Laura, também de 14 anos, relatou à polícia que atirou de modo acidental em Isabele.

A adolescente afirmou que se desequilibrou, enquanto segurava duas armas, e disparou. A família da Isabele não acredita nessa versão. Laura praticava tiro esportivo desde o fim de 2019. Ela participou de duas competições e venceu uma delas. (1)

Hoje em dia , adolescentes como Laura podem praticar tiro esportivo sem precisar de autorização judicial, graças ao decreto assinado pelo atual presidente do Brasil. A família de Laura, a homicida, integra uma categoria que tem crescido no país, sobretudo durante o atual governo brasileiro: os CACs, aqueles que se declaram colecionadores de armas, atiradores desportivos ou caçadores.

O caso nos fez rememorar o fatídico plebiscito ocorrido no Brasil há 15 anos sobre a proibição da comercialização de armas de fogo e munições. A implicação de tal pleito culminou em não permitir que o artigo 35 do Estatuto do Desarmamento (Lei 10826, de 23 de dezembro de 2003) entrasse em vigor. Lamentavelmente a maioria da população brasileira apoiou a comercialização de armas de fogo, quando detinha o poder de decidir pela pelo seu impedimento.

É flagrante que o resultado do plebiscito revelou a controvertida índole moral da maioria dos meus conterrâneos, contrariando naquela conjuntura um levantamento realizado pelo Instituto Brasmarket, a pedido do jornal Diário do Grande ABC, demonstrando que 81,6% da população da região do ABC de São Paulo estava contra a comercialização de arma.

É por essas e outras razões que o Espírito André Luiz nos aconselha “afastar-nos do uso de armas homicidas, bem como do hábito de menosprezar o tempo com defesas pessoais, seja qual for o processo em que se exprimam. Pois o servidor fiel da Doutrina possui, na consciência tranquila, a fortaleza inatacável.”(2) É categoricamente falsa a segurança oferecida pelas armas no ambiente doméstico, por exemplo, considerando o potencial de alto risco do uso da arma “acidentalmente” , que podem causar efeitos danosos irreparáveis na vida familiar.

O elevadíssimo investimento de recursos econômicos em armamentos é completamente inútil e desnecessário. Por outro lado, o desarmamento geral será uma prática de eficiência administrativa sem prejuízo social algum, pois haverá desinteresse em conflitos internos e externos devido à possibilidade da convivência amigável em comunidade local ou global, implementado inclusive pela competitividade saudável no trabalho, mas com respeito ao semelhante.

As leis e a ordem impostas à sociedade como resposta à exigência coletiva são bem-vindas e necessárias, porém, melhor será quando todos souberem amar e fazer ao próximo o que desejaria que lhe fizessem, respeitando-lhe seus direitos, sobretudo o mais fundamental como o direito à vida.

Não obstante exista no Brasil milhares de centros espíritas, infelizmente ainda lideramos a lista mundial em casos de mortes produzidas com a utilização de armas de fogo. Apesar disso, cremos que nesse contexto o Espiritismo é e sempre será o instrumento por excelência decisivo na transformação pela pacificação social.


Referências bibliográficas: 

(1) Disponível em https://br.noticias.yahoo.com/tiro-em-banheiro-e-amizade-002555064.html acesso 06/09/2020 

(2) VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2003, cap. 18.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

O choro como válvula de escape da aflição

 O choro como válvula de escape da aflição 

Jorge Hessen 
jorgehessen@gmail.com 
Brasília - DF 

O choro pode durar a noite inteira, mas de manhã vem a alegria. (1) Estudiosos afirmam que a função evolutiva do choro foi despertar empatia no semelhante e estimular o auxílio em momentos de necessidade. Na verdade, a histórica cooperação entre indivíduos foi e continua sendo essencial para a sobrevivência da espécie humana.

Sabe-se que o choro libera hormônios e neurotransmissores que aliviam a tristeza e a dor. Especialistas alegam que reprimir o choro significa abafar alguns sentimentos, tornando mais difícil lidar com eles. Em face disso, médicos e psicólogos recomendam chorar para liberar as emoções. O choro amiúde constitui o acesso nas essências mais profundas dos sentimentos. É quando não se domina a amargura e ela necessita ser vazada, exposta, nem que seja solitariamente.

As lágrimas são um mecanismo de defesa do organismo para liberar o stress e auxiliar no reequilíbrio das emoções. O choro alivia a angústia e pode nos levar a submersões mais intensas, quando oferecemos um sentido para as lágrimas, para aquela dor vivida no presente.

Todavia, são urgentes alguns alertas! O choro pode ser um episódio ligeiro de tristeza, mas também pode ser um transtorno psicológico depressivo. A tristeza é um estado emocional transitório e comum, uma reação psicológica circunstancial. Entretanto, a depressão, ao contrário da tristeza, não é algo efêmero. Uma pessoa deprimida padece de condição emocional crônica sob as chibatas da ansiedade mental prolongada.

Meditando a questão do choro, observamos que ele foi sublime em Jesus. Como registrou o evangelista afirmando que à frente de Lázaro “morto”, o Cristo chorou. O excelso Galileu “também chorou lamentando a incompreensão dos homens sentado em uma das grandes raízes de uma árvore no fundo do quintal da casa de Pedro".(2) Jesus chorou no Getsêmani, quando sozinho, todavia, em Jerusalém, sob o peso da cruz, rogou às mulheres generosas a cessação das lágrimas. Na alvorada da Ressurreição, questionou Madalena a razão do seu choro junto ao sepulcro.

Conta o Espírito Hilário Silva no livro “A Vida Escreve” uma metáfora em que Eurípedes Barsanulfo teria indagado ao Mestre: “Senhor, por que choras?”. Jesus não respondeu. O nobre filho de Sacramento reiterou: “Choras pelos descrentes do mundo?” E após um instante de atenção, Jesus respondeu em voz dulcíssima: “Não, meu filho, não sofro pelos descrentes aos quais devemos amor. Choro por todos os que conhecem o Evangelho, mas não o praticam”.(3)

Sabendo que o choro pode significar abrigo de alívio, consintamos que ele advenha, para benefício daquele que chora. Apenas expressemos compaixão. Abriguemos os que choram, dizendo-lhe frases do tipo: “Conte comigo”, “estou ao seu lado”, “compreendo e respeito sua agonia”, “confie e espere’, ‘tudo passa”, sempre sussurrando-lhe Jesus aos ouvidos: “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.” (4)

 

Referências bibliográficas:

1             Salmo 30:5

2             FRANCO, Divaldo. Primícias Do Reino Ditado pelo Espírito Amélia Rodrigues, Salvador: Editora, LEAL 2015

3             XAVIER, Francisco, VIEIRA, Waldo. A Vida Escreve, pelo Espírito Hilário Silva, ed. FEB, 1998

4             Mateus 5:4

sábado, 22 de agosto de 2020

O labéu do aborto no imaginário de uma menina

O labéu do aborto no imaginário de uma menina


Jorge Hessen

jorgehessen@gmail.com

Brasília - DF

 

Pela legislação brasileira o aborto é autorizado em casos de gravidez resultante de estupro, foi o que fez a Justiça do Espírito Santo dando aval para que a menina de 10 anos, grávida após ter sido estuprada pelo tio, interrompesse a gestação. O enredamento do evento não nos deve ofuscar a reflexão cuidadosa e lógica dos fatos. Urge considerar que a menina violentada já estava com 23 semanas de gestação. Nesse caso, nossos expedientes éticos propendem em defender as duas vidas, posto que nesse caso, quiçá seja injustificável a condenação à pena de morte de um bebê de quase seis meses.

Porém, em “benefício” do aborto, destroçou-se não apenas o bebê, mas também potencializou os efeitos colaterais do trucidamento na delicada fisiologia da menina. Obviamente nessas conjunturas é preciso acautelar-nos sobre as nossas acaloradas opiniões eivadas de pensamentos vingativos, emoções contumazes, vocábulos condenatórios hostis. Nesse deplorável contexto, seria razoável advogar inapelavelmente a favor do aborto? Não creio! A respeito do dantesco fato algumas instituições religiosas emitiram opiniões oficiais contrárias ao procedimento abortivo. Porém, o caso foi judicializado, cabendo formalmente o cumprimento da lei a desfavor do bebê.

No Brasil, todos os anos, há aproximadamente 30.000 gestações de menores de 14 anos. O episódio levantou muitas celeumas. Evitando aqui o ranço da espetacularização midiática, é importante citar que a maioria da população brasileira é contrária à prática do aborto. O Espiritismo também não tolera, admitindo-o, porém, exclusivamente, quando a mãe corre “risco de morte”.

No caso da menina violentada, alguns especialistas admitiram que as consequências da gestação poderiam ser catastróficas. Disseram que poderia haver uma obstrução do parto, causado pela desproporção cefalopélvica, que ocorre quando a abertura pélvica da mãe é pequena para permitir que a cabeça do bebê passe durante o parto. A septicemia (infecção generalizada), o descolamento da placenta por conta da hipertensão arterial, a hipertensão ocasionada pela gravidez, inclusive pré-eclâmpsia e eclampsia, se não tratados, podem provocar parada cardíaca ou derrame, resultando em morte, tanto para a menina como para o bebê. Se tais prognósticos resultam 100% correta o aborto era indispensável, sem dúvida.

Mas, será que todos os médicos partilhavam dessa mesma opinião? Será que a bestialidade do estupro poderia ter sido evitada com a intervenção espiritual? Será que os espíritos responsáveis pelo controle das encarnações estavam ausentes? Seria, neste caso, uma reencarnação acidental? Particularmente, não creio que tenha havido "programação espiritual" para tal reencarnação e muito menos que a menina tivesse que passar pela penúria da gravidez, por ato de violência de um parente, e ter filhos aos 10 anos de idade. Mas não compreendo racionalmente tanto furor na defesa do aborto (inclusive provindo de “espiritas”).

Se realmente existia iminente risco à vida da menina, que, nesse caso (para alguns médicos) foi o aborto necessário, não entraremos no mérito desse consentimento científico. Pois na resposta dada à questão 359, em O Livro dos Espíritos, fica aberta a questão: "Preferível é se sacrificar o ser que ainda não existe a sacrificar-se o que já existe." Cada caso é um caso. Há casos e casos, há exceções, há atenuantes que não vamos discutir aqui. É mais do que lógico que o tema aborto não pode ser banalizado a partir do caso da menina violentada. Devemos lutar pela vida com as suas máximas consequências, ininterruptamente, em qualquer circunstância.

Salvo melhor juízo, assumo que não aprovaria o aborto de um bebê de quase 6 meses, praticado na menina do estado do Espírito Santo.

quarta-feira, 19 de agosto de 2020

O que Jesus requer de seus discípulos

 O que Jesus requer de seus discípulos

Vladimir Alexei

Belo Horizonte das Minas Gerais,

19 de agosto de 2020.

 

A renúncia é uma virtude moral de suma importância para a evolução do espírito.

Para melhor entendimento sobre o tema, Vinicius, em sua obra “Em torno do Mestre”, caracteriza a renúncia como, coragem moral, disposição de ânimoresistência às seduções do mundo, colocando acima de tudo “o ideal de justiça e amor”, legados pelo Cristo.

coragem moral para enfrentar os desafios com dignidade, ante as investidas de pensamentos e sentimentos que eclodem, volta e meia, a partir de gatilhos mentais disparados no enfrentamento cotidiano. Aprende-se, exercitando o autoconhecimento, a compreender melhor o que são esses gatilhos em cada um de nós. Em seguida, sem receitas prontas, por meio de trabalho árduo de renúncia, dúvidas e dedicação, o indivíduo conseguirá analisar com mais calma e disposição para mudar aquilo que suscita sentimentos controversos e menos felizes.

Disposição de ânimo para não sucumbir aos primeiros obstáculos. É comum o discípulo, diante das dificuldades, escolher caminhos menos pedregosos. Entretanto, as tribulações da caminhada testam nossa resignação e firmeza diante do propósito de servir na Seara do Cristo. Serviço que não pede formação, cultura ou distingue religião, apenas ânimo decidido para levar conforto espiritual e esperança aos mais necessitados.

Resistência às seduções do mundo, talvez, dentre as demais virtudes, seja a menos compreendida. Não se trata de batalha armada contra inimigo declarado e sim, luta íntima em favor dos valores superiores da vida, diante de um adversário muito próximo, que transita ainda dentro de nós mesmos: a ignorância. Resistir aos ímpetos de instintos materiais é um passo importante que a razão nos convida a vivenciar. Razão é a educação dos impulsos, a transformação dos instintos que causam inquietação na alma, pela serenidade progressiva que ilumina os passos daqueles que se esforçam por vencer a si mesmos.

Tudo isso ocorrendo em conjunto, evolvendo ativamente os mais nobres valores de Justiça e Amor como aqueles trazidos pelo Cristo. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez, continuamente, sempre para o Alto.

 

 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Sociedade do Cansaço e do esgotamento


A candeia do corpo é o olho. Portanto, se o teu olho for simples, teu corpo inteiro será luminoso. *

Por Luiz Henrique Maiolo e Jane Maiolo

Nos últimos tempos, a Sociedade do Cansaço é também caracterizada como a sociedade do desempenho, configurada por uma série de obrigações e padrões a serem seguidos e praticados pela população, que almeja o indispensável sucesso. Nesse contexto, a intensa produtividade humana, manipulada e incentivada pelos meios sociais, no universo capitalista, leva muitos indivíduos a inúmeros problemas de ordem mental como a depressões, ansiedades e transtornos múltiplos, quadro obviamente sintomático do mundo contemporâneo, definidos pelo filósofo sul-coreano Byung Chul Han como “violência neuronal”.

     A princípio, a constante busca pelo sucesso e produtividade, é caracterizada pela sociedade do desempenho. O indivíduo inserido nos meios socais com excessiva positividade é totalmente induzido ao progresso e as intensas buscas pela prosperidade de suas ações, no qual, é hiperestimulado acenando-lhe que nada é impossível, que todos são capazes, que só depende dele para se tornar feliz. Como consequência desse pensamento, age-se como uma máquina alienada pelos padrões, que só enxerga a felicidade nos meios de produção. Sendo assim, o ser humano torna-se vítima e vilão da sociedade, oferecendo campo fértil para a insanidade e desequilíbrio.

    Ademais, com as intensas cargas de alienação, fruto da Sociedade do Cansaço, imposta ao indivíduo, registra-se a falta de auto realização, inexistência dos prazeres pessoais e ausência de ócio criativo. Em razão disso, há um crescente aumento de pessoas neuróticas e infelizes. Esses indivíduos, altamente obcecados pelo excesso de positividade, não buscam mais os próprios prazeres, lazeres, entretenimento e atividades saudáveis, ao físico e a mente, não movimentam sua saúde emocional oxigenando-a e potencializando-a. Dessa forma, a falta de práticas saudáveis ao corpo e a mente assinala drasticamente a sociedade neurótica e esgotada.

     Portanto, a formatação do indivíduo pela Sociedade do Cansaço, e a alienação do mesmo pelo excesso de positividade, torna a sociedade uma série de indivíduos neuróticos e alienados. O Governo, através de política públicas e sociais, deveria implementar ou promover uma maior discussão em torno de temas como igualdade social, racismo, educação de qualidade, minimizando os efeitos alienatórios das muitas mídias, pois, ser alguém bem-sucedido é ter amor próprio, sentir-se capaz de buscar melhores condições de vida, é sentir-se pertencente à um grupo, à uma sociedade, à uma nação. Política visionária que afrontaria a Sociedade do Esgotamento e maximizaria o desejo de vida saudável e equilibrada.

*Mateus 6,22