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domingo, 15 de setembro de 2019

ORGANIZAÇÕES RELIGIOSAS, UM SUSTO

Margarida Azevedo
Sintra/Portugal 

Em qualquer organização religiosa há a distinguir três tipos de pessoas, com interesses bem distintos:
1 - os que constróiem o edifício teológico, traçam as linhas ideológicas identitárias da organização, estabelecem as regras de conduta, elaboram a orgânica administrativa – teólogos e investigadores, elementos mais proeminentes da hierarquia sacerdotal e professores universitários;
2 - os que zelam pelo cumprimento dos seus preceitos, por isso mais próximos dos fiéis: elementos da base da hierarquia sacerdotal, acólitos, catequistas e demais leigos, segundo a organização em causa;
3 – os fiéis em geral: seguidores, crentes, simpatizantes.
Vamos debruçar-nos sobre os primeiros.
Entre as organizações importantes, as religiosas são as mais importantes. Devemos-lhes, entre uma multiplicidade de aspectos inerentes a cada uma de per si, a educação e respectivas correntes pedagógicas, cuidados de saúde, de ajuda aos mais necessitados, e, muito especificamente, o levantamento da fé como algo estruturante do indivíduo, factor privilegiado de socialização. No entanto, dificilmente explicável, ou não, falharam redondamente. Porquê?
Em vez de traçarem um caminho dos fiéis rumo à felicidade, fizeram do sofrimento um meio virtuoso de chegar a Deus; divindindo o panorama religioso em dois, o pagão e o monoteísta, criaram dois tipos de crentes, dois tipos de fiéis, dois tipos de pessoas, com dois graus de importância, com dois caminhos de fé, com dois objectivos distintos, a saber, a felicidade na terra, para os pagãos, a felicidade no céu, para os monoteístas.
Ao imporem comportamentos que vão ao arrepio da natureza humana, construiram um mundo à parte, isolaram-se, facto que se tem perpectuado até aos nossos dias.
Assim, estabelecendo um paralelismo entre o mundo terreno e o mundo celestial, fizeram daquele um mundo de malefícios e de vícios, incompatível com a boa-ventura do mundo celestial. Criaram preceitos e práticas sacrificiais, supostamente salvíficas, ritualística complexa para agradar a Deus/deuses.
Minimizando o natural sofrimento do ser humano, ou enaltecendo-o, conforme os interesses, excluindo-o, habitualmente, de uma abordagem espiritual, sobrepuseram a este um segundo sofrimento, artificial, muito maior, o qual consiste na descontextualização sociológica da existência humana, apresentando o mundo como um palco de males a abater o que, naturalmente, culmina em comportamentos alucinados.
A felicidade neste mundo foi sempre encarada com temor e desconfiança, uma vez que retira ao céu a primazia e a exclusividade da mesma. Dito de outro modo, só no céu é que é possível ser-se feliz.
No entanto, esse céu exclusivista e ciumento mais não é que o prolongar dos prazeres do inconsciente, no seu pior, tais como: sensualismo e machismo - um mundo de orgasmos eternos, onde o fiel vive rodeado de virgens; avareza/egoísmo - posse do mais fino ouro, numa riqueza sem fim; gula - um banquete farto de excelentes iguarias; preguiça/ócio - um festim eterno, dança e riso permanentes, onde ninguém trabalha; desprezo/não-perdão – os inimigos foram destruídos para sempre; ignorância – ausêcia de perspectivas intelectuais pois não faz falta estudar… e muitos mais poderíamos citar, todos contrários à santidade e pureza espirituais.
Profundamente conhecedoras das fraquezas humanas, mais especificamente com os seus fetiches, e por isso mais ocupadas com estes do que propriamente com a salvação das almas, as organizações religiosas têm mexido habilmente com os anseios mais profundos dos seus fiéis: saúde, paz e prosperidade para sempre, sobretudo, prazer eteno. Nada interessadas em tornar o mundo melhor, prometem tudo isso no além. O preço é cumprir rigorosamente com as práticas impostas e desprezar o mundo.
De tribais a ordens militares, impuseram-se pela força semeando terror. Foi assim que impuseram os seus deuses, encabeçando o destino dos povos e, dessa forma, desenvolvendo a subserviência, garantindo riqueza para si, honrarias, lugares de destaque político. Hoje, não é diferente, apenas sociologicamente descontextualizado, ou pelo menos deveria sê-lo.
Era suposto a humanidade ter evoluído na sua fé e na sua religiosidade, só que as organizações religiosas não o permitem. Cinicamente indo procurar na História os seus piores momentos, há quem desculpe os actos violentos com os comportamentos de outrora; uma espécie de pena de Talião, olho por olho e dente por dente, ou pela lei do karma, “fizeste no passado estás a pagar no presente”. Ora a História é uma ciência que nos descreve o nosso caminhar no mundo, a manifestação da nossa espiritualidade no mesmo, rumo a nada mais importante que a felicidade. As batalhas de ontem não são as de hoje. Convém dar essa impressão, mas não é bem assim.
Estamos a viver momentos históricos singulares, problemas acutilantes onde o principal é a sobrevivência da própria humanidade. Isto é novo. Isto levanta questões como: Que humanidade estamos a construir? Que influência terão os robots no seu percurso existencial? Qual o seu real contributo? Por outro lado, os recursos naturais estão a esgotar-se, o respeito pela Natureza desapareceu, a pessoa humana tem… outro valor: que outro e que valor? As organizações religiosas não estão a dar resposta.
É urgente sensibilizar os fiéis para a mudança de comportamentos de fé pois há que rejeitar os belos discursos. Há que agir em prol de uma paz estável, o que já não significa apenas na Humanidade inteira, mas abrange também a relação desta com a Natureza. Aliás, verdeiramente, nunca deixou de o ser. Quem não estiver em conformidade com o mundo natural também não está com o seu semelhante, e vice-versa. Nem com Deus.
É chegado o tempo em que as organizações religiosas têm que encarar este mundo como uma das moradas do Pai, desenvolver esforços no sentido de criar um céu aqui e agora, porque amanhã pode ser demasiado tarde. Praticar o bem é sempre uma urgência.
Mas se teimarem, cada uma por seu lado, a impôr-se como verdades absolutas, então elas prolongam o desfazamento e desconforto sociais nos fiéis, e estes, assustados com o diferente porque é mau, agrupam-se, criando espaços/localidades exclusivamente deles, autênticos guetos.
São as micro-sociedades, com leis próprias, escolas e curricula particulares, não raro a-científicos e com preceitos ético-axiológicos perigosos. A consequente desvaloração deste mundo confere aos fiéis a ilusão de que dessa forma têm Deus do seu lado, transformando-a em acto virtuoso.
Ora o mundo é uma irmandade de gente filha do mesmo Deus. A dessocialização cria o cancro do isolamento: a ilusão de que se é privilegiado por pertencer a esta ou àquela congregação, o não-mundo porque este não presta e nós somos bons, os bons, os melhores. A nossa escola é a que melhor prepara para a vida, a mais intelectual, rumo aos campeões da ciência, a mais segura e longe de todos os perigos, não interessando dar à sociedade sugestões para acabar com a insegurança nas escolas públicas, nem traçar objectivos de vida aos jovens, implicando os fiéis numa ressponsabilidade que é de todos.
Mas onde estão, verdadeiramente, as causas de tudo isto? Como é que se chegou a este ponto, de tal forma que gente com mais bases intelectuais tem comportamentos que supostamente já não deveria ter? Como é que um pedreiro se iguala a um juíz? A natureza humana é permeável à subserviência, e esse é que é o problema. A carência afectiva ou um grande problema existencial podem conduzir a qualquer pessoa a actos da maior irracionalidade. No sofrimento somos todos iguais, estamos todos em linha recta para o desespero, logo todos igualmente expostos à manipulação. É tudo uma questão de tempo e de: um rosto simpático que surge quando menos se espera; uma palavra acertiva nuns lábios risonhos; um rosto de olhos brilhantes, um discurso bem elaborado....
Por isso não é difícil às organizações religiosas manobrar o inconsciente colectivo. Aguçar o narcisismo é fácil. Isolar a pessoa da família, desmembrando-a, dos colegas de profissão, fazendo perigar o próprio posto de trabalho e, consequentemente, conduzir à dependência e sujeição; excluir de práticas desportivas e artísticas, de lazer, etc., chegando ao ponto de fazer expulsar do lar os filhos indesejados, maridos/esposas que, por algum motivo, deixaram de pertencer à organização religiosa da família.
A rejeição dos filhos, por exemplo, está a tornar-se cada vez mais comum, remetendo cidadãos equilibrados afectiva, psicológica e socialmente para os insondáveis quão turtuosos caminhos da desilusão, do desprezo familiar, do ateísmo pela falta de humanidade a que a família se votou, em nome de uma organização que, tão vituperiante quão feroz, ensina a excluir tudo o que se lhe oponha. Os fiéis, drasticamente hipnotizados pela promesssa da felicidade no além e no suposto agrado a Deus, sempre as velhas promesssas, excluem de suas casas o bem mais precioso que Deus lhes ofereceu e do qual são os responsáveis por fazer cidadãos correctos e equilibrados, o maior amor das suas vidas, e que passou para segundo plano.
Os filhos passsam ao estuto de representantes do maligno, diabos dentro de casa, infiéis malditos, o que há que excluir definitivamente. E assim vão semeando a deshumanização. Dito de outra forma, para o topo das organizações religiosas, ainda que muitas digam que não é assim, e seria bom que de facto não fosse, a humanidade reduz-se a um bando de infiéis. É pena.
Não basta não usar armas de fogo ou outras. é fundamental enterrá-las, sejam elas de que natureza forem.

(Continua)

Bibliografia consultada:
KARDEC, A., O Livro dos Espíritos, CEPC, Lisboa, 1984, Livro Terceiro, As Leis Morais, cap. II, Lei de Adoração, pp. 275-284.
LE BOM, Gustave, Psicologia das Multidões, Publicações Europa-América, Mem-Martins, s/d.
Sites:
Father George Coyne Interveiw (1/7) Richard Dawking
Faith in the Future: The Promise and Perils of Religion in the 21st Century
Marcelo Gleiser – Ciência e religião: em busca do desconhecido
Richard Dawking:
Fala sobre religião e ateísmo
A força da religião
O que a religião pode fazer com alguém
R.D. e os perigos da Fé e das religiões com suas crenças injustificadas
Deus, Um Delírio, o Vírus da Fé

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

Auto perdoar-se não é apagar os rabiscos do desacerto (Jorge Hessen)

Auto perdoar-se não é apagar os rabiscos do desacerto (Jorge Hessen)

Jorge Hessen
Brasília-DF

A culpa e o alerta da consciência são temas que merecem profundas reflexões . É importante dizer que o “alerta ou conflito da consciência ” ainda não é a instalação da culpa, porém, um convite ao arrependimento diante dos erros. Tal constrangimento consciencial é imprescindível para a reamornização do desalinho psicológico, procedente da culpa.
consciência  é o Divino em nossa realidade existencial; nela estão escritas as Leis do Criador. Por sua vez, a culpa resulta da não auscultação do “alerta da consciência ” , portanto é patológica e gera profundo abalo psicológico autopunitivo. Detalhe: é impossível inexistir o alerta consciencial no psiquismo humano. Podemos fingir não ouvir a “voz da consciência ”, e apesar disso, ela sempre alertará, exceto nos casos extremos de psicopatologias em que o doente mental não sente um mínimo de arrependimento e ou culpa.
O alerta consciencial sinaliza as transgressões à Lei de amor , justiça e caridade. À vista disso, tomamos consciência  e nos arrependemos do erro, buscando repará-lo. Por outro lado, a culpa é um processo patológico em que ficamos cultuando o erro sob o movimento psicológico de autojulgamento, autocondenação e autopunição.
Das diversas características da culpa há aquela advinda da volúpia de “prazer” quando alguém não se divertiu como gostaria de ter (se esbaldado numa “balada”, por exemplo). Após a “farra” esse alguém se sente culpado e se cobra por não ter permanecido mais tempo na festa, por não ter realizado isso e ou aquilo etc. Sob esse estado psicologicamente perturbador surge a culpa como reflexo daquilo que não se fez e almejaria ter feito, resultando o movimento de autopunição.
Todas as recordações negativas paralisam o entusiasmo para as ações no bem, únicas portadoras de esperança para a libertação da culpa. Quando entramos no processo autopunitivo geramos um processo de distanciamento da realidade da vida e do próprio viver. É um grande desafio transformarmos a experiência desafiadora (dor / “sofrimento”) em experiência de aprendizado. Para isso, importa fazermos o BEM no limite das nossas forças, principiando em nós mesmos, permitindo-nos experimentar esse BEM no coração e ao mesmo tempo realizarmos o BEM ao próximo, e assim  nos libertamos totalmente do nódulo culposo.
A Lei de Causa e Efeito é um dos princípios fundamentais preconizados pela Doutrina Espírita para explicar as vicissitudes ligadas à vida humana. Ante a Lei de causalidade a colheita deriva da semeadura, sem qualquer expressão castradora ou fatalista para reparação. O “alerta de consciência ”, por exemplo, bem absorvido, transforma-se em componente responsável. Mas se o ignoramos desmoronamos no desculpismo rechaçamos a responsabilização do erro. Em face disso, o desculpismo é uma postura profundamente irresponsável perante si mesmo.
O negligente (desculpista) pronuncia que “errar é humano”, porém é arriscado raciocinar assim. É um processo equivocado que ultraja a lei de Deus. Em verdade, não precisamos nos culpar (exigência) quando erramos, e muito menos nos desculpar (negligência), porém, carece ouvirmos a voz da consciência  e aprendermos com os erros a fim de repará-los.
Sobre as diferentes peculiaridades da culpa ainda há aquela advinda naqueles trabalhadores que avidamente mergulham nos assistencialismos.  São confrades de consciência pesada que ambicionam consolidar a beneficência, visando, antes, anestesiarem a própria culpa. Na realidade, estão tentando barganhar com Deus, a fim de se livrarem da ansiedade mental. Decerto isso é uma prática espontânea e contraproducente.
Não obstante, no M.E.B. - Movimento Espírita Brasileiro haja farta frente de serviços assistencialistas. O psiquiatra espírita Alírio Cerqueira, coordenador do Projeto Espiritizar da Federação Espirita do Mato Grosso, arrazoa que muitos fazem assistencialismos sem real consciência  da necessidade social dos desprovidos. Em verdade, laboram “caritativamente” sob as algemas da consciência  culposa e arriscam disfarçar para si mesmos o automático exercício de “altruísmo”. Agem subconscientemente quais portadores de ferida muito dolorosa, e em vez de tratá-la para cicatrizar, ficam passando pomada anestésica na ferida (culpa) para abrandar a dor.
Agindo assim (no assistencialismo) a culpa momentaneamente é “escondida”, mas não desaparece, pois, passando o efeito do anestésico a culpa retorna e a pessoa mantém o conflito de consciência . Desse modo, vai ampliando cada vez mais os compromissos “filantrópicos”; vai se sobrecarregando nos pactos “caritativos”; porém, a culpa é conservada. Muitos passam a vida inteira nessa atitude de “FAZEÇÃO DE COISAS” sem qualquer objetivo consciencial. Tais “caridosos” com certeza socorrem TEMPORARIAMENTE os necessitados, todavia, provocam para si mesmos , em alto grau,  o cansaço mental, o estresse e a saturação psicológica e não conseguem se HARMONIZAREM CONSIGO MESMOS.
Na verdade, o objetivo das leis divinas (sediadas na consciência ) é nos proporcionar a pura e eterna felicidade. Em face disso, quando as transgredimos ficamos ansiosos, porque nos afastamos da felicidade, logo, sentimos extrema ansiedade. Em face disso é importante o exercício do auto perdão que obviamente não extinguirá a responsabilidade dos erros praticados, até porque auto perdoar-se não é simplesmente passar uma borracha em cima do desacerto, mas fazer uma avaliação equilibrada do desacerto para repará-lo.
No extremo, há pessoas que alimentam tanta culpa que se sentem indignas de fazer uma prece e ou de fazer o bem. Porém, ajuizemos o seguinte: a prece não é para espíritos puros. Jesus orientou que não são os sadios que necessitam de médicos, mas os doentes. Ora, esperarmos nossa purificação para orar e fazer o bem não faz nenhum sentido, até porque nos aperfeiçoamos gradualmente, orando inicialmente e de maneira especial fazendo bem no limite das nossas forças.


“Espiritualidade na Medicina: o que há de evidências”.





Inúmeros estudos comprovam que crenças e práticas espirituais têm real influência na saúde das pessoas. Para abordar essa questão, o Cremers promove uma nova edição do projeto Cremers Convida com o tema “Espiritualidade na Medicina: o que há de evidências”.
O evento acontece nesta quinta-feira, 05/9/2019. às 19h, na sede do Cremers, Auditório . Av. Princesa Isabel - 921 - Santana - Porto Alegre - RS e conta com a presença dos médicos César Geremia, Anahy Fonseca e Fabiano Nagel como debatedores. Assista ao vivo.
César Geremia, que é vice-presidente da Associação Médico-Espírita do RS (1), esclarece a importância dessa discussão: - Um volume enorme de estudos já mostrou que a crença espiritual, com ou sem vinculação a uma religião estabelecida, é fator promotor de saúde.
A palestra é gratuita e aberta ao público, e será transmitida pela página do Cremers no Facebook.(2)
Imagina se os médicos orassem. (3)
Procedimentos como esses (4, 5, 6) aconteceriam com maior frequência.

Desafiando a incredulidade:


terça-feira, 3 de setembro de 2019

OS PROBLEMAS DE GÉNERO JÁ CHEGARAM ÀS CASAS-DE- BANHO

Margarida Azevedo
(Portugal)



Só para que fique claro, quem escreve estas linhas, sexualmente démodées, apresenta-se como sendo do sexo feminino desde que nasceu, não é produto de proveta porque na segunda metade do século passado tal coisa ainda não existia, era tudo muito naturalzinho; não tem quaisquer problemas com a sua sexualidade perfeitamente definida; é apreciadora do sexo oposto e está profundamente apaixonada por um dos seus exemplares, que por graça de Deus Nosso Senhor tem a felicidade de ser a pessoa com quem vive; que na sua extrema ignorância e desconhecimento de si própria e do mundo fantástico que por aí existe, gostaria de incongruentemente pedir a Deus que a respectiva relação se prolongasse no lado de lá; que sem interrogações e alaridos não lhe passa pela cabeça mudar de sexo, que mais não fosse só para ver como é, e assim, por tal mercê, agradece ao Poderoso tão maravilhosa ignorância; que desde a escola primária às instituições públicas e privadas sempre que precisa de utilizar os sanitários jamais teve, tem ou terá problemas sobre quais utilizar; em suma, alguém que sem lhe causar quaisquer problemas tem perfeitamente claro qual o sítio por onde faz xixi, e por onde saíu a criança que deu à luz há mais de duas décadas, também ela concebida segundo os mais naturais impulsos da Mãe Natureza, o que significa um orgasmo fecundante e visível nove meses mais tarde. Como se vê,tudo muito corriqueiro.
Assim sendo, e perante as mais recentes preocupações acerca da sexualidade dos nossos alunos, desde a pré-primária à universidade, há a dizer o seguinte:

A educação, que está tão bem, professores e alunos, pais e encarregados de educação não podem estar mais satisfeitos, tudo em maré alta, tem agora um gravíssimo problema entre mãos para resolver,  a saber, como já não há masculino nem feminino, coisa de gente ignorante, mas género, que casas-de-banho construir para a tão rica diversidade humana. No alto da mais fecunda tolerância para com tanto género, é caso para perguntar, que linhas irão traçar os arquitectos para tão díspares instalações? Se calhar nem o engenho e a arte de um Miguel Ângelo dariam conta de tamanha presunção arquitectónica, com vista a tão específica democracia.  Até porque os nus dos artistas de todos os tempos podem estar em desconformidade com o género e, assim, a reflexão artística ver-se-á a braços com mais uma complexidade da perspectiva.

Por outro lado, para construir uma escola, quase haverá tantas casas-de-banho quantas as salas pois o género, e a avaliar pelos espíritos mais enlanguescidos, pode tornar-se infinito, uma vez que as mais singulares expressões do humano no seu melhor, ainda que em número reduzido, têm direito à sua identidade, impondo-se um a milhões de pessoas, se é que esse um existe, é claro.

É claro que, qual cereja em cima do bolo, uma democracia que é capaz de resolver o problema dos xixis e dos cocós é um democracia fecunda e próspera, uma vez que resolveu a fundo os problemas da educação. Percebê-lo é garantir um futuro melhor para o país, quiça para a humanidade inteira.

Mas, reflictamos: como é que dois orifícios tão perfeitamente definidos são responsáveis por tão alta responsabilidade? É fácil. Um dia, no exercício das suas profissões, os nossos trabalhadores lembrarão que devem o seu sucesso, ou não, ao modo como foi tratado o seu género. De tão bem assumido, estarão à altura de o saber aplicar sempre que neccessário. Assim, quando descontentes com chefes e colegas, sem complexos, farão cocó e xixi  para eles, tendo a certeza de que o fazem com o seu género perfeitamente erguido, pois foi para isso que estudaram. Por outras palavras, se as urinas e as fezes se tornaram fundamentais para o bom funcionamento dos estabelecimentos de ensino, elas são, consequentemente, decisivas para o ensino-aprendizagem e, consequentemente, para um bom desempenho profissional, o garante de uma boa cidadania. Que mais podemos desejar?

Por isso é que o Ministério da Educação,  os sindicatos de professores, as associações de estudantes e as associações de pais, o Parlamento e a sociedade civil têm um grave problema sanitário entre mãos para resolver. Quem é que quer que uma rapariga, no seu género, vá à casa-de-banho das raparigas se ela não é do género feminino? Ninguém. Vai à dos rapazes, que são de outro género, o que é mais apropriado. Mas isso também não resolve nada, porque pode dar-se o caso de o género não estar em conformidade. Convém, por isso, que os governantes se decidam quanto antes, não vá dar-se o caso de, no meio de tanta confusão, os alunos acabem por fazer as necessidades pelas pernas abaixo, e ninguém quer os futuros cidadãos de calças molhadas, ou pior, ainda por cima sob pena de serem acusados de falta de respeito para com os colegas de outra facção.

E a propósito, já perfeitamente ciente do seu profissionalismo, um aluno de uma universidade de Lisboa, da licenciatura de Serviço Social e, segundo ele, inspirado num deputado alemão, antes de apresentar um trabalho oral, dirige-se à turma nestes termos:

“- Caros hetero-sexuais, caros homo-sexuais, prezadas lésbicas e bi-sexuais, caros pan-sexuais, caros bi-curiosos, caros poli-sexuais, prezados mono-sexuais, prezados alo-sexuais, caros andro-sexuais, caros gino-sexuais, caros questiono-sexuais, caros assexuais, prezados demi-sexuais, caros cinzento-assexuais, caros perioro-sexuais, caros benditos variocêntricos, prezados hetero-normativos, caros erra-sexuais, caros dois espíritos, caros terceiro género, caros não-género, caros tétris-género, caros cis-género, caros cis-het, caros poli-amorosos…”

Vendo que o aluno nunca mais acabava, a professora reclama:

“Já chega. Agradecia que passasse de imediato à exposição do trabalho porque está a perder demasiado tempo ao dirigir-se aos seus colegas de forma tão minuciosa.”

O aluno, porém, adverte:

“Não, não. Eu não quero ser acusado de discriminação de género. “e continua:

“Prezados mono-amorosos, prezados trans-sexuais, caros trans-espécies, caros trans-géneros, caros queer, caros ally, prezados género-fluídos, caros binários, caros não-binários, caros agéneros ou géneros vazios, prezados bigéneros, prezados poligéneros, caros neutróis, caros inter-géneros, caros aporagéneros, caros mavrique, prezados novigéneros, caros trans-femininos, caros trans-masculinos, caros femme, caros indecisos…”

Não estão cá todos porque são cerca de sessenta. Cabe ao/à Sr./a Leitor/a, como trabalho para casa, e é mera sugestão de quem escreve estas linhas, a pesquisa do que tudo isto significa, em noite de trovoada, substituindo o peçonhento livro de mesa-de-cabeceira.

E asssim se vão desenvolvendo os mecanismos da criação de problemas, inventando desconfortos, ocupando as mentes com pequenos grandes nadas para que  outros vão garantindo a sua cadeira no poder. Criar um problema é grande habilidade. Maior ainda é fazer parar tudo em redor do mesmo, isso só para os ditadores.

Acoplado ao problema segue-se a necessidade de o resolver e esta, movida pela ilusão da expectativa de garantir uma sociedade mais justa, e a felicidade a cada um de per si, move-se como uma marioneta sem se dar conta. Criar um problema é um bom mecanismo para atingir metas: cair governos, subir outros ao poder na condução dos cidadãos a que fins?




quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Como vai você?

Como vai você?

Por Jane Maiolo (*)
Descanse no Senhor e aguarde por ele com paciência* (Salmos 37:7)
Setembro se aproxima e com ele a expectativa de a primavera reflorir os caminhos.
Setembro também é o mês que acontece a campanha internacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio, visto ser o suicídio considerado um problema de saúde pública. Uma pandemia.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de óbitos autoprovocados é de 804 mil por ano, são mortes prematuras que poderiam ser evitadas porque é possível preveni-las e não faltam ferramentas para isso. Contudo, as taxas continuam avançando, especialmente em países pobres e em desenvolvimento.
Não resta dúvida que a ideação suicida está intimamente ligada a uma doença de ordem mental, e enquanto não se extirpar o preconceito contra a doença mental, vamos continuar assistindo o avanço dos números.
Em setembro de 2015 iniciava-se o atendimento pelo número 188, primeiro número sem custo de ligação para prevenção do suicídio. Após a assinatura do termo de cooperação técnica entre o Centro de Valorização da Vida e o Ministério da Saúde, a Anatel publicou o ato de autorização nº 9.623, estabelecendo que a partir de 30 de setembro de 2017 o funcionamento do número 188 abrangeria boa parte do todo território nacional. A partir de 30 de junho de 2018 os 26 estados do Brasil mais o Distrito Federal já são contemplados com esse instrumento.
As ligações para o CVV através do número 188 são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.
Encontrar alguém que escute nossas angústias tem sido uma busca cada vez mais difícil, pois todos têm também suas próprias dores. Vivemos um momento delicado na sociedade contemporânea, pois poucos são os que “tem ouvidos de ouvir” e quase inexistentes aqueles que são portadores de lucidez para escutar e aconselhar.
Setembro se aproxima e como vai você?
Encontrar palavras para nomear as lesões emocionais é uma boa maneira de verbalizar a dor e desatar as amarras do sofrimento. O maior desejo do ser humano é ser cuidado e o silêncio em torno das tristezas só agrava a situação. É preciso continuar o caminho, apesar dos insucessos e frustrações, pois a vida não sabe andar pra trás, e como bons caminheiros façamos a nossa caminhada, pois é caminhando que se faz o caminho!
Se a ideação suicida pairar na mente lembre-se que a morte, como diria Millôr Fernandes, “...é uma coisa que se deve deixar sempre para depois.
Fale de sua dor, procure um amigo, um núcleo de atendimento, uma instituição religiosa, enfim permita a chegada da Primavera em você e ouça o conselho: “Descanse no Senhor e aguarde por ele com paciência”.
                                                                                      
(*) É professora de Ensino Fundamental, formada em Letras e pós-graduada em Psicopedagogia. Formanda em Psicanálise pelo Instituto Brasileiro de Psicanálise Contemporânea. Colaboradora da Sociedade Espírita Allan Kardec de Jales. Idealizadora do simpósio anual Valorização à vida, Pesquisadora do Evangelho de Jesus. Colaboradora da Agenda Brasil Espírita- Jornal O Rebate /Macaé /RJ – Jornal Folha da Região de Araçatuba/SP –Blog do Bruno Tavares –Recife/PE - colaboradora do site www.kardecriopreto.com.br- Revista Verdade e Luz de Portugal, Revista Tribuna Espírita de João Pessoa,  Apresentadora do Programa Sementes do Evangelho da Rede Amigo Espírita. Janemaiolo@bol.com.br

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

O conhecimento provoca o desejo da ignorância

Vladimir Alexei


Vladimir Alexei
Belo Horizonte das Minas Gerais,
14 de agosto de 2019.

O título desta pensata é baseado em uma frase da obra “Santo Agostinho” de Teixeira Pascoaes (Assírio & Alvim, Lisboa, 1995). Algumas obras devem ser “degustadas” com vagar. Deixar fluir a imaginação e a mente para cada canto que os textos nos remeterem.
Esse “vagar” não pode ser o “silêncio eterno dos espaços infinitos” que Blaise Pascal (1623 – 1662) dizia, e que, por vezes, são provocados quando se vive experiências do cotidiano materialista, que exige que sejamos o que não somos e ostentemos o que não temos, sem oferecer elementos novos ao aprendizado.
Por isso, mais do que muitas palavras, a busca pelas palavras corretas, pela síntese, ronda o imaginário daqueles que, de alguma forma, se aventuram a escrever. Escrever com proveito, extraindo das ideias originais, outras ideias capazes de alçar a compreensões mais elevadas, é digno da história de Santo Agostinho, que, segundo Pascoaes, desceu aos pântanos da paranoia, para alcançar a metanoia, mudança essencial do ser.
Enfrentar paranoias, ou “meus demônios”, como fez o educador Edgar Morin (1921 - ), exige compreensão de que, na atualidade, a vida convida a fazer escolhas mais difíceis. “Nem tudo que reluz é ouro...” É preciso vigilância. Morin conta que desde a sua adolescência possuía a incômoda experiência de conversar com interlocutores que pensavam, naturalmente, que ele compartilhava suas ideias e sentimentos, algo que só foi vencido mais tarde com a publicação de uma obra.
Bertrand Russell (1872 – 1970), disse algo parecido, com outras palavras: “para muita gente, antes morrer que pensar”. A ignorância é um convite a permanecer estacionado em pensamentos e comportamentos de outrora. “A vida toda fui assim”! Outros mais ousados dizem: “todo mundo faz assim...”!
Sem perceber, aprisiona-se em “teias” complexas tecidas ao longo do tempo – por meio das reencarnações –, a quatro ou mais mãos, junto com pessoas que acreditam que ainda se é como antes. Romper essa teia exige esforço e o esforço provoca medo. O medo, segundo Zygmunt Bauman (1925 – 2017), provoca três tipos de perigos: ameaças ao corpo e a propriedade; ameaças de ordem social, envolvendo o sustento da família, emprego, sobrevivência no caso de velhice ou invalidez; e ameaças de lugar da pessoa no mundo.
Para não sentir medo, permanece-se com as mesmas ideias. A isso, o senso comum atribui o nome de “zona de conforto”, estado em que se sente aconchegado em um ambiente nocivo à saúde física, mental e espiritual. E por que o sentimento de aconchego? Porque os “hábitos” trouxeram até aqui. Porque assim se constrói pensamentos e comportamentos. Romper com os laços firmados, exige desfazer teias complexas que podem ter origem em outras vidas.
Saint-Exupéry (1900 – 1944) em seu “voo noturno”, conseguiu compreender a chave destes “laços”, em uma época atribulada, de profundas mudanças (guerra): o “homem é só um laço de relações, apenas as relações contam para o homem”.
Com o passar do tempo, as demandas individuais e sociais se tornaram mais sofisticadas e a sensação de ausência de controle passou a insuflar o medo. As respostas não são mais tão simples e a necessidade em se obter respostas mais “rápidas” parece um fenômeno pouco analisado. É o mesmo que passar uma vida inteira abusando da alimentação, com sobrepeso por mais de dez anos, e acreditar que em seis meses de dieta ou academia tudo voltará ao normal. “Natura non facit saltum”!
Se os laços das relações são importantes, quais os laços que nos unem ao sentido profundo, ou filosófico, da Vida? Vive-se para ganhar experiência e compreender, com autonomia e liberdade, o que nos move, as potências superiores da alma. Isso explica os obstáculos enfrentados. Tornam-se sofridos, quando tentamos curvar as leis naturais aos desejos pessoais, preservando a ignorância que ainda exerce força contrária ao progresso do ser. Entretanto, é possível o conhecimento fazer morada na mente e no coração de cada um, se voltarmos a degustar os pensamentos que nos impulsionam ao Mais Alto.
E é em busca desse pensamento elevado que trazemos Allan Kardec (1804 – 1869). Kardec deixa claro que a Doutrina Espírita é para as pessoas de boa-fé. Dentre as diversas análises possíveis, compreende-se que a boa-fé, nesse caso, é o espírito destituído de verdades absolutas, calcadas em dogmas, afastados da religiosidade, para conseguir sentir os ensinamentos do Espiritismo.
O Espiritismo está acima, enquanto filosofia espiritualista, das religiões tradicionais, porque será a religião do futuro, capaz de abrigar pensamentos diferentes, entendimentos diferentes, crenças diferentes, em busca dos mesmos valores, aqueles que alimentarão o espírito em seu progresso. Assim o conhecimento que rompe com as amarras da ignorância que nos mantem ainda presos a convenções religiosas do passado, que são separatistas, dogmáticas, arbitrárias, materialistas, ocupará espaço nas mentes e corações, capazes de vencer o medo de pensar para o Alto e para frente.
Novos tempos, novas crenças, novos entendimentos. Cogito ergo sum.

sábado, 10 de agosto de 2019

OS ESPÍRITOS E A NATUREZA


Margarida Azevedo


A imposição do Homem à Nautreza é considerada, intelectualmente, uma mais-valia para a humanidade. O Homem alterou o curso natural dos rios, construíu barragens e represas, transportou dos seus habitats animais e plantas para lugares que a Natureza consideraria inóspitos, cultivou massivamente a terra, foi aumentando a produção de plantas, e de animais que domesticou, alterou a constituição orgânica de uma pluralidade de seres, acelerou-lhes o processo de crescimento; construíu cidades com lagos e jardins artificiais, mudou tudo e tudo lhe pareceu ser sempre permitido, baseado no grande princípio de que o Homem é o rei da Criação e todas as outras espécies têm que lhe ser submissas.

E assim, coroado de vaidade, lá foi reinando, espelhando na Natureza não propriamente o seu desejo de bem , mas a sua ambição com o nome de bem. É certo que, nalgumas coisas, a vida lhe foi sendo facilitda, e é para isso que a inteligência serve: escavar um poço para ter água junto de casa e precaver-se contra as intempéries, criar redes de saneamento, plantar e criar silos para armazenar para o inverno rigoroso, ou criar animais para o sustento do lar é meritório. Porém, mexer com as forças intrínsecas da Natureza, alterar os seus propósitos a ponto de até nem o clima escapar, estamos a falar de outra coisa bem diferente.

Face aos resultados sobejamente conhecidos e à vista de toda a gente, isto leva-nos a pensar se não será o humano um erro da Criação ou o ser mais estúpido à face da terra, pois é difícil aceitar que destrua aquilo de que precisa para a sua sobrevivência, a começar pelo ar que respira, a água que bebe, expondo-se à fome, uma natural consequência da sua leviandade. Por outro lado, é difícil aceitar que a sua evolução passe pelo prazer de destruir, em nome do lucro fácil, a ponto de se pensar que é a própria humanidade que neste momento está em perigo de continuar a existir. Obviamente não é este o sentido de destruição natural, em que a Natureza tudo transforma num renascer constante e eterno. Neste desnorteio, até esta eternidade natural é posta em causa, pois até o ciclo das estações do ano foi alterado. As plantas florescem quando deviam dar fruto, ou morrem secas na aridez dos terrenos cheios de rachas, os animais alteram o ciclo de reprodução alteram o seu habitat e mudam-se para outras zonas à procura de água e de alimento.

Pergunta-se: Será que a evolução humana teria este propósito? Mas o que é a evolução? Se é isto, dispensa-se, pois se a ignorância e o atraso civilizacional é respeitar a Vida e o Planeta, então venham eles.

Como é possível associar o processo evolutivo da humanidade ao fim trágico do mundo? Que evolução é esta, qual a sua verdadeira fonte, qual o seu verdadeiro rosto? A que normas e a que regras realmente obedece? Quem é esta humanidade? Estará o humano condenado a um fim trágico? Por outras palavras, estará a viver a dimensão do trágico no seu melhor, ao mais alto nível? Para onde nos conduz esta tão inflamada falta de amor? Estará o humano tão farto de si próprio que já não se suporta? Que é feito do Homem? Que tem ele contra Vida, porque a rejeita nesta destruição sem precedentes? Que forças são essas que o movem? Para onde pensa que vai? O que é que ele quer? Que e qual o horizonte tão ávido de…nada?!

Caberá à Natureza impôr-se como o único e verdadeiro universal, no seu sentido mais lato, mais impenetrável às nossas fracas mentes, um universal cósmico numa hiper-consciência, toda divino, e que justa e brutalmente se está a revoltar contra a humanidade? Que seres compõem essa mesma natureza, qual a sua verdadeira identidade que tanta força têm para se imporem aos humanos, que mais parece que vieram de um hospício do que de um cosmos perfeito?

Os animais dão-nos grandes lições de amor e dedicação à Vida. No cumprimento dos seus deveres naturais para com a Natureza, ensinam aos humanos que esta é para se respeitar.

E a fé? Qual é o seu papel? Será a fé, também ela, uma tragédia? Estamos a viver a falência das nossas convicções, dos nossos valores, a desconstrução dos alicerces que pensávamos profundos. A força converteu-se em fragilidade e está cada vez mais a vir à superfície a necessidade de uma humanidade convertida a Deus, bem como ao entendimento com os Espiritos que comandam o planeta. A fé tem, urgentemente, que mudar, tudo tem que mudar.

Mas, como, se não se conhece outra coisa que não a dor, a irracionalidade, a loucura? Ou o pesadelo do sofrimento como o inevitável, a sombra de uma perseguição sem tréguas?! Quem sabe, talvez esteja aí a solução para a tragédia: há outro caminho, tem que haver outro caminho que não este banho de sofrimento. É que não se trata de um sofrer penitencial, catarxico ou reparador. Trata-se de criar o desconforto sádico, a destruição gratuita, gerar e premiar comportamenos ao arrepio da ordem natural.

Nesta impotência vocabular e conceptual, sentimos a panóplia de palavras sem sentido a povoarem as nossas cabeças num painel de incongruências, de fantasias, de mitos e de filosofias vãs e de fés egoístas. O que fomos jamais voltaremos a ser. Perdemo-nos. Impotentes perante a realidade dura, temos que aceitar que, de facto, a destruição é o que melhor nos caracteriza.

Ah, mas é claro, aqui entra a fé no Deus todo poderoso, tão mágica, tão colorida. De facto, a fé, nos seus insondáveis labirintos, acaba por ser também ela uma vítima. A fé também destrói pois, qual cata-vento, tem acompanhado a falta de amor orientando-se segundo e conforme os interessses egoístas. Acreditar em Deus, Pai todo poderoso e amigo de todos os seus filhos é uma fé completamente diferente da de acreditar num deus mágico que vai fazer ressuscitar das cinzas os rios secos que nem palha, os oceanos cheios de plástico, os animais que já desapareceram e os que estão em vias de desaparecer; um deus que vai impôr-se à falta de educação ambiental ou aos genocídeos de povos que tão simplesmente querem viver na sua natureza.

Esse deus que vai enviar Espíritos de outras galáxias, imagine-se, que estão a preparar um corpo perispiritual para entrar na atmosfera terrestre, é o grito da mais alta ignorância espiritual, da falta de fé, da maior fascinação que se possa imaginar. É como sanear as Entidades que tão dedicadamente vêm a este planeta com o propósito de prover aos desígnios de Deus; é como se conheccessem tudo o que está à nossa volta, todas as Entidades, e lhes disssessem, desecucadamente, “já não precisamos de vocês porque vocês falharam. Que tristeza.

Falanges enormes de Espíritos presidem aos fenómenos da Natureza. Seres que cumprem a nobre missão do equilíbrio de todas as coisas, em que tudo está em perfeita harmonia com tudo. São miríades que fazem surgir as tempestades, o raio, dirigem as marés, orientam os seres para o cumprimento dos seus propósitos, provendo ao equilíbrio do planeta bem como do seu papel no cosmos.

Isto significa que amar a Natureza é amar quem preside aos seus desígnios sob ordens de uma Vontade soberana. Tudo tem Deus. Aquilo a que chamamos a natureza de todas as coisas mais não é que a manifestação da força divina que a tudo preside, no encadeamneto de géneros e espécies, desde o átomo ao Espírito mais brilhante.

Devemos à Mãe Natureza, naqueles que a dirigem, a nossa vida. Vida essa que não está isolada, mas que depende de uma infinidade de outras vidas para continuar a existir. Devemos-lhe o ar que respiramos, os alimentos que comemos, a terra que pisamos; devemos-lhe as famílias que construímos, os nossos filhos, um bem preciosíssimo; as referências identitárias responsáveis pelos nossos equilíbrios mentais e afectivos. Para esses Espíritos devem ir sempre as nossas orações de acção de graças, um muito obrigado clamoroso.

Somos o que respiramos, energia vital que trespassa o mais íntimo do nosso ser; somos o que comemos, aquilo em que acreditamos, com que sonhamos. É chegada a hora de voltar às forças da Natureza, primárias, e recomeçar tudo de novo e repensar a História Natural, voltar aos Espíritos que presidem às forças do planeta, só que desta vez sem coroas de falsas glórias, sem reinados ridículos, sem superioridades de qualquer ordem. O Homem tem que aprender que está na Vida para obedecer, não para mandar no que está acima de si e que não compreende; há que perceber que são imensos os mistérios que nos envolvem. Um deles é o de saber como é que, apesar de tudo, a vida continua. Grande é a força da Vida e magníficos são os seus mistérios e magníficos os Espíritos que a dirigem.

Espíritos da Natureza, por favor, perdoem-nos porque, efectivamente, não sabemos o que fazemos.





Bibliografia consultada:

KARDEC.,A., O Livros dos Espíritos, CEPC, Lisboa, 1984, Livro Segundo, Mundo Espírita ou dos Espíritos, cap. IX, Intervenção dos Espíritos no Mundo Corpóreo, IX, Acção dos Espíritos nos Fenómenos da Natureza, pp.237-239.