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terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O BEM DE UM BOM NEGÓCIO


LUCIANO DOS ANJOS

Rio, 6.2.2012

Na análise do eclético panorama dos negócios religiosos, critiquei, em 25.1.11 (Projeto ou projétil? Pompom ou pom-pom?) e, depois, em 9.2.11 (Ainda o cartão de (des)crédito espírita), as démarches para lançamento do cartão de crédito OBEM, destinado, quase que com exclusividade, ao público espírita de bom cadastro. Aconteceu. E, com o acontecimento, assistimos a mais uma ulceração dolorosa da pureza doutrinária. Não é dito mais, como antes, que está associado ao missionário Bezerra de Menezes (pudera! essa estava além da normalidade neurológica), mas o marketing é melífluo e joga no drible da melhor técnica de vendas, mirando o sentimento nobre dos espíritas. A iniciativa - entenda-se - não visa apenas à caridade; é, também, como qualquer negócio, para os idealizadores ganharem dinheiro, muito dinheiro.

O assunto foi ventilado no Conselho Federativo Nacional, na assembléia dos dias 11,12 e 13 de novembro de 20011, e em seguida foi noticiado no órgão oficial; mas, ao contrário do que se poderia esperar, não foi explicado para os leitores, com detalhes, o que é esse OBEM e muito menos as reações eventualmente acontecidas no plenário daquele Conselho. Afinal, a imprensa existe para informar ao público espírita o que passa no movimento, cujos canais de repercussão são as federadas e o órgão federativo. Preferiu-se, como sempre, não dizer nada, escondendo-se dos mais interessados (o público, o leitor, o espírita) o que foi discutido na ocasião. O resumo dos trabalhos apenas registrou sete míseras linhas de uma coluna estreita e sintetizou que houve “intenso diálogo a respeito”. Ora, seria muito justo e mais correto que todos soubessem o que de fato aconteceu nessa reunião, que intensos diálogos foram esses, quem apoiou e quem repudiou a ideia. No entanto, mais uma vez, diante de questões gravíssimas como essa, preferiu-se o mutismo monacal. Num cenário nada asséptico, ninguém quer contrariar ninguém e muito menos dar opinião. Os espíritas, como num regime de censura, não têm que saber o que acontece no movimento, ainda que façam parte dele. Imagine-se, em contrapartida bem mais asséptica, se Allan Kardec também optasse por esse tipo de comportamento. E se Jesus também não devesse dizer claramente quem eram os fariseus, os saduceus, os príncipes dos sacerdotes, os vendilhões do Templo.

A estratégia mercantilista dos descompromissados com o preceituário kardecista ainda não esgotou sua capacidade de surpreender. O marketing de lançamento do cartão começou no melhor padrão profissional e acrescenta um dado a mais no inflacionado balanço da violência consciencial. A peça publicitária carrega no azul celestial e abre espaço para linda e sorridente garota-propaganda, num convite direto e indireto à adesão à felicidade e à garantia do passaporte para a colônia Nosso Lar; ou alguma outra, mais acima. Na confecção ilustrativa do dinheiro de plástico, temos o nome do portador, homônimo do apóstolo Marcos, e rebatizado com o sobrenome “dos Santos”, em flagrante santimônia comercial e invejável saúde mercantilista. O texto joga com o verbo fazer na determinação dobrada de que se faça o cartão e se faça o bem (como se uma coisa não pudesse ser feita sem a outra) e sugere que essa é a oportunidade que antes ninguém nunca teve de fazer esse bem. No arremate, à direita, uma imagem espiritualizada que mais se assemelha a Jesus de braços para o alto, numa exortação salvífica para despertar ou sacudir as emoções cristãs do portador. Parabéns ao criador da peça. (Na montagem que fiz abaixo usei a capa do livro O Cristo de Deus, de Manuel Quintão, edição FEB.)

Reafirmo o que já expus no ano passado em textos mais amplos e mais argumentados. Nada tenho contra o capitalista espírita, católico, protestante ou materialista que queira e lance um cartão de crédito, oferecendo seus lucros em parte ou totalmente para qualquer instituição beneficente, religiosa ou não. Não é ilegal, não é imoral, não é condenável. Mas, apelar, direta ou indiretamente, para o sentimento religioso das pessoas é pura chantagem espiritual. Esse tipo de apelo só se justificaria se TODO o valor arrecadado fosse destinado à caridade, excetuadas, em certos casos, é claro, as despesas administrativas. Lucrar com apelação religiosa não vale. É exploração. Vergonha para o espiritismo. E isso nada tem a ver com desonestidade pura e simples. Não lanço esse qualificativo a nenhum dos promotores desse OBEM, pois eu estaria desconsiderando erradamente a presunção de honradez das pessoas. Minhas admoestações - pautadas na doutrina - não estão capituladas na Lei Penal ou Civil; mas exclusivamente na Lei de Deus.

Vejamos daqui para frente quem ainda tem, no movimento espírita (com simuladas maiúsculas), coragem e autoridade para censurar a Igreja Universal do Reino de Deus e a venda das indulgências da Apostólica Romana. Entre os que mantêm sua lucidez kardecista, resta a memória a contemplar com nostálgica reverência os idos de Bezerra de Menezes e tantos mais de igual grandeza.





6 Comentários:

  • Alguns líderes "intocáveis" nos chamam puritanos quando denunciamos esse vil mercantilismo espírita. É po isso que escrevemos sempre sobre os Vendilhões Espíritas.
    Vide links:
    http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2011/05/puritanos-ou-vendilhoes-eis-grave.html

    http://jorgehessenestudandoespiritismo.blogspot.com/2011/05/puritanismo-ou-coerencia-doutrinaria.html

    Por Blogger JLH, às 9 de fevereiro de 2012 às 09:47  

  • Não meu caro Jorge, não é ser puritano e sim ser ESPIRITA Sério como afirma Kardec. Mantenha sua postura ética e tenha certeza que ainda temos muitos ESPIRITAS lúcidos atuando e fazendo um MOVIMENTO ESPÍRITA CONFORME KARDEC FEZ.

    Um abraço

    João Afonso

    Por Blogger Blog do Afonso Filho, às 9 de fevereiro de 2012 às 18:02  

  • Na mesma linha, na busca de aumentar a arrecadação para fazer mais o bem, se propaga a profissionalização da atividade assistencial, como em :
    http://www.caminhosluz.com.br/detalhe.asp?txt=2231
    Sobre o cartão, realmente, é um “Case” que merece uma longa reflexão de nós espíritas no que tange aos limites e implicações no financiamento de nossas atividades e sobre a crescente importação de mecanismos eficientes, mas que ignoram a relação dos fins com os meios, especialmente na questão da assistência, da arte e da divulgação doutrinária.

    Sobre essas questões em geral, recomendo o filme “Quanto vale ou é por quilo” (http://pt.wikipedia.org/wiki/Quanto_Vale_ou_%C3%89_por_Quilo%3F), que traz profundas considerações na questão dos trabalhos assistenciais, ainda que se trate de um filme laico.

    Por Blogger MBraga, às 10 de fevereiro de 2012 às 08:11  

  • Estimado Jorge,

    Novamente o impulso em prol da assistencia material que acaba por sufocar aspectos fundamentais.

    E nós, mais uma vez repetimos:"os fins não justificam os meios"...

    Por Blogger Claudia Gelernter, às 12 de fevereiro de 2012 às 14:07  

  • Meus queridos, gostaria de saber se é possível encontrar algum documento d FEB vinculando-a à esse fato.
    obrigado

    Por Blogger Unknown, às 12 de fevereiro de 2012 às 17:51  

  • Caros amigos, espero que não emitam opinião sobre uma iniciativa que não conhecem, antes de comentar qualquer coisa entrem em http://www.youtube.com/watch?v=Ku9IBzNWxME&feature=related ; http://www.clubedearte.org.br/clubedearte/obem.htm e http://www.youtube.com/watch?v=mpjkj7N8ols , vejam, leiam e pensem bem.

    Eu fui pessoalmente a Capemisa Social, conversar com o Prof. Cesar Reis sobre o cartão “O BEM”.

    Ele está disposto a fazer apresentações para mostrar o que é e como funciona, assisti a apresentação e não tem nada do que estão falando. Ele já apresentou na FEB, nas Federativas e muitos outros lugares, já tem apoio de muitas Federativas e Instituições.

    A ideia é boa, porém algumas pessoas estão confundindo as coisas, todo os recursos serão aplicados em atividades sociais e na divulgação da Doutrina, condenar as iniciativas é levar tudo para o lado ruim.

    É certo que toda nova iniciativa gera polêmica, mas não podemos condenar nada sem antes refletir bem.

    Vamos com calma, quem não é Espirita não pode comentar iniciativas como esta, não tem nada de errado, os recursos são para bons fins, a visão empreendedora do Prof. César Reis é boa, mas algumas pessoas não entendem, ele está bem intencionado.

    A mídia condenou o Chico, condena nós Espiritas a todo momento e muitas outras coisas, vamos com cautela. Não vamos nos autodestruir, a iniciativa é construtiva.

    Ninguém será obrigado a nada, e não há qualquer dano ao movimento, ao contrário, a intenção dele é ajudar o movimento, aos artistas espiritas, as federativas e as instituições de caridade, ninguém faz nada sem dinheiro, estamos na vida material, ele apenas criou um meio de arrecadar fundos para as causas espiritas, sem ter que ficar pedindo, ao invés de você trocar seus bônus do cartão por viagens ou milhas, ou prêmios, estes serão para as causas espiritas, o proprietário do cartão não vai pagar nada a mais.

    O cartão é uma ferramenta para “o bem”, todos nós espiritas temos cartão de crédito, compramos, pagamos, coisa normal do mundo de hoje, nada muda, apenas parte da taxa que as empresas pagam para as operadoras do cartão irá para um fundo social espirita, nada mais.

    O cartão tem a anuidade grátis no primeiro ano e as taxas são as menores do mercado, o Banco que intermedia é cooperativo, tem função social.

    Nosso amigo Professor César Reis pensou em tudo e tomou todas as precauções Espiritas, não vamos julgar, vamos apenas fazer nossa parte.

    A proposta é que os espiritas façam o cartão “O BEM” e direcionem os recursos que já pagam hoje para as instituições financeiras para as causas espiritas, nada mais. Ninguém será obrigado a nada, faz quem quer.

    Vamos ver as coisas com bons olhos e elevar os pensamentos, vamos fazer a nossa parte e contribuir para o movimento crescer.

    Abraços a todos.

    Jean Samel Rocha

    Por Blogger Unknown, às 19 de abril de 2012 às 16:51  

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