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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O COMUNISMO É ATEU?


ASTOLFO O. DE OLIVEIRA FILHO
aoofilho@oconsolador.com.br
Londrina, Paraná (Brasil)

Um leitor de nossa revista pergunta-nos: O comunismo é ateu?
Antes de responder a semelhante questão, lembremos que se entende por comunismo a doutrina ou sistema social que preconiza a comunidade de bens e a supressão da propriedade privada dos meios de produção: terras, minas, fábricas, etc.
O comunismo seria, segundo alguns, a etapa final de um sistema que tem por fim a igualdade social e a passagem do poder político e econômico para as mãos das pessoas que compõem a comunidade.
A palavra comunismo tem origem no latim comunis, que significa comum.
Como doutrina ou sistema social, é ele muito anterior ao advento do marxismo, fato que se deu a partir de meados do século XIX.
Nos primeiros tempos buscou-se dar-lhe uma fundamentação teórica nas teorias do estado dos sofistas gregos e na obra República de Platão, ideia que teve como adversários pensadores como Aristóteles.
Depois disso, o comunismo continuou a se fazer sentir em muitos movimentos sectários, como foi o caso de Thomas Münzer e dos anabatistas, em seitas puritanas da América do Norte nos séculos XVII e XVIII, com a suposição de que o "amor ao próximo" resultaria de uma regulamentação pública, o que seria contrário à proposta cristã.
O ressurgimento das ideias comunistas ou socialistas (termos utilizados nos primeiros momentos de forma indistinta como sinônimos), no princípio do século XIX, esteve relacionado com a Revolução Industrial. Os abusos do capitalismo e do liberalismo econômico, cometidos pela transformação da economia e da indústria, provocaram um movimento crítico que, em muitos casos, fez com que fossem lembradas as ideias comunistas.
Não havia, porém, e efetivamente não há relação entre “comunismo” e “ateísmo”. Uma pessoa pode ser adepto de uma religião qualquer, inclusive a cristã, e ter em seu ideário político ou social ideias comunistas.
Se determinado adepto do comunismo é ateu, ele o é por outras razões, e não por cultivar os ideais comunistas. Esse pensamento está bem claro na mensagem intitulada “Pergunta e Resposta”, que Emmanuel escreveu pelas mãos de Chico Xavier e a FEB inseriu no livro Coletânea do Além.
Ei-la, na íntegra: 
"P - Como devemos encarar o comunismo cristão?
"R - O comunismo em suas expressões de democracia cristã está ainda longe de ser integralmente compreendido como orientador de vossas forças político-administrativas.
Somente serão entendidas as suas concepções adiantadas, à luz dos exemplos do Cristo, quando reconhecerdes que o Evangelho não quer transformar os ricos em pobres e sim converter os indigentes em ricos do mundo, fazendo desabrochar em cada indivíduo a concepção dos seus deveres sagrados, em face dos problemas grandiosos da vida.
Comunismo ou socialismo cristão não pode ser a anarquia e a degradação que observais algumas vezes em seu nome, significando, acima de tudo, a elevação de todos, dentro da harmonia soberana e perfeita.
Quando o homem praticar a fraternidade, não como obrigação imposta pelas justas conveniências, mas como lei espontânea e divina do seu coração, reconhecendo-se apenas como usufrutuário do mundo em que vive, convertendo as bênçãos da natureza, que são as bênçãos de Deus, em pão para a boca e luz para o espírito, as forças políticas que dirigem os povos nortear-se-ão sem guerras e sem ambições, obedecendo aos códigos de solidariedade comum.
Semelhante estado de coisas, porém, nunca será imposto por armas ou decretos humanos. Representará o amadurecimento da consciência coletiva na compreensão dos legítimos deveres da fraternidade e somente surgirá, no mundo, por efeito do conhecimento e da educação de cada indivíduo." (Coletânea do Além, obra mediúnica psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.)
Léon Denis, em seu livro Socialismo e Espiritismo, tradução de Wallace Leal V. Rodrigues, publicada pela Casa Editora O Clarim, também se reportou ao tema, lembrando as condições necessárias para que tais ideais se concretizem no mundo em que vivemos.
Eis o que o grande pensador e escritor francês escreveu: 
"Longe de nós criticar os comunistas de convicção sincera que desejariam estabelecer na Terra o regime social que reina, provavelmente, nos mundos superiores, onde todos trabalham para cada um e cada um por todos, no espírito de devotamento absoluto a uma causa comum. Esse regime exige, no entanto, qualidades morais e sentimento de altruísmo que não existe senão em condições excepcionais em nosso mundo egoísta e atrasado. É fácil demonstrar que as aspirações generosas do comunismo são ainda prematuras e inaplicáveis na sociedade atual. Seria preciso séculos de cultura moral e de educação popular para levar o espírito humano ao estado de perfeição necessário a uma tal ordem de coisas. Eis por que a posse individual dos frutos do trabalho permanecerá sendo por muito tempo o estimulante indispensável, o meio de emulação que assegura pôr em ação o equilíbrio das forças sociais." (Socialismo e Espiritismo, pág. 87.) 
No momento, o comunismo não é realizável senão no seio de grupos restritos, cuidadosamente recrutados, nos quais todos os membros sejam animados por uma fé intensa e espírito de sacrifício. Não se poderia sonhar com estender-se a sua aplicação a nações inteiras, a milhões de homens de caracteres e temperamentos tão diferentes. E não será através do crime e pelo sangue que se poderá fundar um regime de fraternidade, solidariedade e amor. As instituições não são realmente vivas e fecundas senão quando os homens, por uma vida interior verdadeira, sabem animá-la. Um comunismo sem ideal elevado não poderia ser construído sobre uma areia perpetuamente movediça." (Obra citada, págs. 87 e 88.) 
Os revolucionários violentos, que pretendem fundar a ordem social no sangue e sobre ruínas, não passam de cegos e desgarrados. A harmonia social não pode se estabelecer senão sobre a justiça, a bondade, a solidariedade. O verdadeiro comunismo exige a doação de si mesmo, um sentimento de altruísmo que leve até ao sacrifício, e não foi praticado até aqui senão em agrupamentos religiosos, que se inspiravam em um ideal superior e que, em seus arrebatamentos de fé e de amor, chegavam à renúncia pessoal em proveito da coletividade. Acrescentemos ainda que essa renúncia implicava o esquecimento da família. Ora, a família é a base essencial, o pivô de toda sociedade humana. Um sistema assim não poderia, pois, generalizar-se."(Obra citada, págs. 106 e 107.) 
Em face das explicações acima, cremos que esteja perfeitamente respondida a pergunta feita pelo leitor.


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Extraído do http://www.oconsolador.com.br - Ano 8 - N° 386 - 26 de Outubro de 2014.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ONDE O CONSENSO UNIVERSAL?

Nota de esclarecimento: 
“O artigo abaixo trata-se do exercício natural do direito que cada qual tem de pensar por si mesmo e de abraçar os pontos de vista que lhe parecem os melhores. Não me compete censurar opiniões, ainda mesmo que eu, Jorge Hessen, não defenda pessoalmente as concepções de Pietro Ubaldi. 
Assim, deixamos aos leitores do meu blog em O Rebate o encargo de analisar tudo quanto o autor expõe ou sugere a seguir, pois o mesmo direito que tem o articulista de argumentar , temos todos o mesmo direito de refutar , de aceitar, ou não, os seus argumentos.” 

Fernando Rosemberg






Este Controle Universal é uma garantia para a unidade do Espiritismo, e anulará todas as teorias contraditórias. É nele que, no futuro, se procurará o critério da verdade. O que fez o sucesso da doutrina formulada em ‘O Livro dos Espíritos’ e em ‘O Livro dos Médiuns’, foi que, por toda parte, cada um pôde receber diretamente dos Espíritos a confirmação do que eles contêm”. (Allan Kardec – Introdução de ‘O Evangelho Segundo o Espiritismo’-Ide).

Como já dito alhures: abriram-se as portas da Espiritualidade e não se tem mais como fechá-las; e suas instruções, suas luzes altaneiras, doravante, vão brilhar para todo o sempre no continuum do tempo-evolução, ou seja: do tempo que não para, e da evolução que, de forma igual, também se faz na dinâmica cíclica de sua ampla acepção universal. 

Compondo antípodas da matéria e do Espírito, e passando pelas mais diversas formas vegetais e animais, a evolução parece atingir o seu ápice no homo-sapiens que, nada obstante, ainda não o é, pois que se demora no espaço demandado por ele até o arcanjo, o Espírito puro que um dia haveremos de construir em nós mesmos, albergando formas conscienciais crísticas, hoje ininteligíveis aos potenciais psíquicos auferidos por nossa intelectualidade.

Interessante, e curiosíssimo, é constatarmos que, em tal tempo decorrido, que já demanda 160 anos desde o início dos estudos de Kardec até a presente data, e, apesar de tantos autores clássicos, de tantos outros mais modernos, e, de variadíssima classe de médiuns colaboradores da novel Doutrina, muito pouco, ou, quase nada, se praticara do que Kardec instituíra como regra fundamental para a admissão de novos princípios ao corpo doutrinário da mesma, ou seja: da Concordância Universal no Ensino dos Espíritos, resumida como (CUEE).

Por outro lado, sabe-se que:

-“O Livro dos Espíritos” (Allan Kardec - Ide) preconiza a evolução do Ser humano, como Espírito imortal, passando pela evolução e transformação dos princípios inteligentes que estagiam nos reinos inferiores da criação; entretanto, “O Livro dos Médiuns” (Allan Kardec - Ide), que lhe sucede, Capítulo 22, diz que não há progresso no reino animal, que “tais como foram criados (os animais), tais ficaram e ficarão até a extinção de suas raças”; o que não condiz com o “OLE” e tampouco com o científico “A Origem das Espécies” (Charles Darwin – Newton Compton Editor), e tampouco, mais ainda, com o vasto conteúdo positivamente firmado pelo moderno e atual neodarwinismo.

E pergunta-se; 

-Como fora possível tamanha contradição doutrinária?

-Como entender referida questão se o próprio Kardec institui o conceito da CUEE e o posterga e o contradiz em sua aplicabilidade, em um trabalho tão importante como “O Livro dos Médiuns”, este que, na visão de Kardec mesmo, trata-se do ‘Espiritismo Experimental’, e, mais ainda, representa uma continuidade de “O Livro dos Espíritos”?

Ora, “OLM” teria de ser a expressão doutrinária, lógica e matematicamente precisa de “OLE”!

Óbvio que tal perspectiva abre ampla margem de discussão e reflexão da temática em foco; discussão e reflexão, às quais, os espiritistas mais diversos, do ortodoxo engessado aos de mente mais arejada, aberta e universalista, poderiam e deveriam fazer, opinar, buscando-se, quem sabe, os motivos para o deslize cometido nos livros iniciantes principais, bem como para a não-aplicabilidade da referida CUEE em nossos tempo, que, em princípio, sugere-se, abortara, conquanto a ênfase dada a mesma pelo insigne codificador quando estava ele, na ocasião, alçado a um ponto de grande responsabilidade doutrinária no tocante ao Advento Espírita no Mundo. 

Ponto este, como referido, de responsabilidade doutrinária e também missionária, cargo oneroso e árduo, estando a receber, para a sua análise pessoal, as mais diversas instruções mediúnicas de todos os quadrantes planetários, percebendo-lhes o alcance, e, mais ainda, detectando-lhes os valores, os pontos concordantes para isto ou para aquilo, peneirando-lhes o que fosse verdade por concordância universal e excluindo-se o que parecesse inverdade por discordância, utilizando-se, como primeiro controle, de sua lógica e, portanto, de sua especialíssima e avançada razão, que albergava lógica de operações intelectuais formais, ou seja, das mais avançadas no contexto cognitivo dos Espíritos palingenésicos humanos.

Kardec, pois, pudera analisar e sistematizar um grande número de informações que lhe chegavam do Mundo todo, dando corpo doutrinário a tais informações de forma didática e, mais ainda: elaborando teorias racionais e sistemas instigantes e bem condizentes com tais informações. 

Todavia, referida situação de não-aplicabilidade do conceito que dimana da CUEE em nosso tempo, induz-me a crer que dito modelo é um tanto relativo, ou seja, suscetível de vertentes e visões variadas, de adaptações e reinterpretações dos novos quadros desenhados pelos grandes expositores clássicos do Espiritismo nas últimas décadas do século dezenove e início do século vinte, bem como por demais expositores daí resultantes, incluindo-se, evidentemente, os grandes médiuns de efeitos físicos, escreventes e psicofônicos desta ampla perspectiva de tempo e de progressos doutrinários. 

E digo, adaptações e reinterpretações estas, decorrentes e positivamente extraídas de um quadro sociológico e cultural que se evidenciara no decurso de um século e meio de experienciações de incontáveis cientistas, numerosos instrumentais mediúnicos, havendo sido permitidas e controladas, penso eu, pela Espiritualidade Maior, da qual Jesus, pós-Deus, é o seu comandante supremo, o diretor-mor de todas as coisas planetárias desde sua formação estelar ao âmbito das energias primárias, fonte e matriz das esferas estonteantes de formas, vida e inteligência que gravitam pelo espaço sideral.

Por tudo quanto dito, questiono: tudo deve ficar como está na Codificação mesma; ou, se deveria corrigi-la, e não só em tais tópicos, como em muitos outros concernentes como, por exemplo: 

-“A Gênese, os Milagres e as Predições” (Allan Kardec - Ide) não informa, em importante página mediúnica, que Marte tem Lua, quando hoje, sabemos, ele tem duas, Fobos e Deimos; e, no tocante ao anel de Saturno, hoje, sabemos, não se trata de apenas um, pois são muitos e não sólidos, sendo constituídos de partículas em suspensão.

-A questão da abiogênese que Kardec, afinal, era adepto e que presentemente se tem como equivocada;

-Além dos desacertos da inferioridade das raças e outros pontos mais de que os conhecimentos atuais se manifestam contrários ao que preconizava o Codificador.

-E etc., etc., não pretendendo, ao demais, ficar citando os possíveis erros contidos na obra do Espiritismo de Kardec que tanto amo e defendo em minhas labutas doutrinárias.

E, por tudo, e, muito mais, venho conjeturando a possibilidade de encarar-se um novo modo de se ver o referido conceito da CUEE em face de um tempo que se maturou neste sesquicentenário do Espiritismo no Mundo. 

Um tempo, pois, que se vive ainda agora, que se reflete em nossas vidas, em nosso entendimento filosófico e doutrinário deste início do século vinte e um, e que ainda vai perdurar pelos tempos vindouros, pois que se trata de coisas perenes, duradouras e imperecíveis.

E, portanto, questiono: o anunciado retorno de Kardec para dar prosseguimento à sua obra, se dera, ou, não se dera? Os que aportaram por aqui, e foram muitos os que se auto proclamaram como tal, não pareceram estar à altura pedagógica, filosófica e científica do Codificador.

Por outro lado, não se descarta por completo a possibilidade de que Kardec tenha retornado, ou seja, reencarnado no século vinte que se findara; mas não há nada que indique tal reencarnação de modo indiscutível, e sim, e tão só, palavras, sofismas e discussões estéreis que a nada levam, não se verificando, como seria de se exigir e de se mostrar, Consenso Universal, seja dos homens, seja dos Espíritos, mas tão-só verificou-se e verificam-se opiniões extremadas umas, fora de propósito outras, se evidenciando, mais ainda, ofensas descabidas e onde o bom senso, outra regra áurea de Kardec, não se aplica em tempo algum pelos mais diversos componentes de tal contenda e debates intermináveis.

Em suma, por tantas opiniões dos “doutores” em Espiritismo, este, por sua vez, só se salva por constituir Doutrina Consolidada pelos mais eminentes sábios do Mundo, e não pelos opiniáticos prós e contras do nosso tempo, que prescrevem e entendem ser suas opiniões mais importantes que os fatos, os documentos positivos e comprobatórios de suas palavras, autenticando o que tão fartamente verbalizam aos quatro ventos.

Assim, para tão magna questão, não se aplicara, em tempo algum, e, de fato não há: Documentação Comprobatória de Consenso Universal; o que há, pois, e, tão somente, são opiniões e opiniões desencontradas e desprovidas de positividade científica, tão importante em casos e situações como as que ora se levantam. O que me leva à óbvia constatação de que os espiritistas intelectuais ou cientistas, ortodoxos ou universalistas ou de quaisquer outras denominações possíveis e imagináveis, não operaram positivamente, e, em tempo algum, e, portanto, ao modo do que se preconiza como cientifico, com a Regra Consensual firmada por Kardec:

-Nem para balizar se as instruções dos mais diversos médiuns poderiam integrar a Doutrina Codificada; e

-Nem para confirmar-se o retorno dele mesmo, ou seja, do Codificador Allan Kardec, consoante informações do seu retorno para o desenvolvimento e continuação de sua obra.

Em face de tão incontestáveis fatos, concluo pelo caráter relativo da CUEE, onde tal medida fora de especial importância ao tempo de Kardec, e onde, como missionário de méritos incalculáveis, pudera, com o auxílio da Espiritualidade, tornar-se pólo centralizador e, portanto, capaz de receber instruções mediúnicas de cerca de mil centros espíritas sérios espalhados pelo Mundo.

Hoje, só no território brasileiro, contamos com aproximadamente quinze mil centros espíritas registrados, ou não, tendo-se ampliado vastamente o grau de complexidade para a devida apuração dos dados da fenomenologia mediúnica e, a partir daí, fazer-se o que tem de ser feito.

Ou seja:

-A formulação dos novos ensinos suscetíveis de constituir parte de tudo quanto já está doutrinariamente codificado; e

-A comprovação positiva, e, portanto, científica de que Kardec de fato reencarnara e prosseguira com sua honorável missão.

Para mim, não resta dúvida de que a Codificação Espírita decorrera de um momento muito especial, minuciosamente e trabalhosamente planejado pelas hostes maiores sob o comando de Jesus, momento especial este, reflito: não ser repetível nos moldes do que ocorrera no passado, e, portanto: não se verificará novamente, seja em nosso tempo, seja noutros da futuridade terrena e estelar!

E, como conseqüência, penso seja preciso mudar nossas perspectivas em relação a CUEE e procedermos uma sua readaptação aos novos tempos se não quisermos ficar encarcerados ao restrito período de quinze anos que demandara a implantação do Espiritismo na face terrena. Implantação esta, entendo, e ratifico, como o seu marco inicial, sujeito, pois, aos aprofundamentos e progressos decorrentes no tempo, que, incessantemente, nos mostra outras e muitas outras facetas da grande e infinita realidade universal.

Ora: já se passaram quase dois séculos de lá para cá.

E pensam, os mais arraigados à Codificação, que tudo quanto se fez em termos de Espiritismo no Mundo, digo, obviamente, do seu desenvolvimento e de seus avanços, de tantos e tantos trabalhos notáveis e sérios, e pensam que tudo isto não esteve sob o comando e o amparo do Altíssimo, de Deus e de Jesus? Ou será que tudo quanto houve, nestes cento e sessenta anos de sua propagação e, creio, do seu desenvolvimento doutrinário, teria ou terá sido apenas e tão somente uma grande fraude, uma mistificação de amplitude global?

Não cogito que alguma mentalidade espiritista, em sã consciência, possa de tal forma pensar, e, por isto, repiso que: muitos outros missionários já vieram, já desenvolveram sobejamente o Espiritismo e creio que, fixar-se tão somente na Codificação é não compreender-lhe o sentido progressivo, de seus avanços inevitáveis, sua natural continuidade no tempo-evolução.

Assim, parecendo-me infactível sua prática no cotidiano de nossas vidas, óbvio que tal inexequibilidade sugere o pensar e o repensar-se do conceito que dimana da CUEE, aplicável ao tempo de Kardec (?), e parecendo-me, presentemente, dotado de alguma elasticidade interpretativa com novas formas de entendimento de sua aplicabilidade conforme já explicitado de forma mais abrangente em “Análise Crítica da CUEE” e “O Espiritismo Completo”, primeiro e segundo e.Books de minha modesta autoria já postados em meu blog. 

Estou aberto, evidentemente, a perspectivas e visões outras distintas da que ora se esboça, pois que hipóteses, teorias e sistemas fazem parte do bojo mesmo do Espiritismo de Kardec onde, como livres pensadores, não só temos o direito como também a obrigação de participar ou, tão-só de opinar, favoravelmente ou não; no que haverei de expressar minha gratidão e o meu profundo respeito por todas as propostas e idéias levantadas.

Encerrando, creio que o fato mais relevante, e indiscutível, é, pois, que a CUEE, como instrumento de apuração de novos ensinos, derrapara já em seu início, como já visto e citado com o “OLE” e com o “OLM”, e, mais ainda, não surtira os efeitos desejados no futuro que hoje se faz presente, valendo-se, hodiernamente, menos como medida científica e muito mais como medida urgente. e por que não dizer filosófica, tal como a que espelha a presente proposta, sendo, assim pois, suscetível de novas visões e novas aplicações da mesma e de suas possíveis variantes, tal como a CUTE (Consenso Universal no Tempo-Evolução) de minha proposta já mencionada e constante dos referidos e.Books, como é óbvio.

Assim, penso que a regra disposta pela CUEE, fora aplicável e validada (?) para os tempos de Kardec; porém, de aplicação e validade relativa em nosso tempo, consoante o pensar e repensar-se de cada qual, se corajosos formos o suficiente para admitirmos tal elasticidade interpretativa.

E, portanto, sou tendente a cogitar que a CUEE não será adotada como regra científica dos pesquisadores do futuro, espiritistas ou não, ou seja, da ciência dita oficial.

É que, em admitindo os fatos do Espírito, tais pesquisadores criarão sua própria e específica metodologia aplicável às observações propiciadas pelo fenômeno espirítico, atinando-se que o mesmo, como se compreende, e se compreenderá, não depende da nossa livre e espontânea vontade, sendo assim, absolutamente necessário nosso harmonizar-se com a vontade extra-física, ou seja, com os ditames dos sábios comunicantes e promotores fenomênicos do além.

E, como haverei de ser severamente acusado, adianto que não sou um desconstrutor da CUEE, e, portanto, não destruo o que fora construído por Kardec como já me posicionara; apenas o vejo com a lente do nosso tempo, firmando-me nos fatos da presente realidade sociológica, cultural e mediúnica do meio espiritista, e, portanto, nos cento e sessenta anos de sua não-aplicabilidade, fato inédito para um critério que se pretende seja científico; mas de notória relatividade, indubitavelmente!

Tudo resumindo: a CUEE não pode mais ser vista como uma sentença de ordem científica, se é que assim já se houvera de concebê-la; mas sim, creio eu, como uma versátil norma interpretativa dos fatos espiríticos e paranormais de uma época, a do renomado codificador do Espiritismo: Allan Kardec: cujo método teve, presumo, sua validade interpretativa por seus méritos mesmos, mas não parece ser aplicável, como não fora, no decurso de quase dois séculos de sua instituição.

Obras Consultadas:

-O Livro dos Espíritos – Allan Kardec – Ide;

-O Livro dos Médiuns – Allan Kardec – Ide;

-O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec – Ide;

-A Origem das Espécies – C. Darwin – N. C. Editor;

-Análise Crítica da CUEE – e.Book deste autor; e

-O Espiritismo Completo – e.Book deste autor.


Articulista: Fernando Rosemberg Patrocínio

E-mail: f.rosemberg.p@gmail.com





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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Almas Gêmeas existem, e se alimentam uma a outra com as energias do Amor




José Sola

Muitos espíritas acreditam que Emmanuel haja se equivocado, quando apresentou a premissa da alma gêmea, mas infelizmente os equivocados são eles próprios, em momento algum, nosso amigo afirma que a alma gêmea, é uma duplicação de outra alma, apresenta a premissa da alma gêmea, como uma metáfora, e explicita de forma definida e clara, que somos individualidades, tanto que, ele nos fala que Lívia é muito mais evoluída que ele, e nos afirma ter que trabalhar muito para se aproximar desta. 

Se nosso querido amigo da espiritualidade, nos houvesse tentado passar a ideia de que uma alma gêmea é a clonagem natural da outra, com certeza não nos teria apresentado esta realidade da vida, pois sendo Lívia a outra metade de Emmanuel, amando-o como o ama não se deixaria quedar feliz nos paramos da luz, enquanto que seu amor eterno se demorasse inferiorizado, com certeza estaria a dividir sua conquista evolutiva com o mesmo, pois isto lhe permitiria equalizar a condição evolutiva de ambos, e de estarem sempre juntos, e felizes.

Lembramos ainda, que não nos pertencemos como um objeto de que nos apossamos, pois temos nosso livre arbítrio, nossa individualidade, nos pertencemos por doação, pois amando-nos nos doamos um ao outro, entretanto, nossa personalidade, nossos anseios e atitudes, são individuais, não se identificam, em outras palavras, nossas almas gêmeas não estão subjugadas a nossa vontade, não são reprodução espelho de nossas vidas, nós as compreendemos em sua individualidade, em seu modo de ser, e vice versa.

Entendemos, que os que acreditam que Emmanuel haja se equivocado quando nos apresentou a premissa das almas gêmeas, podem excluir as obras, escritas pelo médium Francisco Candido Xavier, pois foi Emmanuel quem supervisionou o movimento espírita realizado no Brasil. 

Talvez me digam, o que você diz não é verdade, entendemos que Emmanuel haja vivido um equivoco impensado, mas, como é que alguém vive um equivoco impensado, e o enfatiza a ponto de estar escrevendo três romances que tratam das almas gêmeas, Há 2000 anos, 50 Anos Depois, e Renuncia, e mais, volta a tratar deste tema em o livro Consolador. Pelo que vemos, não foi um erro impensado, se realmente houvesse se equivocado, o haveria feito de forma consciente, raciocinando de forma errônea, a ponto de enfatizar este equivoco.

Se Emmanuel houvesse realmente se equivocado na apresentação da premissa almas gêmeas, não o teria feito sem pensar, então teríamos que convir, de que o mentor de Chico Xavier, era místico, pois se demorou apresentando uma irrealidade, ou seja, uma criação mental seria um espírito impostor, leviano. 

Entretanto, o sabemos idôneo, pois tudo o que nos apresentou sempre o fez com lógica, razão e bom senso: e eu questiono, porque Emmanuel iria tomar uma atitude mentirosa como acreditam nossos confrades ortodoxos? Quais as razões que o levariam a mistificar? 

E mais, pois o que criou toda esta ojeriza sobre o amor eterno entre duas almas, não foi propriamente o sentimento divino em que estas se demoram, mas a metáfora, apresentada por Emmanuel quando nos diz de que o amor que estes sentem um pelo outro, é amor de alma gêmea. 

Para não prolongar muito a narrativa, estarei apresentando um trecho do livro “Os Mensageiros” de André Luiz, psicografado por Francisco Candido Xavier, no capitulo O Romance de Alfredo, pois me parece que Alfredo e Ismália são o que Emmanuel chama de almas gêmeas, vejamos.

- Mas não poderia ela (Ismália) transferir-se definitivamente para aqui? – indagou Vicente, tão impressionado quanto eu, com o romance comovedor.

Alfredo sorriu e Falou:

- Sei que Ismália tem trabalhado para isso, que seu ideal de união eterna é idêntico ao meu, atendendo à circunstância de estar o superior sempre em posição de dar ao inferior; mas não ignoro de que foi advertida por nossos maiores, sobre as minhas atuais necessidades de esforço e solidão. Preciso conhecer o preço da felicidade, para não menosprezar, de novo, as bênçãos de Deus. Minha esposa deseja descer para encontrar-se definitivamente comigo: entretanto, é necessário que eu aprenda a subir e, por este motivo não recebemos a devida permissão para o divino consorcio espiritual.



Pelo que nos foi apresentado por André Luiz, Alfredo e Ismália, eram almas que se amavam uma a outra e pretendiam conquistar a benção de permanecerem juntos na eternidade.



E a resposta de Alfredo a Vicente, elimina qualquer possibilidade de duvida, de que o amor de almas gêmeas é eterno, pois ele deixa claro de que seu ideal é idêntico ao de sua esposa, que é viver uma união eterna.

E tem mais, ainda neste mesmo livro, no capitulo “Cecilia ao órgão”, depois de haver executado a “Tocata e Fuga em Ré Menor” a pedido de Ismália, executou sensibilizada, uma canção sensibilizada até as lagrimas, composta especialmente para seu amado Hermínio, que ainda se demorava em trevas. 



Esta revelação nos demonstra com clareza que Deus, não extingue o amor, no coração daqueles que estão em luz e paz na espiritualidade, pois Cecilia ainda amava Hermínio, com toda a força de seu coração, de sua alma; isto não é alma gêmea?



E temos ainda outro livro de André Luiz, “E a Vida Continua” e nesta obra maravilhosa de André, temos Caio Fantini e Evelina Serpa, que se reencontraram, no pátio de um Hospital, digo se reencontraram, pois já sentiam um pelo outro uma profunda simpatia. 



Ambos desencarnaram, foram recolhidos na mesma colônia espiritual, e principiaram a estudar e a trabalhar juntos, e no decorrer do tempo descobriram que se amavam, e acabaram reencarnando juntos no sul de nosso país. 



E em “Nosso Lar” temos o namoro de Lisias e Licínia, e bem sabemos que nessa colônia existem vários jovens, tanto moços como moças, o que nos leva a concluir que este casal, tinha uma química especial um para o outro, que não encontramos nossa alma gêmea por causalidade, através de uma seletividade, embora esta seja o instrumento que nos levará a essa definição divina.

E ainda em  o livro “Nosso Lar” no capitulo 18, com o sugestivo titulo de “Amor, alimento das almas” na pagina 103, encontramos a corroboração sobre a teoria das almas gêmeas, Vejamos:

Valendo-se da pausa, Judite acrescentou:
– Aprendemos em "Nosso Lar" que a vida terrestre se equilibra no amor, sem que a maior parte dos homens se aperceba. Almas gêmeas, almas irmãs, almas afins, constituem pares e grupos numerosos. Unindo-se umas às outras, amparando-se mutuamente, conseguem equilíbrio no plano de redenção. Quando, porém, faltam companheiros, a criatura menos forte costuma sucumbir em meio da jornada.

E para demonstrarmos com clareza e precisão que Andre Luiz, compartilhava com Emmanuel da possibilidade de as almas gêmeas existirem, encontramos no capitulo 20, com o titulo de “Noções do Lar” na pagina 113, os dizeres que transcrevemos abaixo.

– Que fazer, porém, meu amigo? - replicou a bondosa senhora - na fase atual evolutiva do planeta, existem na esfera carnal raríssimas uniões de almas gêmeas, reduzidos matrimônios de almas irmãs ou afins, e esmagadora porcentagem de ligações de resgate. O maior número de casais humanos é constituído de verdadeiros forçados, sob algemas.


Temos ainda muitos outros relatos de André Luiz que nos falam de almas que se doam por completo uma a outra, sentimento este que Emmanuel chamou de alma gêmea, e por apresentar esta metáfora é que foi censurado, se ele tivesse dito almas afins, provavelmente sua tese teria sido aprovada. 



Temos visto através de informações que nos foram passadas, por Humberto de Campos, em seu livro "Brasil Coração do Mundo e Pátria do Evangelho", que o Anjo Ismael esta na direção de nossa pátria. 

E sendo o espiritismo o Consolador prometido por Jesus ele e o próprio Kardec, sob os auspícios do Mestre divino, sem duvida alguma, deram apoio a Emmanuel no trabalho de difusão do espiritismo no Brasil, pois apesar da superioridade de Emmanuel não temos como acreditar, fosse ele o responsável máximo desse trabalho maravilhoso que desenvolveu junto com seu médium, trabalho este que divulgou o espiritismo, no Brasil e no mundo. 

Acreditar que Emmanuel haja se enganado , quando nos apresentou a premissa da alma gêmea, é sem duvida alguma, negar o trabalho maravilhoso que enriqueceu a doutrina espírita, pois jamais alguém apresentou tanto ao espiritismo, como o fizeram os espíritos, através das mãos maravilhosas de Chico Xavier, sob os auspícios de Emmanuel. Então nós que fazemos uso da lógica e da razão, e vemos lógica e racionalidade absolutas nas obras escritas através de Chico, afirmamos que, a alma gêmea existe sim.

E temos ainda alguns espíritas, que acreditam que nossa alma gêmea, é a resultante de uma seletividade realizada por nós, através das experiências que vivemos junto a outros parceiros de caminhada, através das reencarnações.

Entretanto, lembro que se isto fosse realidade, teríamos que aceitar a casualidade acontecendo em nossa caminhada eterna, pois embora entendamos que esta seletividade aconteça, sem duvida alguma, a alma escolhida de nossa alma, será aquela que apresentara uma “química divina”, aquela que nos complementa, e esta cumplicidade divina, é um determino de Deus, não é a resultante de uma casualidade.

O fato de acreditarem que a alma gêmea, é a resultante de uma seletividade, vivida por nós, através das experiências percorridas, acontece, porque acreditam que Deus cria a vida, a partir do nada, entretanto, o nada é inconcebível, Deus é a vida do universo, e infelizmente temos muitos espíritas ortodoxos, que acreditam que o Ser Supremo da vida, se demore externo ao mesmo, criando com mãos e mente, tendo ainda uma concepção antropomórfica do Criador. 

Mas a partir do momento em que nos desvencilhamos dessa concepção estreita em que nos demoramos, passamos a entender, que Deus é a vida do universo, que o universo existe de toda a eternidade, tanto quanto Deus, e a partir de então, o verbo criar, passa a ter para nós, uma dimensão infinita, e nos apercebemos que Deus não cria a vida a partir do nada, Ele manifesta a vida no universo, a vida do mesmo, esta contida em seu Ser Supremo.

Com certeza, esta seletividade, nos leva a definir o momento, em que acordamos para a percepção divina de que somos almas gêmeas, que nos complementamos um ao outro, e esta realidade, quase sempre acontece, quando o espírito haja realizado uma maturidade em sua caminhada evolutiva, não necessariamente haja se tornado um espírito superior, e lembramos de que esta percepção acontece comumente em nossos momentos de dor, pois enquanto nos demoramos aproveitando a vida, realizando nossos desejos, e algumas vezes torpes, embora sintamos um querer maior por nosso parceiro de jornada eterna, longe estamos de imaginar, tenhamos em nossos braços, o amor de nossa eternidade. Emmanuel foi um exemplo do que estamos a afirmar, só acordou para a realidade de que Lívia era sua alma gêmea, quando esta desencarnou na arena devorada pelos leões, comumente nossas paixões inferiores falam mais alto, e às vezes os substituímos mesmo, por outro parceiro mais bem dotado de beleza, ou de fortuna. 

Quando acordamos para uma realidade maior da vida, a dor e o sofrimento nos maturam as potenciações que trazemos na alma, e dentre estas o amor em sua manifestação de almas gêmeas, ou almas que se complementam que se completam, enfim, que se realizam uma a outra, e então passamos a amar o ser querido, em sua essência, não nos detemos mais a beleza externa que esta apresente, mas a beleza interior que a mesma manifesta, e esta beleza é exclusiva a nossa apreciação, apreciaremos uma beleza interior em nossa alma gêmea, de que ninguém mais se apercebera, esta apreciação é uma manifestação de foro intimo.

E lembramos de que antes de Emmanuel haver apresentado a premissa de almas gêmeas, estas já existiam, pois sempre existiram, e sempre existirão, casais que se amam infinitamente um ao outro, se complementam, se realizam, mas não vivem a concepção de que existam almas gêmeas, apenas sabem que se complementam na vida. 

Antes de Emmanuel nos haver apresentado esta premissa, um ou outro poeta mais arrojado, se utilizava deste vocábulo, no intento de definir um grande amor, envolvendo o idílio amoroso entre um casal. 

Este vocábulo era apenas uma alocução poética, mas hoje sabemos, que este amor que resiste a todas as dificuldades e obstáculos da vida, que nos acompanha através das reencarnações por que passamos, e vai se solidificando sempre mais, é um amor eterno, é amor de almas gêmeas.

Desejando continuar nossos estudos, necessitávamos comprovar a existência das almas gêmeas e o fizemos, pois fazendo uso da lógica, da razão, e do bom senso, é impossível comprovar o contrario, o mais que conseguirão nossos confrades, será perlengar.

Conforme pudemos compreender no tema que apresentei da possibilidade de um espirito atravessar outro, e não fui eu que informei esta possibilidade, eu apenas me dei ao trabalho de extrapolar essas informações.

E embora eu já haja enviado esse texto aos meus amigos, mas vou reapresentar novamente as palavras do irmão Jacob, através da psicografia de Francisco Candido Xavier, pois os que não leram o texto anterior, não terão material apropriado para analisar o que estou escrevendo.

“Dispúnhamo-nos a deixar o abrigo a que nos refugiáramos, quando percebi que me encontrava em trajes impróprios. Arraigado à ideia de que seria visto por amigos encarnados, não ocultei um gesto de aborrecimento. 

À distância do leito, aquele roupão alvo não deixava de ser escandaloso. Marta que me seguia as reflexões, sorridente, vestia-se com apurado gosto. 

Ia expor-lhe os receios que me assaltavam, quando se adiantou, asseverando que as preocupações do momento me atestavam as melhoras. 

– Um homem desalentado não pensa em roupa - disse-me alegremente. 

Acrescentou que Bezerra e o Irmão Andrade não se demorariam e que a solução do problema fora prevista na véspera. 

De fato, transcorridos alguns minutos, chegaram, atenciosos. A possibilidade de endereçar-lhes a palavra encheu-me de imenso júbilo. Abracei-os reconhecidamente. 

Trouxeram-me um costume cinza, muito semelhante aos que eu ai preferia no verão. 

O Irmão Andrade ajudou-me a vesti-lo. 

Mas alguns instantes e, entre os dois benfeitores que me amparavam lado a lado, oferecendo-me os braços, afastamo-nos da praia. 

Enorme o movimento nas vias públicas. A mesma diferença que assinalara no mar, nas plantas e no casario, notava nas pessoas. Cada qual se revestia de halo diferente. Não me sentia, contudo, disposto a formular indagações. Assombrava-me com a locomoção própria e esse problema naturalmente solucionado bastava, por enquanto, à minha capacidade de analisar. Andava, sem grande desenvoltura; todavia, a lentidão de meus passos obedecia à inexperiência e não a qualquer impedimento por parte do corpo, que reconhecia leve e ágil. 

Aproveitaria o momento para acentuar observações nesse sentido, quando apressada senhora, sobraçando embrulho de vastas proporções, investiu indiferentemente contra nós. 

Grande foi o abalo para mim. Recuei, num movimento instintivo, temendo o atrito, mas não houve tempo. A dama atravessou-nos o grupo, sem dar conta de nossa presença. 

Assustado, procurei o olhar dos companheiros. Todos me fitavam sorridentes. 

– Este, meu caro Jacob – falou Bezerra, bem-humorado –, é o novo plano da matéria, que vibra em graduação diferente. 

– Passou por nós, sem perturbar-nos! - exclamei. 

– Por nossa vez, não a perturbamos também - acentuou o Irmão Andrade, satisfeito. 

O incidente chocara-me. Via-me perfeitamente integrado no antigo patrimônio orgânico. 

– Não estaremos num corpo de ilusão? – ousei interrogar. 

Bezerra esclareceu, delicado: 

– O poder da vida, na ilimitada Criação de Deus, é infinito, e a mulher que passou despercebidamente por nós, cujo veículo de carne caminha para a morte, poderia fazer a mesma pergunta. 

A pequena ocorrência nos dava bastante material à reflexão. Gostaria de trocar comentários e propor questões diversas; todavia, o meu abatimento ainda era grande. Deixei-me, pois, conduzir sem relutância, de imprevisto a imprevisto.”

E em o tema por mim apresentado da possibilidade de um espirito atravessar outro espirito, eu informei que Deus é a vida do universo, e sendo o universo infinito, a fonte originaria da vida, esta no todo mesmo.

Em palavras mais claras, Deus esta no todo do universo, e nós nos demoramos Nele como se demoram os peixes e batráquios no oceano, e assim como estes se movem na massa aquática sem, contudo encontrar resistência, e tampouco lhe alterar a essência, nós nos movemos no Espirito Supremo da Vida, e só não o atravessamos, por estar no todo do infinito; e como atravessar o infinito? 

Vimos ainda a possibilidade de um espirito, se incorporar por um médium, envolvendo o espirito do mesmo, isto é o espirito comunicante permanece em simbiose, imantado ao do médium, o espirito do médium não se ausenta do corpo.

Em o livro Contos e Apólogos, no capitulo 11- Seara de Ódio o espírito de Humberto de Campos nos apresenta uma lição, em que nos informa que uma mãe aborta seu filho, embora este lhe pedisse misericórdia, pois desejava reencarnar, entretanto não foi atendido, e abortado, agarrou-se a mãe, a quem passou a odiar intensamente, e foram sofrer por um período vasto de tempo nas trevas.

Entretendo um dia um coração amoroso de mulher, se compadeceu deles, oferecendo- lhes a benção de voltarem a terra reencarnando, porém renasceram ambos em um só corpo com duas cabeças, haviam se imantado um ao outro, pela força tenaz do ódio. 

E este relato de Humberto de Campos, através das mãos do médium Francisco Candido Xavier, corrobora o que estou afirmando, pois nos apresenta um fenômeno em que dois espíritos estão ocupando o mesmo corpo, possuindo, entretanto, duas cabeças. 

Se não aceitarmos a hipótese de que um espirito esta envolvendo o outro; como explicar este fenômeno?

E com certeza alguns confrades tentarão explicar de que isto acontece porque o espirito e períspirito se demoram fora do corpo, pois alguns ortodoxos vivem esta crença, e a apresentam mesmo com desenhos coloridos.

Mas não sei por que se demoram perdendo tempo neste sentido, pois em Kardec apreendemos que espirito, períspirito e matéria, ocupam o mesmo lugar no espaço, e somos informados ainda de que o períspirito é o elemento plasmático que possibilita a adesão das células ao espirito.

Continuando nosso estudo, somos levados a raciocinar, que se o ódio leva os espíritos a se imantarem - lógico para apreenderem a se perdoar e se amar - com mais forte razão somos levados a concluir que as almas gêmeas, se imantam uma a outra em simbiose profunda, em momentos de êxtase e felicidade divina, permutando o amor, vivendo o alimento das almas na eternidade.

Dir-me-eis, mas não existe essa necessidade, pois as almas se alimentam do amor que se manifesta de Deus no infinito do universo, e isto é verdade, entretanto, importa lembrar que o amor quando se manifesta de Deus no universo, se manifesta num principio de unicidade absoluto.

Pulverizando-se, entretanto para atender a vida do universo, nos mais variados momentos evolutivos em que se demore esta vida, e se manifesta em variedades infinitas, correspondendo a estas formas diferenciadas de amar.

Nós somos deuses, nos disse Jesus, e isto disse, porque, ao conceber-nos a vida, Deus nos dotou de seus infinitos atributos, e dentre esses infinitos atributos que herdamos, está o amor, pois o mesmo vem se desenvolvendo conosco, em nossa peregrinação, pelos reinos inferiores da natureza. 

Quando no reino mineral o amor se manifesta em forma de atração e coesão, no reino vegetal esse amor se desenvolve se amplia e através da sensibilidade, as plantas ampliam essa essência, quando estamos maltratando outra, ou mesmo um molusco, ou outro animal qualquer, as mesmas se sensibilizam. (Ver o livro “A Vida Secreta das Plantas”)

No reino animal este amor se amplia a ponto de permitir a estes amarem, pois uma mamãe tigre é feroz para com os animais de outra espécime, mas é amorosíssima para com seu filhote, o alimenta e o protege até que este se auto sustente.

E vemos o amor que nos dedicam os animais domésticos, principalmente o cão, pois quando os acariciamos, eles nos correspondem as caricias, abanando a cauda, e com a língua de fora, parece que estão nos sorrindo. 

E no ser humano, este amor se torna mais ampliado, manifestando-se conforme retro informado nas variadas modalidades de amor em que nos demoramos, e este amor vai ao infinito na eternidade, expande-se sempre, nunca se extingue.

Então somos levados a concluir de que herdamos o amor de Deus na sua unicidade de ser, e o desenvolvemos no sentido que nos atenda ao momento evolutivo em que nos demoramos, nas suas multiformes modalidades de manifestar-se. 

Este amor único que se manifesta de Deus no universo, é trabalhado pelo eu inteligente, em seu momento evolutivo, passando por mutações infinitas que o conduzam a atender nossos sentimentos e nossas necessidades.

O amor, na sua essência é a matéria prima que herdamos de Deus, permanece em nosso inconsciente puro, como um eterno vir a ser, entretanto, compete a nós maturarmos essa essência propiciando-lhe manifestar-se nas variações diversificadas em que o vivemos, amor de mãe, de pai, de filhos, de esposos, de almas gêmeas, etc., são a resultante da maturação dessa energia divina.
E o amor de almas gêmeas, não se extingue com a evolução do ser, como o imaginam alguns ortodoxos, pois acreditar nesta possibilidade, é acreditar, no panteísmo, mais é acreditar que essa essência de Deus, fosse suscetível de ser destruída.
Então somos levados a concluir que as almas gêmeas, em determinados momentos em sua evolução na eternidade, se enlaçam em simbiose absoluta, isto é, se imantam uma a outra, confirmando as palavras de Jesus aos que se unem pelos laços da união divina, sois um em Deus.
E embora permaneçam em simbiose divina imantada um ao outro, não perdem a sua individualidade, não equivalem seu momento evolutivo, entretanto, se alimentam um ao outro com o amor que possuem, sendo que já acordados para luz da vida, se transformam ambos em um canal receptor dessa essência sublime de Deus.
E nessa cumplicidade divina, podemos sem dúvida alguma afirmar, que nos alimentamos do amor de Deus, haurindo a essência que do Mesmo se manifesta no universo, permutando-o com o parceiro de nossa eternidade.          
Vimos que em uma das modalidades da incorporação, o espirito manifestante, envolve o espirito do médium em seu corpo de matéria, entretanto, embora momentaneamente o médium modifique seu comportamento, tornando-se algumas vezes agressivo mesmo, ele está apenas refletindo as condições vibracionais do espirito, mas em sua essência, em sua individualidade permanece imutável.
Tanto é verdade o que informo, de que o espirito do médium equilibrado, consegue controlar os impulsos agressivos do espirito manifestante, e quando o espirito se afasta, o médium continua sendo aquele espirito pacifico de sempre.
E na condição de almas gêmeas, quando um espirito se imanta ao outro, em simbiose divina, o fazem atraídos pela força do amor sublime que se dedicam um ao outro, e em êxtase divino, permutam amor, e se alimentam.
Mas apenas viveram a condição de médium um para o outro, pois não viverão um período longo de tempo inseridos um ao outro, esta simbiose sem duvida alguma acontece em momentos de extremo êxtase que sentem um pelo outro, embora permaneçam ininterruptamente imantados pelos laços eternos do amor, pois este não conhece distâncias.
Lembro aqui, que esta possibilidade não se delimita com exclusividade para as almas gêmeas, pois existem amores outros diferenciados que são tão sublimes como este, e para sintetizar, lembraremos o amor de mãe, com a diferença única de que outra será a modalidade de manifestação desse amor, entretanto, ambos são sublimes ao infinito.
E lembro ainda de que a mulher, médium de Deus na vida, propicia a possibilidade de um espirito envolver outro espirito, pois conforme André Luiz em o livro “Missionários da Luz”, no capitulo A Reencarnação de Segsmundo, nos informa de que este foi depositado no útero materno, por sua futura vovó.
E se espirito, períspirito, e corpo de matéria ocupam um mesmo espaço, demorando-se em simbiose Divina, isto quer nos dizer que o espirito materno absorve o espirito reencarnante em suas entranhas, alimentando-o com seu plasma físico, mas também com seu fluidos espirituais, pois não sendo assim, como explicar o fenômeno da reencarnação?
Nosso amigo Andre Luiz nos passa informações profundas, a respeito da vida, nos apresenta de forma sintetizada, elementos para estudo, mas infelizmente, não utilizamos a lógica e a razão, não extrapolamos essas informações, e deixamos de continuar avançando no estudo da doutrina espirita, infelizmente presos a letra e a ortodoxia.    
E na ortodoxia em que se demoram um grande numero de espíritas mergulhados, me apresentaram um questionamento ingênuo, “mas você acredita mesmo, de que, o amor entre as almas gêmeas, seja eterno”.
 E eu digo que este questionamento é ingênuo, pois apreendemos na doutrina espírita, que o amor é eterno, e com este questionamento, estes confrades estão delimitando o amor, não sei se acreditam que o amor morre, ou se interpretam que com a evolução do ser, este amor perde a sua individualidade, e se confunde com o amor que se manifesta de Deus na vida.
Mas esta seria uma crença panteísta, conforme retro informado, pois pelo que apreendemos no espiritismo, a evolução vai ao infinito, e os elementos propulsores da evolução, são a inteligência e o amor, entre infinitos outros, é claro, e mais, somos informados que jamais seremos perfeitos, pois nos demoramos no relativo, seremos eternamente perfectíveis, perfeito é só Deus, pois Ele esta no absoluto.
Confrades queridos, evoluímos eternamente, e nesta evolução eterna, manteremos perenemente a nossa individualidade, evoluiremos sempre, maturando os atributos que herdamos do Criador, então o amor que sentimos um pelo outro, jamais morre ou se confunde.
Infelizmente alguns espíritas embora aceitem a eternidade, e o infinito, se demoram indefinidos, não conseguiram entender que estes dois princípios de ser do universo, se complementam, se completam, uma eternidade sem um infinito, seria vaga, imprecisa, vazia, não teria razão de ser, e um infinito sem eternidade, não encontraria campo para manifestar-se, se veria limitado, e deixaria de ser infinito, e é por esta razão que apresentam premissas ortodoxas absurdas, como delimitar a manifestação do amor, da inteligência, etc.
Embora não se demorem mais acreditando que depois da morte, havendo conquistado um lugar melhor (paraíso), estarão em eterna adoração a Deus, mas acreditam que vamos chegar a um auge na evolução, a perfeição, e então estaremos amando a todos por igual, mas este amor idêntico a todos, só seria possível, se atingíssemos a perfeição.
Entretanto já vimos que somos perfectíveis, que a evolução vai ao infinito, e esta realidade, nos diz que se o universo é eterno, tanto quanto Deus, se a evolução vai ao infinito, existem espíritos que se demoram vivendo uma evolução, que nos é impossível conceber, e isto nos leva a concluir, que esses espíritos, manifestam um amor mais intenso pelo próximo, do que nós, então não vamos jamais amar a todos por igual.
 Embora entendamos que a partir do momento em que superemos nossas paixões, vicissitudes, e inferioridades, estaremos amando a todos, pois só teremos amor para dar, e ninguém pode dar daquilo que não tem, devemos lembrar de que só Deus esta no absoluto, e só Ele é capaz de ter um amor equitativo, só Ele manifesta um amor único, vivendo modalidades de ser diferenciadas.
Seguindo esta linha de raciocínio, que viemos percorrendo no desenvolvimento deste tema, a lógica, a razão e o bom senso, nos levam a concluir, que este amor eterno que manifestamos um pelo outro, quando somos almas gêmeas, é um designo de Deus, e esta contido na substância, plasma divino do Criador.
E embora, este atributo divino, que herdamos do Ser Supremo da vida, viva uma seletividade, no processo de maturação, quando percorre os reinos inferiores da natureza, tanto quanto, quando atingimos o reino humanoide, assim como o vivem a inteligência e o amor. Não temos como aceitar, que a força deste amor que une dois seres que se amam na eternidade, seja simplesmente a resultante de uma seletividade, pois esta seria uma casualidade, e não acreditamos que existam efeitos sem causa.
Então temos que admitir que esta química divina, que se revela em um momento maravilhoso de nossa caminhada eterna, já esta contida no núcleo da substância, pois Deus é a vida do universo, este amor já é um determino do Criador, pois sequer temos como afirmar que seja uma aquisição adquirida através do tempo, por méritos adquiridos, pois como vimos este amor, não é a resultante de um momento, este preexiste ao momento evolutivo em que nos demoramos, é Deus.
Embora não nos seja possível, apresentar uma prova cabal, afirmando a existência das almas gêmeas, pois esta é uma questão de foro intimo, entretanto, temos apresentado premissas lógicas que corroboram a existência dessas almas.
É evidente, que aqueles que desacreditam desta possibilidade, e desejem provar em contrario, necessitam utilizar-se dos parâmetros da lógica e da razão, detalhando e explicitando o que dizem, pois para negarmos, ou para confirmamos algo, a lógica e a razão, carecem estar em evidencia, conforme nos pede Allan Kardec.

                                                                                             Sola

domingo, 26 de outubro de 2014

JESUS E A DEFESA DA LEI - Mt 5:13-48



Mem Martins,
Sintra, Portugal


Quando abrimos os evangelhos, é fundamental ter em consideração três aspectos importantíssimos: Jesus não escreveu nada; os evangelhos não foram escritos por apóstolos, mas por redactores que fizeram um longo trabalho de pesquisa; o cristianismo estava longe de ser constituído como religião.

Jesus, como judeu, dedicou a sua vida pública àreformulação do judaísmo, numa reinterpretação do passado. Este o compromisso principal com o seu auditório.

O homem e a mulher surgem na sua singularidade, o que se traduz por uma valoração da subjectividade. A lei e os profetas são importantes na medida em que são reinterpretados. Por outras palavras, a objectividade da lei concretiza-se na subjectividade de homens e mulheres na trama da sua realidade histórica, acrescentando-lhe sentido.

Em Mt 5 aprendemos que é impossível separar a conquista do reino dos céus da boa prática da lei. Sendo esta portadora de comportamentos normativos, baseados em saberes acumulados ao longo de quase mil anos de história, atravessando períodos uns mais conturbados do que outros tais como revoluções, congestões sociais, revoltas, períodos de paz, ela foi sedimentando um conjunto de códigos que retratam a vivência histórica mediante usos e costumes que vão sendo alterados com o tempo. Revestindo-se de tradições orais, folclóricas e proféticas, e litúrgicas, sacerdotais e sapienciais, a lei impõe-se como um manancial hereditário representativo de um povo que se vê a braços com a missão de transmitir a existência de um Deus sem nome nem representável figurativamente, mas que se manifesta na História. Assim a Lei é também caminho que conduz a uma transcendência, o reino dos céus.

Ao falar para os seus contemporâneos, submetidos aojugo do Império Romano, Jesus fê-lo de forma a remetê-los para um reforço da confiança na lei e nos profetas, como representativos objectivamente fiáveis de situações análogas. Podem passar os céus e a terra mas lei jamais, o que lhe confere, e aos profetas, autoridade e uma referência, ao povo judaico identidade. É nesta base que se torna possível a reinterpretação de Jesus em 21-48.

O apelo à perfeição em 48 não exorta, à angelitude. Ele impõe-se como a sinopse de tudo o que foi dito nos versículos anteriores. Cumprir a lei não é uma transcendência nem uma purificação ou catarse, mas um dever que denota a presença de uma imanência que cada homem e cada mulher transporta consigo. Podemos ser perfeitos neste mundo na legitimidade do mesmo, tal como poderemos sê-lo igualmente noutro na sua natural legitimidade. Cada mundo transporta perfeição. Jesus nasceu neste, é para ele que veio reinterpretar o que está escrito desde os antigos, transformando a tradição mecanizada em nova vivência toda consciente. Séculos antes da Psicologia, de Freud e da Psicanálise, a “anos-luz” da descoberta do inconsciente, Jesus antecipou redundantemente a separação do cumprimentode uma norma “porque sempre foi assim” em prol de um cumprimento “porque tem que ser assim”.

Não estamos em presença de um sentido ou ideal de perfeição angélica ou beatífica, transcendente, mas no apelo ao cumprimento da lei e dos profetas num sentido de imanência de Deus. É Deus que se manifesta na História, não somos nós que nos manifestamos no Seu reino. Temos as nossas raízes na terra, e não podemos pensar Deus sem essas raízes. O reino dos céus começa na terra à qual devemos o pó de que somos feitos, das tradições que são a nossa seiva.

Neste mundo, a angelitude não é uma teleologia, mas sermos perfeitos na directa proporção em que Deus o é no “mundo” Dele. De 21 a 48 somos confrontados com essa impossibilidade que, porém, se torna possível na medida em que conseguirmos valorar coisas tão importantes como a reconciliação, o não matarás, a relativização do altar em prol do perdão. È de uma nova justiça que se trata, uma nova visão do justo e do bem. Nesta perspectiva, querermos ser anjos seria terrível, pois a angelitude dirige o indivíduo para o imaginário, o irreal, uma fé fantasiosa. Não dispondo de exemplos concretos, conduziria a caminhos escusos bem como a esquecer o mundo real.

Podemos dizer que Mt 5 é uma pedagogia em cuja temática interagem a esperança do reino dos céus para os deserdados na terra (v. 3-12), para os cumpridores da lei e respeitadores da tradição profética (v. 13-20), juntamente com as reformulações de Jesus à lei (v.21-48). Porquê todos no mesmo capítulo? Porque interagem, sendo impossível separá-los.

Em 17-19, Jesus dá o exemplo submetendo-se Ele próprio à lei e aos profetas. O “revolucionário” Jesus não é um fora-da-lei defensor de um estado caótico, remetendo o ouvinte para as limitações da lei, as suas inflexibilidades, numa linguagem de séc. XXI, mas perfeitamente enquadrada nos tempos de então. Pelo contrário, ela é vista por Ele como a base estruturante da sociedade, caminho civilizacional que remete os homens e as mulheres para uma transcendência, um reino que não é definido, mas do qual vem dar testemunho ao ensinar como entrar nele. Há uma escatologia na própria natureza da lei.

A nova justiça, que surgirá em 21-48, com base em 17-19, onde é feita a advertência de que a violação de um preceito, ainda que dos mais pequenos, torna esse homem ou essa mulher menor no reino dos céus (V 19), é a reflexão de Jesus sobre o conceito de lei que Ele transporta. A tradição é dada, vivê-la é reflectir sobre ela, trabalho de re-interpretação com base nos valores que são transmitidos. Isto não anatematiza, mas engrandece. As sociedades crescem a partir dos seus núcleos estruturantes, que a lei acompanha naturalmente.

O tempo de Jesus, caracterizado por um forte desalento, um povo ansioso por libertar-se do jugo da potência invasora, por revoltas contra o Império Romano, encabeçadas pelos zelotas, principalmente, punha em causa muitos dos preceitos, dos valores, da moral e da ética herdados. Que fazer? Como olhar para os estilhaços de um povo monoteísta curvado sob o jugo pagão? Que importância tem esta herança que não confere liberdade, que não dá resposta a uma realidade tão cruel, submergente em princípios quem não eram os seus? Vale a pena esta herança, ser o povo escolhido? 

A exortação de Jesus remete o estudioso, inevitavelmente, para uma reflexão sobre a importância do herdado como ponto de referência. O Seu discurso é estimulante, comprometedor, desconcertante. Remete para uma impossibilidade: Como é que eu vou conseguir fazer isto? Mateus cinco ensina que Deus não está a sortear ninguém, que o Seu reino não é um prémio conquistado por Lhe agradar a Ele e só a
Ele. A salvação não é um prémio dado à virtude porque ela não é premiável nem salvífica. A conquista de Deus não se faz dessa forma.

É a terra que, na sua dupla vertente lei e profetas, conduz até Deus na directa proporção em que soubermos tornar o impossível possível.

É importante ter presente que a doutrina de Jesus não estabelece uma clivagem com o Antigo Testamento. Em Mt 5:17, é posto na boca de Jesus que a lei é para se cumprir incondicionalmente; o seu papel não é destruí-la, mas submeter-se a ela. Só assim se lhe pode impor. É impossível separá-lo do Judaísmo a que pertencia


quarta-feira, 22 de outubro de 2014

UM “TEMPLO”, UM “TROFÉU”, UM ESCÁRNIO AO CRUCIFICADO ( Jorge Hessen )

Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

O comércio da fé cristã ridiculariza a liberdade religiosa que vigora no Brasil. Aventureiros fazem escárnio da facilidade para criar uma igreja qualquer. São exigidos apenas cinco dias úteis e um pouco mais de R$ 500,00 para as despesas burocráticas a fim de fundar uma igreja de qualquer alcunha evangélica, com direito a CNPJ e tudo o mais. Basta apresentar o registro em cartório da Ata da assembleia de fundação e do estatuto social. Simples assim!

Após esses primeiros passos, se for arrecadado muito dinheiro consegue-se comprar espaços na TV (aberta ou por assinatura) para fazer propaganda do conteúdo ideológico como se fosse um “produto” para consumo “espiritual”. Sob abjeta industrialização da “cruz”, boa parte dos programas ditos evangélicos de tevê objetiva fazer do Cristo um “menino propaganda”. Não se apresenta conteúdo legitimamente do Evangelho; a ênfase recai no sucesso e na prosperidade financeira, como se isso fosse a prioridade do Evangelho. Seus apresentadores (sempre circunspectos) se valem de mensagens “proféticas” e de “curas” e testemunhos de pessoas que teriam obtido vitórias financeiras, mediante os quais sensibilizam os telespectadores a lhes enviar vultosas contribuições.

Nas advertências de Paulo de Tarso percebemos que nos tempos apostólicos também havia comerciantes da fé, sem compromisso com as Escrituras, interesseiros e sem respeito ao Criador, que vagueavam pelas igrejas cristãs usando o Evangelho para obter lucro.1 Isso levou o Convertido de Damasco a mostrar aos cristãos de Corinto que ele era diferente desses aproveitadores.2 Referindo-se aos falsos mestres, o apóstolo Pedro também alertou os religiosos da época sobre os que mercadejam a fé”.3

No livro “Uma Breve História do Mundo”, Geoffrey Blainey afirma: “A Igreja [de Roma] reuniu cobradores de impostos profissionais e, assim como as pessoas que hoje ajudam a angariar fundos nas instituições de caridade, eles se encarregavam de vender indulgências. (...) Martinho Lutero detestava a prática de venda de indulgências, que nada mais eram que pacotes caros pagos pelo perdão. Em 31 de outubro de 1517, afixou seus protestos em latim à porta da igreja do castelo de sua cidade”4. Quase concomitante ao ideário do sacerdote agostiniano irrompe-se a liderança do protestante Calvino.

Para o sociólogo Max Weber, a religião exerce uma profunda influência sobre a vida econômica. Mais especificamente, a teologia e a ética do calvinismo foram fatores essenciais no desenvolvimento do capitalismo do norte da Europa e dos Estados Unidos. Weber baseou-se principalmente nos puritanos e em grupos influenciados por eles. Ao analisar os dados, concluiu que entre os puritanos surgiu um “espírito capitalista” que fez do lucro e do ganho um dever. Ele argumenta que “esse espírito resultou do sentido cristão de vocação dado pelos protestantes ao trabalho e do conceito de predestinação, tido como central na teologia calvinista. Finalmente, a secularização do espírito protestante gerou a mentalidade e as realidades cruéis do mundo dos negócios”.5

Segundo o Censo do IBGE, as religiões “reformadas” dobraram o número de devotos no Brasil entre 2000 e 2010, e já ultrapassam a 22% da população. A sua extensão social de influência é descomunal. Recentemente foi inaugurado em São Paulo um mega “templo” contendo 74 mil m² de área construída, 52 metros de altura, 105 de largura e 121 de profundidade. Para a construção foram utilizados 28 mil m³ de concreto e quase 2 mil toneladas de aço, além da importação de 40 mil m² de pedras de Hebron, em Israel. O “templo” custou a ninharia de R$ 630 milhões (isso mesmo, mais de meio bilhão de reais).6

Durante a inauguração da faraônica “casa do senhor”, o empreendedor e proprietário-mor do “templo” convidou a todos (cerca de 15 mil pessoas) a pegar os envelopes colocados no encosto das cadeiras e requereu modestamente: “Escreva o seu pedido de oração para colocar nas pedras do altar! Quem quiser pode fazer uma “oferta”, pois há milhares de máquinas de cartões de crédito e débito espalhadas pelo salão”; porém os fiéis doaram dinheiro vivo. O resultado das doações observou-se no dia posterior, quando pousou um possante helicóptero no terraço do “templo” inaugurado, e para a aeronave foram transportadas malas e malas abarrotadas de “ofertas”, conforme poderá ser comprovado no link: https://www.youtube.com/watch?v=xVhpZo5dEUs.

Detalhe: Jesus não foi convidado para a inauguração. Ele não tinha credenciais pois era pobre demais para ter acesso ao luxuoso e baldio “templo”. Nos bons tempos apostólicos, O Divino Galileu expulsou os vendilhões, reclamando que estavam transformando sua casa em um “covil de ladrões”. Mas Ele também profetizou o desmoronamento daquela construção de pedra: “Ao sair do templo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e fizeram-no apreciar as construções. Jesus, porém, respondeu-lhes: Vedes todos estes edifícios? Em verdade vos declaro: não ficará aqui pedra sobre pedra; tudo será destruído”.7 O general Tito poderá fornecer detalhes de como o demoliu... Essa reprovação de Jesus do comércio das coisas abençoadas recaiu sobre as permutas de muambas religiosas praticadas pelos vendilhões do Templo de Jerusalém. Ao expulsá-los, o Mestre deu enérgica demonstração de que não se deve comerciar com as coisas espirituais, nem torná-las objeto de especulação ou meio de cobiças.

É insano transformar um templo religioso em uma Agência Mercantil. Viver o Evangelho, Sim! Ganhar rios de dinheiro à custa da mensagem do Cristo, Jamais! Nada é tão espúrio para um cristão que o exercício da industrialização do Evangelho. É deplorável identificarmos “religiosos” (ressalvando-se as honrosas exceções) que se postam quais “apóstolos” do Cristo, com evidente desprezo ao código da ética cristã.

O Cristo advertiu em vários segmentos do Evangelho sobre os “evangelizadores” oportunistas, comparando-os a "lobos em pele de cordeiros". A lógica humana é dilacerada diante da exploração da fé. Não há como emudecer perante os que se valem de todos os tipos de mídias para pregar o Evangelho em “nome de Deus”, deslumbrando os seguidores afirmando que a clemência do Pai somente pode ser obtida através da “oferta” financeira.

Há muitos falsos cristos e falsos profetas representados por filosofias, doutrinas, seitas e religiões mercantilistas que escravizam os homens e exploram a boa fé das pessoas que sofrem. Jesus, há dois mil anos repreendeu: "Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração. Porém, vós a tendes transformado em covil de ladrões".8 Hoje, discorrem sobre as escrituras numa maníaca exaltação do Cristo, atrelam suas prédicas à moeda de troca, onde quem for mais generoso (mão aberta) e destinar maior quantia em dinheiro terá maior benefício “celestial”.

Os desprevenidos religiosos nutrem-se da "fé cega" que lhes é infligida por meio de discursos abrasados e encenações de pseudo-exorcismos, onde o que de fato ocorre são catarses anímicas e/ou “incorporações” de obsessores que se deleitam diante dos patéticos e deprimentes espetáculos.

"Ai de vós, condutores de cegos, pois que dizeis: Qualquer que jurar pelo templo, nada é; mas o que jurar pelo ouro do templo, ou pela oferta, este faz certo. Insensatos e cegos! Pois qual é maior: a oferta, o ouro, ou o templo de Deus?”.9

Mais uma vez evocamos Paulo, quando admoestou os cristãos de Corinto: “Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. Tu, porém, ó homem de Deus, foge destas coisas; antes, segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a constância, a mansidão.”.10 A única moeda que o Criador acolhe como câmbio é o amor ao próximo.

Referências bibliográficas:
1 II Co. 11.3-15 e ITm. 6.9-10
2 II Co 2.17
3 II Pe 2.1-3
4 Geoffrey. Uma Breve História do Mundo, Curitiba: Ed. Fundamento, 2004, página 185
5 Weber, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo: Ed Cia das Letras, 2004
6 O dinheiro, oficialmente, veio de doações de fieis de todo o mundo.
7 Mateus, capítulo 24
8 Mateus, XXI; 12 e 13
9 Mateus, XXIII; 16
10 I Timóteo 6:6-11