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domingo, 29 de setembro de 2013

SOFRIMENTO PSÍQUICO GRAVE

Luiz Carlos Formiga
Rio de Janeiro
Luiz Carlos Formiga


Quando visitamos, mesmo através da WEB, a Notre Dame de Paris (1) ou a cúpula de Reichstag em Berlim, (2) não estamos pensando em coisas tristes.
Quando passamos no Bairro do Maracanã e percebemos que aquele esqueleto de cimento, ferro e pedra, de nossa infância, se transformou no campus da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, não pensamos coisas tristes. Mas, nem tudo são flores. Acontece que, como em Notre Dame e em Reichstag, nela vamos encontrar a coisa triste que é o suicídio.
Se os números que nos chegaram no dia 20 de setembro, de forma não oficial, estiverem corretos, temos motivo de tristeza. E pensar que podem estar defasados em 20%, como os casos de suicídios diários que ocorrem no Brasil. (3)
De 1989 à 2011 soubemos de 11 casos. No dia da palestra comemorativa dos 15 anos de funcionamento do Núcleo Espírita Universitário recebemos a notícia que já eram 59. Assim sendo, juntando os casos de 2012 e 2013, temos um aumento significativo, ou, então, está havendo mais transparência, com relação a esse sofrimento psíquico grave e fatal, que não chega a ser noticiado pela mídia.
Acreditamos que é chegada a hora de todos os Núcleos “religiosos” se unirem, utilizando a “ética da Tolerância” intensificando ações e orações, no sentido do fortalecimento dos trabalhos de preventivos.
Em 2011, a UERJ trouxe uma autoridade em Epidemiologia e prevenção da Unicamp e não podemos esquecer a possibilidade de se fazer prevenção universal, seletiva e indicada. Esta última junto aos que apresentam alto risco, tendo um fator principal que é a existência de tentativa. Essas pessoas devem ser estimuladas a não abandonar o tratamento a que estão submetidas. Núcleos “religiosos” podem ser úteis na divulgação da existência de serviços de apoio emocional, gratuito, sigiloso, disponível 24 horas por dia, 365 dias por ano, onde um clique é fundamental  (CVV). Um telefonema ajuda muito.
O preconceito religiosos existe e pode dificultar a atuação do NEU-UERJ, mas mesmo assim, não deve esmorecer. Pelo contrário, as investigações sistemáticas apontam na direção de que indivíduos com fé religiosa profunda, sem interesses subalternos ou materiais, lidam melhor com estresses da vida e se recuperam da depressão, com maior rapidez do que pessoas menos religiosas.
O NEU deve colaborar na prevenção e no auxílio aos que equivocadamente saíram da vida pela porta errada. Com o livro e o filme “Nosso Lar”, descobrimos que o Umbral tem porta de saída.

(1) Notre Dame (Paris)
(2) Reichstag (Berlim)
(3) Universidade e Suicídio. Discutindo Arquitetura e Prevenção. Texto enviado a Vice Reitoria da UERJ.
(4) CVV
Lista de contatos e endereços dos Postos CVV


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

COMO DEVEMOS AGIR PERANTE OS CRIMINOSOS?



Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

É com imensa tristeza que lemos a notícia sobre alegada morte, no Iêmen, de Rawan (1), uma menina de 8 anos, em decorrência de lesões que sofreu na noite de núpcias com um homem de 40 anos. (2) O caso foi divulgado pelo jornalista Mohammad Radman e o Gulf News. Vários sites espalharam a história, incluindo o Opera Mundi – que se baseou em relatos da agência alemã DPA, do jornal alemão Der Tagesspiegel, do espanhol El País, do Huffington Post (em sua versão britânica) e da agência de notícias Reuters. Os chefes tribais locais estão acobertando a história. O governo do Iêmen nega o fato; entretanto, para Mohammad, as autoridades estão tentando sepultar a história”. (3)
Se é uma questão cultural, isso não absolve o crime de pedofilia. A rigor, é um processo de legalização da pedofilia nalguns países. Casamentos envolvendo menores de idade são corriqueiros no Iêmen. Em 2010 uma menina de 13 anos também morreu com graves lesões nos órgãos internos após ter sido forçada a se casar com um adulto, coforme denuncia uma organização de direitos humanos que atua no Iêmen.
Esse comportamento existe noutras comunidades muçulmanas ortodoxas, tais como ocorre em países como Somália, Nigéria e Afeganistão. Um relatório da Organização das Nações Unidas registra que mais de 50% de todas as jovens iemenitas estão casadas antes de completarem 18 anos e cerca de 14% estão para se casar sem terem ainda 15 anos. (4) A ativista Hooria Mashhour tem lutado para que a prática do casamento infantil seja de uma vez por todas banida do país. (5)
O casamento entre adulto e criança abaixo da idade de consentimento é um crime na legislação de inúmeros países. Contudo, há outro aspecto na discussão: muitas culturas reconhecem pessoas como “adultas” (idade de consentimento) em variadas faixas etárias. Por exemplo, a tradição do Judaismo considera como “adultos” (membros da sociedade) as mulheres aos 12 e os homens aos 13 anos de idade, sendo a cerimônia de transição chamada Bat Mitzvah para as garotas e Bar Mitzvah para os rapazes.
Ao longo da história antiga, no período medieval, na Idade moderna e nos séculos XIX e XX, eram comuns os casamentos de crianças e pré-adolescentes (sobretudo meninas menores de 12 anos de idade) com adultos. Atualmente, tal situação configura-se como ação delitiva que prejudica gravemente o desenvolvimento atual e futuro da criança. Tal aberração, à luz do código penal de diversos países, hoje é classificada como crime de pedofilia. (6)
Em que pese essa criminalização, a situação não se modificou em diversos paises. “Mais de 200 milhões de crianças sofrem violência sexual no mundo e quase metade das vítimas das agressões sexuais são meninas menores de 16 anos. Em nível global, estima-se um número entre 500 milhões e 1,5 bilhão de meninos e meninas que sofrem algum tipo de violência sexual a cada ano, segundo relatórios de organizações internacionais realizados em pelo menos 70 países.” (7)
Ao tratarmos sobre violência infantil que ocorre no Iêmen o assunto que se destaca é a pedofilia. Esse tema nos remete inteiramente aos desvios sexuais e/ou culturais, convidando-nos a embrenhar nos códigos da lei de causa e efeito. Entretanto, na perspectiva da criança não submergiremos nos “porquês”, nem nos rudimentos cáusicos reencarnatórios de espíritos que padecem tamanha crueldade. Não recorreremos à lógica (ação e reação) sobre esses processos expiatórios, enfocaremos tão somente o crime da pedofilia sob a lupa da indulgência. Seria isso possível?
O termo pedofilia (8) significa depravação sexual na qual a fascinação sexual do adulto ou adolescente está conduzida para crianças pré-púberes (antes da puberdade) ou no início da adolescência. A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança, aprovada em 1989 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, define que os países signatários devem tomar "todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educativas" adequadas à proteção da criança, sobretudo no que se refere à violência sexual.
No que tange aos criminosos, inclusive agressores sexuais (pedófilos) que sucumbem diante de crianças para fúria das suas truculências, a Doutrina Espírita recomenda não condenar ninguém, advertindo sempre que tenhamos com todos a prática da caridade. Tais criminosos constituem espíritos que atravessam um momento difícil em que necessitam promover a sua edificação moral, através de uma conduta sexual equilibrada.
O tema é na essência potencialmente complexo, culturalmente polêmico e trágico; não há como ignorá-lo no contexto de nossa situação na terra. O pedófilo, sendo um desnorteado da alma, e ao mesmo tempo um criminoso, logicamente não pode ficar impune. Contudo, precisa, antes, de tratamento psíquico e espiritual.
Sim! Cabe aqui refletir, à luz da Doutrina Espírita, sobre os crimes e sobre a lei. O mandamento maior da lei divina inclui a caridade para com os criminosos, por mais difícil que possa parecer ter este sentimento diante da barbárie da pedofilia. Perante a Lei de Deus, somos todos irmãos, por mais repugnante que seja para alguns tal ideia. O criminoso é alguém que desconhece a Lei Divina, que não reconhece a paternidade divina e, portanto não vê no outro um irmão. Nós, que já temos esses valores, sabemos que ele é também um filho de Deus, por enquanto transviado do bem, que precisa do nosso amor fraterno.
Mas de que maneira amar um criminoso, um inimigo da sociedade? Kardec nos ensina que amar os inimigos não é ter-lhes uma afeição que não está na natureza, visto que o contato de um inimigo nos faz bater o coração de modo muito diverso do seu pulsar ao contato de um amigo. Amar tais inimigos é não lhes guardar ódio, nem rancor, nem desejos de vingança; é perdoar-lhes, sem pensamento oculto e sem condições, o mal que causem; é desejar-lhes o bem e não o mal; é socorrê-los, em se apresentando ocasião; é abster-se, quer por palavras, quer por atos, de tudo o que os possa inutilizar; é, finalmente, retribuir-lhes sempre o mal com o bem, sem a intenção de degradá-los. (9)

Se assim procedermos, preencheremos as condições do preceito do Mestre Jesus: “Amai os vossos inimigos.”(10)

Referência bibliográficas
(1)            Rawan residia em  Meedi, uma cidade na província norte-ocidental de Hajjah , fronteira com a Arábia Saudita. A  menina foi vendida pelo padrasto para um saudita por cerca de R$ 6 mil, segundo o jornal alemão Der Tagesspiegel
(2)            Segundo os médicos, a Rawan morreu com hemorragia  no útero e alguns órgãos internos decorrente da união carnal
(3)            Disponível no site http://oglobo.globo.com/mundo/policia-do-iemen-nega-morte-de-menina-de-oito-anos-apos-lua-de-mel-com-marido-de-meia-idade-diz-site-9904846#ixzz2fpzsOAFH
(4)            Disponível no site http://www.ionline.pt/artigos/mundo/iemen-luta-banir-casamento-infantil-num-dos-paises-arabes-mais-pobres
(5)            Disponível no site http://www.ionline.pt/artigos/mundo/iemen-luta-banir-casamento-infantil-num-dos-paises-arabes-mais-pobres
(6)            A Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial da Saúde (OMS), item F65.4, define a pedofilia como "Preferência sexual por crianças, quer se trate de meninos, meninas ou de crianças de um ou do outro sexo, geralmente pré-púberes
(7)            Disponível  no site http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/27705/mais+de+200+milhoes+de+criancas+sofrem+violencia+sexual+no+mundo+diz+ong.shtml
(8)            Também conhecida como paedophilia erótica ou pedosexualidade
(9)            Mateus 5:44
(10)          Kardec, Allan. O Evangelho Segundo O Espiritismo, Cap. XII, Item 3, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2000

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

OS NOVOS CRISTÃOS NOVOS


Margarida Azevedo

Mem Martins, Sintra, 
Portugal

Esmagados pelas suas próprias incongruências, os cristãos estão a viver momentos conturbados, apesar de darem uma imagem de segurança e estabilidade. E tudo começa desde logo com o modo de estar dos novos tempos. Já não procuram defender um ideal de pureza e de fé como um valor mais alto. Os cristãos novos do terceiro milénio pretendem ser cientistas, sábios, peritos nas mais diversas matérias sem o que não vale a pena ser cristão, mais, nem se pode dizer como tal. Tudo tem que estar muito cientificamente provado, muito claro e esclarecido dentro dos mais céleres raciocínios matemáticos.
Os novos cristãos novos também já não são os bem ou mal convertidos, à força ou sem ela, resultado de uma evangelização perdida entre o positivo e o negativo, o sim e o não, a verdade e a mentira, o interesse e a gratuidade, os heróis e os mártires. Não, nada disso. Eles são um bando que sabe que já não convence, não converte, não ilude. Quem tiver que ser cristão já está convertido desde o nascimento. O novo cristão novo já nasce cristão, não precisa de ser convencido por ninguém. Mas nem por isso tem menos trabalho.
 O conhecimento científico de que é fiel seguidor tem-no conduzido à não fé e ao misticismo, como sua natural consequência. Qualquer destes pseudo-sábios é facilmente enganado pelo bruxo menos perspicaz. Estes cristãos ainda não perceberam que a fé tem um espaço próprio e que as questões existenciais não se encontram na lâmina de um bisturi nem no genoma humano. Apelar à adivinhação, do futuro distante ou de com quem vai casar, não é uma resposta em matéria de fé. Não se confunda crendice com a confiança incondicional de que há qualquer coisa, minuciosamente organizada, uma força incomensurável a que chamamos Deus; o indefinido que, por sua própria natureza, não cabe nas nossas cabeças jamais poderá ser redutível a adivinhos.
Nesta engrenagem de sistemas colossais, os antecessores destes cristãos deixaram-lhe uma herança negra: uma história ensanguentada e um futuro comprometido em termos de fé. Crer tem sido a grande violência à natureza humana, Deus o grande carrasco. É pena. Quem disse que amar é fácil?! Os cristãos novos precisam de se converter ao Cristo Redentor, que na Cruz superou a morte, não em termos teóricos, a morte não é uma teoria nem um ideal, mas em termos de fé numa realidade paralela plena de sentido. A Cruz é uma ponte para esse sentido, o qual é uma verdade de fé.
Ora, as verdades de fé, tais como os milagres de Jesus e os referidos em Actos dos Apóstolos, tornara-se tu cá, tu lá com a ciência. Tudo faz parte do ensino do cientista Jesus Cristo, o grande político, o exímio sociólogo. Isto significa que, se à semelhança dos tempos de Jesus lhe pediam um sinal, os cristãos novos pedem uma prova científica. Este o grande indício de que não percebem a mensagem de Jesus, que é toda ela um convite à reformulação constante do nosso interior, para a qual não precisamos de ser cientistas. Estamos dispensados de tal mercê. Estes cristãos novos, porque afogados nos seus cálculos, não encontraram a razoabilidade da destrinça entre fé e razão e o seu natural paralelismo.
Neste grupo incluímos parte considerável dos espíritas que pretendem justificar e explicar os feitos de Jesus. Dizer que Jesus foi o grande médium de Deus é reduzi-lo a muito pouco pois todos possuímos capacidades para executar algo semelhante. Compreenda-se que os seus “milagres/curas” não constituíam grande novidade ( o episódio da ressurreição de Lázaro é um caso à parte, tal como o acalmar da tempestade). Mas não é isso que está em causa. Os evangelhos não retratam Jesus como um homem preocupado em fazer algo novo, mas em conduzir o auditório a reflectir sobre a grandiosidade do Reino de Deus.
A questão, a grande questão e a grande novidade está em remeter o acto para uma fonte da qual brota toda a força, todo o existir, toda a felicidade no bem-fazer, e toda a fé naquilo para que o próprio acto remete. Jesus pretende demonstrar que cada homem e cada mulher é um agente ao serviço de Deus. Médiuns de Deus somos todos, ainda que perdidos nas nossas distorções e incongruências, porém mensageiros da Sua presença incondicional junto de nós quem o é? A fé tem sido a grande tragédia humana. Não sabendo conduzi-la, torna-se fantasmática, criadora de pesadelos, donde o maior é o medo do outro porque transformado num monstro ameaçador.
Por isso, a fé já não está em Deus mas na igreja que seguem; as interpretações dos textos fanatizaram-se porque encerradas na unicidade estéril dos discursos; os comportamentos não procuram agradar a Deus, mas estar conformes com as normas vigentes nas organizações. Resultado, a esterilidade implantou-se. Os sepulcros continuam caiados, as aparências vistosas, mas a fraternidade e o espírito de entrega ao outro continuam por fazer. Por que é que o mundo é um cosmos e não um caos? Por que é que há algo em vez de nada? Quem sou, de onde venho, por que estou aqui? Porque dependemos da luz do Sol para viver? O que é a Natureza? Onde estamos? Por mais científicas que sejam, e que efectivamente são, estas questões precisam do apoio da fé. A mitologia, e míticos somo-lo todos, felizmente, avança, através das mais belas epopeias, com respostas encantadoras.
A ciência vai lá. Se não for, perde-se. Quanto ao outro, é um actor, somos todos actores de epopeias. As nossas vidas não passam de tragédias onde a luta entre o individual e o colectivo é permanente, o particular e o geral se opõem. Cada pensamento, cada frase, cada palavra é acompanhado pelo coro que chama a uma outra razão, à existência de uma fé fora de nós, de uma vivência fora de nós, mas que temos que encarar como tão fundamental quanto a nossa.
O que fazer? Ir contra as regras da minha família, da minha educação, da minha igreja e assimilar em definitivo as da sociedade, ou permanecer fiel à educação, ao apego ao amor do que é meu, ainda e por mais que se diga que este é passageiro? Mas também o são aqueles a que chamamos colectivo! Que fazer? Qual a minha verdadeira identidade? O que sou e o que posso no meio desta engrenagem? Eis a nossa tragédia. Onde estou? A resposta passa inevitavelmente por isto: Estou do lado dos pobres, ainda que eu seja rico/a; estou do lado dos perseguidos, ainda que eu seja dos favorecidos; estou do lado daqueles a quem tudo falta, ainda que eu esteja na opulência; estou do lado dos doentes, ainda que eu seja saudável; estou do lado dos que sofrem injustiça, ainda que eu esteja do outro lado. Porquê? Porque eu sei que hoje é assim, mas amanhã pode não ser? Porque hoje os que padecem amanhã estarão felizes, os da miséria estarão na opulência.
Os que estão em terreno fértil estarão entre sulcos inférteis. Porque a vida irá proceder à respectiva cobrança, intransigentemente? Isso é muito pouco, é nada. Porque tudo o que fizermos deve ser totalmente gratuito. Não deve ser moeda para coisa alguma, porque o outro é um ser de dignidade, porque nada tememos, porque incondicionalmente nos depositamos nas mãos de Quem nos criou. Porque, em verdade, um gesto justo e correcto não tem preço. Nem de Deus. O Seu possível agrado é a justa medida de todos os nossos pensamentos e acções justos, ainda que comprimidos na nossa míope e frágil noção de justiça. Talvez! A gratuidade de Deus é a natural ausência da tragédia.
Deus não é um tragiógrafo, mas o Ser da graça. Em Deus nada tem preço. Então também as nossas acções não devem ter qualquer materialidade. Devem ser totalmente vazias de esperança, de bondade, de luz. Devem ser totalmente livres. A boa acção perde-se em si mesma. Basta-se, alegra-se, felicita-se porque ela e Deus são um só. Fundem-se e confundem-se. No Reino de Deus nada se paga porque tudo é o seu mesmo valor. Crendo-se detentores de toda a verdade, como sempre o fizeram, os cristãos novos vivem afogados no seu próprio estar desfasado perante o evangelho e o mundo, numa ruptura permanente onde a ciência toma ares de religião.
 Ora, os novos cristãos novos têm nas mãos a nobre quão difícil tarefa de converter este mundo à felicidade para que este deixe de viver a tragédia dos opostos, as lutas entre o colectivo e o particular. Como? Quando aquilo que cada um fizer for aquilo que desejaria que lhe fizessem. É que o colectivo tem muito de particular e o particular tem muito de colectivo. O particular é tudo o que existe, e tudo o que existe é o conjunto de todos os particulares. Neste passado que carregamos e que nos persegue tenaz, vivemos a luta quais titãs pela conquista da felicidade, a ânsia de um dia estarmos em paz.
Esse o maior bem, mas ao qual ainda se não converteram os novos cristãos novos porque eles são os velhos que ainda não ultrapassaram a barreira da sua realidade trágica.

 Margarida Azevedo

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A CIÊNCIA DO AMOR (*)


Luiz Carlos Formiga
Rio de Janeiro


Seu brilho parece um sol derramado,
um  céu prateado,  um mar de estrelas (1)


Um dos maiores preconceitos pode ser encontrado na Lepra. A pessoa com uma doença infecciosa curável, chamada Hanseníase, é discriminada. O preconceito se transfere para a atitude, aparecendo níveis de  afastamento, discriminação e segregação. (2)
Num Estado Democrático de Direito podemos encontrar guerra religiosa e práticas fanáticas. Entre nós temos duas torres gêmeas: a Umbanda e o Candomblé. Basta vestir branco para ser expulso da favela por “traficantes convertidos.”
A violência não é privilégio desta última classe de espíritos. Podemos encontrá-la na classe média. Não sei se o termo “classe média” é um  “pejorativo”.
No âmbito de uma comemoração, disse a professora universitária: “a classe média é o atraso de vida, estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista. A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e uma abominação cognitiva, porque é ignorante.”
Numa entrevista, outro cidadão comentava o povo nas ruas:
“(...) Essa realidade vai mudar. Se a população atacar, partir pro contra-ataque. Sou favorável  a arranhar carro de autoridade, a jogar ovo, sou favorável à revolta, ao quebra-quebra. Isso não é vandalismo. Vandalismo é botar pessoas quatro horas na fila das barcas todo dia. Vandalismo é roubar o dinheiro público.”
O Ministro Decano do STF, Celso de Melo, dia 18 de setembro de 2013, nos permitiu avaliar o estágio em que se encontrava, no final do julgamento da Ação Penal, rotulada como Mensalão.
Não é democrático ser violento. Necessitamos nos colocar acima da ideologia. Na sociedade atual, vamos encontrar estágios diferentes no processo evolutivo pessoal.
Em alguns, as consequências físicas determinam se a ação é um ato bom ou não. Os motivos morais são apenas baseados no desejo de evitar a punição.
Nos estágios iniciais o bom ou o certo é aquilo que satisfaz necessidades pessoais. Nesse nível quando a pessoa é agredida, ela também agride. Já existe a igualdade e a reciprocidade, no entanto apenas por motivos pragmáticos. Não há lealdade, gratidão ou justiça.
Em estágios avançados de conduta as pessoas já mostram respeito pela autoridade, pelas regras fixas e pela manutenção da ordem social.
A evolução caminha surgindo o respeito pelos direitos individuais, que são baseados no livre acordo. Embora se valorize o aspecto legal, já se admite a mudança da lei em função da utilidade social.
Num estágio posterior, as decisões são norteadas por Princípios Éticos selecionados, como justiça, reciprocidade, igualdade e respeito pela dignidade do ser humano. Nem tudo que é legal pode ser considerado moral.
Através desse processo evolutivo, foram surgindo Escolas Éticas (3), mas uma delas, a Ética Espírita, ainda não é considerada pela maioria dos estudiosos.
Na Ética das Virtudes buscava-se “O Caminho do Meio”.
Com Jesus, na Ética do Amor, aprendemos a “fazer ao outro o que gostaríamos que o outro nos fizesse”.
No estado atual da educação humana, é muito difícil alimentar, por mais de cinco minutos, conversação digna e cristalina, numa assembleia superior a três criaturas encarnadas, disse o espírito André Luiz pelo médium Chico Xavier.
No século XX, Harbermas nos fala que uma norma é válida, quando todos aqueles que possam ser afetados, por ela, a aceitam sem coação. Introduz prévia condição: que todos tenham tido livre participação no evento prático, na discussão, no discurso, que levou a formulação daquele acordo.
Sem coação, Allan Kardec brilhou, “parecendo um sol derramado no século XIX”.
Com ele nos permitimos ampliar o número de pessoas, no diálogo, na discussão, na assembleia requerida por Harbermas.
O pesquisador francês havia convocado as Pessoas Desencarnadas para a assembleia, onde haveria a participação no discurso prático. Nos oferece assim um tratado de “Psicologia Experimental”.
Na assembleia surge então o “mar de estrelas”, o “céu prateado”, o Sol da Ética Espírita com “O Livro dos Médiuns”.
Nele, vamos encontrar: “Espíritas amai-vos, este é o primeiro mandamento, instruí-vos, este é o segundo” (cap. 31, item 9).
Jesus sempre esteve em situação difícil, diante da crise, fase difícil, grave, onde todos estavam tensos, no conflito, queriam justiça com as próprias mãos, mas a mulher encontrou Nele o argumento que evitou o apedrejamento. (4)
Estamos diante de uma ética transdisciplinar, aquela que não recusa o diálogo, a discussão, seja qual for sua origem – de ordem ideológica, científica, religiosa, econômica, política ou filosófica.
O espírita deverá reconhecer que o saber compartilhado conduzirá a uma compreensão também  compartilhada,  baseada no respeito absoluto das diferenças entre os seres, unidos pela vida comum sobre Terra, no terceiro milênio (5)
Já Emmanuel, outro espírito, pelo mesmo médium, disse que “quando uma centésima parte do Cristianismo de nossos lábios conseguir expressar-se em nossos atos de cada dia, a Terra será plenamente libertada do mal”. (**)
Espíritas, não somos muitos. Que não nos abata o pequeno número de colaboradores, que possamos lembrar a advertência de Emmanuel, em termos de “centésima parte”.
Jesus, O Mestre, começou o apostolado buscando o concurso de Pedro e André. (6)

(*) Texto elaborado para a reunião dos 15 anos de funcionamento do NEU-RJ.
(**) Oliveira, Alkíndar. Decálogo do Expositor Espírita. Mundo Espírita. Página 2, fevereiro de 1998.

Leitura adicional
(1) Filhos de Gandhi
(2)Termos preconceituosos relacionados a deficiências, principalmente à hanseníase
 (3) Gontijo, J.T. 2011. Ética Espírita – Um esforço para delineação.
(4) Crises e Argumentos. CEERJ
(5) Ética, Sociedade e Terceiro Milênio
(6)  Emmanuel, Francisco C. Xavier. “Cristo e Nós”. Livro Fonte Viva, FEB Editora.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

“CURANDEIROS ENDEUSADOS”, CIRURGIÕES DO ALÉM – SOB OS NARCÓTICOS INSENSATOS DO COMÉRCIO

Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

Após leitura de intrigante reportagem da Revista VEJA, deliberamos reproduzir e contextualizar alguns trechos da matéria publicada. Intitulada “A face humana do mais endeusado médium brasileiro” (1), a revista destacou a capacidade do famigerado médium de atrair gente do mundo inteiro para um município próximo do Distrito Federal. Afirma a reportagem que o “santificado médium” vive o cotidiano sob o manto da contradição entre o “espírito e a carne”, a “cura e a doença”, o “desprendimento e a vaidade”, os gestos de “generosidade, os arroubos de cólera” e os negócios terrenos (2) [é milionário], os amores [tem onze filhos com dez mulheres diferentes]. A cada dois anos o “curandeiro-endeusado do cerrado” troca a frota de carros da família. O dele é um Mohave Kia, avaliado em 170 000 reais.”. (3)
Sabemos que a mediunidade não guarda relação com o desenvolvimento moral; seu funcionamento independe das qualidades morais, assim como o coração pulsa independentemente dos sentimentos bons ou maus que a pessoa alimente. O fato é que os médiuns de tais “cirurgiões do além” sempre seduzem grande número de fregueses, estabelecendo, não raro, com a mediunidade, um negócio rendoso, uma polpuda fonte de captação de dólares e reais. Para comprovar, consideremos o fato aqui comentado. Chequemos o seguinte: o PIB - Produto Interno Bruto - do município onde o “médium-feiticeiro do cerrado” comercializa disfarçada e generosamente a “cirurgia transcendental” é de 15 milhões de reais ao ano. No mesmo período, a instituição dirigida por tal “deus da mediunidade de cura” “ tem faturamento de, no mínimo, 7,2 milhões de reais, levando-se em conta exclusivamente o comércio de passiflora, preparado à base de maracujá, produzido ali mesmo, vendido a 50 reais o frasco e receitado a uma média de 3.000 visitantes semanais.”. (4)
Por sérias razões, não apreciamos e sequer indicamos esse tipo de mediunidade, embora, excepcionalmente, acatemos os efeitos mediúnicos atingidos por alguns poucos médiuns humildes e honestos. Infelizmente alguns “deuses dos bisturis”, que promovem cirurgias com auxílio de supostos médicos do além, conseguem robustecer suas contas bancárias. Há algumas décadas Chico Xavier advertiu: “Creio que isto deva ser fruto da educação da pessoa simplória, acreditar que, pagando bem, irá conseguir curas espirituais. O verdadeiro Espiritismo não pode cobrar, nem mesmo os remédios que receita aos doentes. Também sou contra essa estória de meter instrumentos cortantes no corpo dos outros, sem ser clínico. O médico estudou bastante anatomia, patologia e, por isso, está habilitado a fazer uma cirurgia. Por que eu, sendo médium, vou agora pegar uma faca e abrir o corpo de um cristão sem ser considerado um criminoso?”. (5)
O médium de Pedro Leopoldo disse que foi operado pelos médicos terrenos cinco vezes, e vários médiuns lhe ofereceram seus serviços. “O Espírito Emmanuel lhe repreendeu: Você deveria ter vergonha até em pensar em receber esse tipo de cura, porque todos os outros doentes vertem sangue, usam éter, tomam determinados remédios para melhorar. Como você pretende se curar numa cadeira de balanço?”. (6)
Do exposto, indagamos o seguinte: como ajuizarmos atualmente esses “curandeiros e cirurgiões do além”? Chico Xavier, quando estava para se submeter a uma cirurgia, em 1968, de um tumor na próstata, Zé Arigó [que não era espírita], mandou lhe avisar que estava pronto para realizar a operação. Chico respondeu: “como é que eu ficaria diante de tanto sofredor que me procura e que vai a caminho do bisturi, como o boi vai para o matadouro? E eu, sabendo disso, vou querer facilidades? Eu tenho é que operar [com médicos encarnados] como os outros, sofrendo com eles! (7) Por isso, o Espírito André Luiz advertiu para "aceitar o auxílio dos missionários e obreiros da medicina terrena, não exigindo proteção e responsabilidade exclusivos dos médicos desencarnados”. (8)
É deplorável que os médiuns evoquem "Espíritos" para que lhes atendam como “cirurgiões do além” a fim de retalhar e perfurar corpos em nome de “operações espirituais”, que lhes prescrevam placebos. É lamentável essa tendência de subestimar a contribuição da medicina humana, entregando nossas enfermidades aos Espíritos “curandeiros do além” (preferencialmente com nome germânico ou hindu) para que "curem" doenças. Precisamos "aproveitar a moléstia como período de lições, sobretudo como tempo de aplicação de valores alusivos à convicção religiosa. A enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé”. (9)
Não desconhecemos a plausível intervenção dos desencarnados nos processos terapêuticos na Terra, mas não se pode dar proeminência a esse tipo de trabalho, na suposição de curas ou na pérfida ideia de robustecimento do Espiritismo por esses meios. É urgente não abrirmos mão da precaução! Ainda mesmo que o excesso em tudo seja prejudicial. Contudo, Kardec endossa nossa atitude dizendo que “vale mais pecar por excesso de prudência do que por excesso de confiança". (10)
Acreditamos que as "terapias alternativas", "curandeirismos" e a fascinação na prática mediúnica, são fatores que têm desestabilizado o plano [da união] entre os espíritas e da unidade doutrinária. (11) É pouco significante que um “cirurgião do além-túmulo” faça desaparecer anomalias inibidoras ou deformantes do corpo, até porque o perispírito conservará a patologia, que vai se projetar para reencarnações futuras, exceto que nos ajustemos com a lei da justiça, cobrindo com amor a "multidão de pecados" que carregamos. Jamais olvidemos que a cirurgia transcendente pode até mesmo refrear temporariamente as doenças físicas, mas o amor, trabalhando nos tecidos sutis da alma, cura, purifica e redime para a eternidade.
Segundo Divaldo Franco, “é uma temeridade transformar o centro espírita em pequeno hospital para atendimento de todas as mazelas; isso é uma loucura, é um desvio da finalidade da prática do Espiritismo. Podemos, sim, fazer uma atividade de atendimento a doentes que são portadores de problemas na área da saúde espiritual. Poderemos aplicar-lhes passes, doar-lhes a água fluidificada, se for o caso; mas a função principal do Centro Espírita é iluminar a consciência daqueles que o buscam.”. (12)
Ressalta o tribuno baiano que certa vez o Espírito do “Dr. Fritz” quis operar Chico Xavier, em 1965, através do médium não espírita Zé Arigó: - "Eu te ponho bom desse olho. Faço-te a cirurgia agora! Pronunciou Arigó, e Chico Xavier respondeu-lhe: - "Não, isso é um karma. Eu sei que o senhor pode consertar o meu olho. Mas como o karma continuará, vai aparecer-me outra doença. Como eu já estou acostumado com essa, eu a prefiro. Por que eu iria querer uma doença nova?". (13)
Os Espíritos não estão a disposição para promover curas de patologias que não raro representam providências corretivas para nosso crescimento espiritual no buril expiatório.

Nesse sentido, os dirigentes de núcleos espíritas deveriam promover bases de estudos e reflexões sobre as propostas filosóficas, científicas e religiosas do Espiritismo, em vez de encetarem trabalhos espirituais para os inócuos "curanderismos".

Referências bibliográficas:

(1) Disponível em http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/joao-do-ceu-e-da-terra-508 acesso em 14/09/2013
(2) Suas economias vêm do garimpo. Ele é dono de fazendas na região, é proprietário de apartamentos em Brasília, Goiânia, Anápolis e Abadiânia.
(3) Disponível em http://vejabrasil.abril.com.br/brasilia/materia/joao-do-ceu-e-da-terra-508 acesso em 14/09/2013
(4) Idem
(5) Entrevista, concedida aos jornalistas goianos Batista Custódio — Diário da Manhã — e Consuelo Nasser — Revista Presença —publicado no jornal “Goiás Espírita” — órgão de divulgação da Federação Espírita do Estado de Goiás — edição 284, de janeiro/fevereiro de 1988
(6) Idem
(7) Idem
(8) Vieira, Waldo. Conduta Espírita, Ditado pelo Espírito André Luiz, Cap.35. RJ: Editora FEB, 1977-5ª edição
(9) Idem
(10) Kardec, Allan. Viagem Espírita-1862, Brasília, Ed. Edicel, 2002, pág. 33
(11) Franco. Divaldo. Publicado no jornal Alavanca - abril/maio-2000 
(12)Entrevista com Divaldo Franco publicado no jornal "A Gazeta do Iguaçu" em julho de 1997

domingo, 15 de setembro de 2013

O ALTRUÍSMO E EGOÍSMO NUMA CONCISA PONDERAÇÃO ESPÍRITA


Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

Novas pesquisas revelam que o princípio da evolução pode ocorrer em termos bem mais caritativos do que habituamos conceber.  Contrariando a velha tese de Charles Darwin que sugeria ser melhor para o homem tomar decisões favorecendo a si mesmo (egoísmo), estudiosos têm alegado que o princípio evolucionista só favorece aos altruístas. Tais pesquisas atestaram que se os homens elegessem desempenhar relações egoístas, a raça humana poderia ter sido extinta do planeta. Assim a abnegação e o espírito cooperativo trazem a conservação da humanidade. (1) 
Edward Wilson, da Universidade de Harvard, Estados Unidos, afiança que a evolução do altruísmo é o problema teórico central da sociobiologia (2). A questão já intrigava o Pai da Teoria da Evolução, que em 1871, no livro “A Origem do Homem”, utilizou a seleção de grupo para explicar a evolução da moralidade humana. Darwin defendia que o comportamento moral não traz vantagem para o indivíduo, que lucraria mais desobedecendo as regras para agir de acordo com sua vontade própria. Embora, reconheça que uma tribo regida por valores que enfatizem “o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e solidariedade” certamente será mais coesa e organizada e assim terá maiores chances de vitória na disputa por recursos naturais ou territórios com tribos menos virtuosas. Destarte, a seleção natural agiria não somente sobre indivíduos, mas também sobre grupos competidores. 
Na visão do biólogo Robert Trivers, da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, os seres humanos, são menos cooperativos do que os insetos sociais [formigas e abelhas]. Entretanto, os seus colegas Williams Hamilton, considerado um dos maiores teóricos da evolução de todos os tempos e Richard Dawkins, da Universidade de Oxford,  entendem que a natureza não é pródiga e guarda tantos ou mais exemplos de egoísmo quanto de altruísmo.  (3)
Alguns teóricos afirmam que entre os humanos há um sistema de altruísmo recíproco com um meio de troca – o dinheiro – que uniu o mundo inteiro em uma economia interligada, mas com muito mais conflito interno e muito menos altruísmo. Afirma-se que  quem é altruísta aos “seus” não é generoso – é nepotista. (4) Será que  podemos qualificar de altruísmo aquilo que fazemos com vistas a uma retribuição futura? Fica a sensação de que, sob a pele de cordeiro do altruísmo, vamos sempre encontrar um lobo egoísta. Aliás, é exatamente o que afirmou em 1974 o biólogo americano Michael Ghiselin: “arranhe um altruísta, e você verá um egoísta sangrar”. (5)
A palavra "altruísmo" foi cunhada em 1831, por Augusto Comte, Pai do Positivismo, para caracterizar o conjunto das disposições humanas (individuais e coletivas) que inclinam os homens a dedicarem-se aos outros. Esse conceito opõe-se, portanto, ao egoísmo, que são as inclinações específica e exclusivamente individuais (pessoais ou coletivas).
O pensador Samuel Bowles (6) coloca  em dúvida a teoria do Darwin sobre ideia de que os homens são inteiramente egoístas. O comportamento humano é muito mais complexo do que a teoria da evolução supõe. Para Bowles a seleção natural pode produzir espécies altruístas e cooperativas. Diversas pesquisas que realizou demonstraram que a seleção natural pode produzir espécies altruístas e cooperativas – em vez de seres humanos inteiramente egoístas. No ponto de vista de Samuel Bowles, o naturalista Charles Darwin estava errado. 
Bowles radicaliza sua tese  ao afirmar que as pessoas se ajudavam antes de existir a bíblia. Para ele, ajudar é um ato humano,  sem necessariamente estar relacionado a aprendizagem de uma religião. A maioria das pessoas não age de maneira egoísta, como se acreditava  antigamente à luz da teoria da evolução ,até porque,  menos de um terço das pessoas é egoísta. O mundo está se tornando mais altruísta e menos egoísta segundo a concepção de Bowles. (7)
Será que a tese de Bowles procede? As instruções dos Espíritos não confirmam.  “Tendo o Espiritismo, a tarefa de colaborar para o desenvolvimento moral da humanidade, o que elevará a Terra na hierarquia dos mundos, o egoísmo é o alvo, para o qual, os espíritas, principalmente, “devem dirigir suas armas, suas forças e sua coragem”, combatendo-o em si próprio. ”(8) O egoísmo, considerado por Emmanuel, como o “filho do orgulho” e o “monstro devorador de todas as inteligências”, porque as domina, direcionando- as para o mal, a dor e o sofrimento, “é a fonte de todas as misérias terrenas”, porque leva o homem a pensar somente em si, impedindo-o de fazer crescer o amor, inerente em si, no ser espiritual, em potencialidade a ser desenvolvida por sua vontade. “A Terra é um planeta surpreendente, um rico educandário, mas o único elemento que aí destoa da Natureza é justamente o  homem, avassalado pelo egoísmo. O atual estado de espírito do homem moderno, que tanto se preocupa  com o “estar bem na vida”, “ganhar bem” e “trabalhar para enriquecer” constitui forte expressão  de ignorância dos valores espirituais na Terra, onde se verifica a inversão de  quase todas as conquistas morais.  Esse excesso de inquietação, no mais desenfreado egoísmo, tem provocado a crise moral do mundo. Em face disso os maiores  obstáculos que Deus encontra em nós, para que recebamos os seus socorro  indireto, afetuoso e eficiente são oriundos da ausência de humildade  sincera nos corações; para o exame da própria situação de egoísmo.” (9)
As anomalias morais nos procedimentos de desordem e de brutalidade são indícios de atraso moral ou de estacionamento no exclusivismo. “As criaturas, de um modo geral, ainda têm muito da tribo, encontrando se encarcerados nos instintos propriamente humanos, na luta das posições e das  aquisições, dentro de um egoísmo quase feroz, como se guardassem consigo,  indefinidamente, as heranças da vida animal.” (10)
A Doutrina Espírita expõe que na  eclosão dos manifestos egoísticos, inatos no seres humanos,   há sempre o sabor amargo da inutilidade no coração dos seres desenganados pela hegemonia do individualismo. Nesse sentimento de frustração pode degustar a expansão de suas buscas irresistíveis e  profundas para o “mais alto”. Nesse ensejo, o altruísmo, a fraternidade e o amor conquistam uma nova expressão no íntimo da criatura, a fim de que o homem  possa alçar o grande voo para os mais excelsos destinos.


Referências bibliográficas:
(1) Divulgado pela publicação científica Nature Communications e disponível em http://super.abril.com.br/ciencia/evolucao-bondade-443958.shtml acesso em 12/09/2013
(2) Ciência que busca entender em bases biológicas o comportamento social dos seres
(3) Disponível em http://super.abril.com.br/ciencia/evolucao-bondade-443958.shtml acesso em 12/09/2013
(4) Idem
(5) Idem
(6) Conselheiro econômico em Cuba, na Grécia, do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela e dos ex-candidatos à Presidência dos Estados Unidos Robert F. Kennedy e Jesse Jackson. Seus estudos sobre a evolução genética e cultural dos humanos têm repercutido em publicações de prestígio, como as revistas “Nature” e “Science”
(7) disponível em http://www.istoe.com.br/assuntos/entrevista/detalhe/129045_CHARLES+DARWIN+ESTAVA+ERRADO+
(8) Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo XI: Amar o próximo como a si mesmo, Instruções dos Espíritos: o egoísmo, item 11, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2001
(9) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1990, perguntas  68 72 125  183  313  348  410
(10) Idem

terça-feira, 10 de setembro de 2013

POR QUE UM NÚCLEO ESPÍRITA NA UNIVERSIDADE?

Luiz Carlos Formiga

(...) Hoje mamãe me falou de vovó, só de vovó,
Disse que no tempo dela era bem melhor
Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão
Tinha-se mais amizade e mais consideração 
Disse que naquele tempo a palavra de um mero cidadão
Valia mais que hoje em dia uma nota de milhão
Disse afinal que o que é liberdade
Ninguém mais hoje liga, isso é coisa da antiga! (*)



O Núcleo Espírita Universitário da Universidade do Estado do Rio de Janeiro completa agora quinze anos de funcionamento. Já produziu alguns frutos de amizade e consideração e, também, um despretensioso Blog (1). Afinal “a Vila não quer abafar ninguém...”.


No futuro a "Nova Universidade" estará aberta aos temas do espírito, ela será erguida com uma Ciência que investigará os conceitos da Filosofia e que trará de volta a ideia de Deus. Uma Ciência que além de inquirir como são as coisas, intenta responder ao porquê. Com uma Filosofia de caráter científico e uma Ciência com consequências religiosas. 

"No quadro dos valores racionais, Ciência e Filosofia se integram objetivando as realizações do Espírito. Completam-se como dois grandes rios, que servindo as regiões diversas, na esfera de produção indispensável à manutenção da vida, se reúnem em determinado ponto do caminho, para desaguarem, juntas, no mesmo oceano que é o da sabedoria."

Temos que nos esforçar para participar desta revolução do pensamento se não desejarmos continuar no papel de comparsas da tirania e da destruição. Daí a necessidade da Ética que ilumine as consciências na melhoria das características morais do homem.

A assimilação de um novo paradigma é lenta e difícil porque demanda abertura mental, estudo, reflexão e crítica. Haverá resistência, principalmente pela exigência de mudanças ética. Mas, é necessário mudar. A sociedade anômica, o "levar vantagem em tudo", gerou a indiferença nas relações sociais e o caos na sociedade.

A discussão do "post-mortem" não pode ser ignorada, pois exerce influência sobre as questões de Ética.

A democracia no mundo e as necessidades de cooperação econômica desembocam na manifestação livre das diversas culturas, induzindo o mundo ocidental a ampliar o seu universo cultural. Há uma revalorização da importância da religião, enquanto agente de movimentação social.

A revolução é agora e começa quando abrimos as portas à ética e à fé. A fé, que terá "por templo o universo, por altar a consciência, por imagem Deus e por Lei o mandamento do amor em ação, resumido por Jesus na categoria do próximo". A fé que atua pelo amor. Na sociedade, assim organizada, ninguém morrerá de fome. (2)





(*) Moreira , W. & Lopes, N. Coisa da Antiga.

http://www.vevo.com/watch/mariene-de-castro-zeca-pagodinho/coisa-da-

antiga-ao-vivo/BRUV71300005

(1) NEU-UERJ convida para palestra comemorativa de seus 15 anos.

http://neu-uerj.zip.net/

(2) Conselho Espírita do Estado do Rio de Janeiro



http://www.ceerj.org.br/portal/artigos/66-diversos/1492-

sexo-artigo-de-compra-e-venda

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

TALISMÃS, FITINHAS DO “SENHOR DO BONFIM” E OUTROS AMULETOS NUM CONCISO COMENTÁRIO ESPÍRITA


Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

Para o enredo místico os “talismãs são objetos de proteção, imantados de força magnética, ao qual se atribui um poder sobrenatural de realização dos desejos do usuário. Os amuletos são os objetos consagrados através da magia que devem ser usados junto ao corpo (anéis, correntes, medalhas). Segundo creem, um objeto sagrado tem uma função (proteger, vincular, aproximar) determinada pela sua forma no plano material (gravura, anel, estátua, medalha, porta-incenso). Por outro lado, a natureza da energia que pode ser canalizada pelo objeto varia de acordo com o símbolo ou divindade que este objeto represente.”(1)
Acatamos fraternalmente o nível moral de quem usa e crê na eficácia dos talismãs e amuletos,  entretanto, quem utiliza  cristaliza a fé, razão pelo qual não recomendamos o uso de implementos místicos ,  até porque são inúteis e completamente dispensáveis. Na compreensão espírita “a virtude dos [talismãs e amuletos] de qualquer natureza que seja,  não existe senão na imaginação das pessoas crédulas[ingênuas].”(2)
O Espiritismo e o magnetismo elucidam uma vastidão de fenômenos sobre os quais a ignorância teceu um sem-número de fantasias mitológicas, em que os eventos se oferecem excedidos pela imaginação. “O conhecimento lúcido dessas duas ciências [Espiritismo e o magnetismo] constitui o melhor preservativo contra as ideias supersticiosas, porque revela o que é possível e o que é impossível, o que está nas leis da Natureza e o que não passa de ridícula crendice.”(3)
Os Espíritos Superiores dizem que os crédulos na força do talismã podem atrair seres espirituais de qualquer natureza, posto ser o pensamento a energia induzidora enquanto o apetrecho tão somente uma referência que conduz o pensamento. A rigor, “a virtude dos talismãs, de qualquer natureza que sejam, jamais existiu, senão, na imaginação das pessoas crédulas."(4) Deste modo, não há nenhuma palavra sacramental, nenhum sinal cabalístico, nenhum talismã que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porque eles são atraídos somente pelo pensamento e não pelas coisas materiais. 
A realidade é que  “a natureza do Espírito atraído terá afinidade com a pureza da intenção e da elevação dos sentimentos; porém, obviamente,  quem assenta fé na virtude de um talismã tem um intento mais material do que moral, isso denota em muitos casos uma inferioridade e fraqueza de ideias que o expõem aos Espíritos imperfeitos e zombeteiros.”(5) Os Instrutores espirituais, em todos os tempos, condenaram o emprego de sinais e das formas cabalísticas, e todo [encarnado ou desencarnado] que lhes atribui uma virtude qualquer, ou  pretenda valorizar  talismãs que tangem para a magia, revela, com isso, sua inferioridade, esteja agindo de boa fé ou por ignorância.
Não negamos a relativa influência oculta de certos objetos de uso pessoal (joias, por exemplo) que parecem funestos magneticamente. Emmanuel explana que os objetos, principalmente de uso pessoal, “têm a sua história viva e por vezes, podem constituir o ponto de atenção das entidades perturbadas, de seus antigos possuidores no mundo; razão porque parecem tocados, por vezes, de singulares influências ocultas, porém, nosso esforço deve ser o da libertação espiritual, sendo indispensável lutarmos contra os fetiches, para considerar tão somente os valores morais do homem na sua jornada para o Perfeito.”(6)
Os Espíritos que aconselham sinais, palavras extravagantes ou receitam determinadas fórmulas secretas são seres primários que caçoam e brincam com a ingênua credulidade dos incautos. Há pessoas que atribuem poderes nas defumações domésticas a fim de afastar os “maus” espíritos do lar, será isso eficaz? Obviamente, não! Quando muito a fumaça poluirá a atmosfera e, quem sabe! Espante algumas muriçocas e carapanãs, mas quanto aos obsessores, não haverá qualquer efeito. A fuligem defumatória tão somente sinalizará aos espíritos zombeteiros que em tal ou qual moradia residem crendices e superstições, portanto, ambiente fértil e facilmente influenciável por eles. Portanto, não exercendo qualquer controle sobre os Espíritos [bons ou maus], a defumação é completamente ineficaz para suposta proteção da influência dos Espíritos.
Kardec adverte que “não há [qualquer força sobrenatural], para alcançar esse [ou aquele] objetivo, nem palavras sacramentais, nem fórmulas, nem talismãs, nem quaisquer sinais materiais [riscados, cantados, defumados, fitas do Senhor do Bonfim etc]. Os maus Espíritos disso se riem e se alegram frequentemente em indicarem [tais apetrechos]. [Tais seres zombeteiros] sempre têm o cuidado de se dizer infalíveis, para melhor captar a confiança daqueles que querem enganar, porque então estes confiantes na virtude do procedimento, se entregam sem medo."(7)
Por razões lógicas o Espiritismo não adota e nem usa em suas reuniões e em suas práticas: altares, imagens, andores, velas, procissões, sacramentos, concessões de indulgência, paramentos, bebidas alcoólicas ou alucinógenas, incenso, fumo, talismãs, amuletos, horóscopos, cartomancia, pirâmides, cristais, búzios ou quaisquer outros objetos, rituais ou formas de culto exterior. Até porque os Espíritos são atraídos somente pelo pensamento; portanto, nenhum talismã, amuleto, palavra sacramental, sinal cabalístico ou qualquer tipo fórmula exterior poderá exercer qualquer influência sobre eles. 
Respeitamos os que creem na influência dos talismãs da felicidade pessoal, porém somos convidados a informar que o talismã para a felicidade pessoal, definitiva, se constitui de um bom coração sempre afeito à harmonia, à humildade e ao amor, no integral cumprimento dos desígnios de Deus.  

Referência bibliográfica:
(1) Disponível em http://mistico.com/p/talisma/ acesso em 23/08/13
(2) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282-17ª, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1991
(3) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos,  perg. 555, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1994
(4) Kardec, Allan. O Livro dos Médiuns, 2ª parte, cap. XXV, item 282-17ª, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1991 
(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos,  perg. 553 e 554, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1994
(6) Xavier, Francisco Cândido. O Consolador, ditado pelo Espírito Emmanuel,  perg. 143, Rio de janeiro: Ed. FEB, 1997
(7) Kardec, Allan. Revista Espírita,  dezembro de 1862, Brasília: Ed. Edicel, 2002

domingo, 8 de setembro de 2013

OS TRANSGÊNEROS SOB O ENFOQUE DE UM ESPÍRITA


Jorge Hessen
http://aluznamente.com.br

Wren Kauffman, um garoto canadense de 11 anos , vai voltar à escola nesta semana sem omitir um fato importante de sua vida - ser transgênero, isso é, ter nascido como menina. Wren, como outros casos já registrados, se reconhece como uma pessoa do sexo oposto.  Estudos citados pela Associated Press indicam que seis em cada mil estudantes vivem a experiência de ser transgênero. 
Professores e colegas no colégio onde Wren estuda sabem a verdade - que ele, cujo nome original era Wrenna, vive e sente-se como um garoto. Sempre odiou usar vestidos, é fã do homem-aranha e se vestiu de super-herói em um Dia das Bruxas. Quando tinha cinco anos, Wren fez sua mãe levá-lo para cortar o cabelo bem curto - ele queria ficar parecido com um dos atores da série "High School Musical". Kauffman afirma não se lembrar do momento em que não se identificou com o sexo masculino. (1)
A partir de 1º de novembro de 2013, a justiça alemã oferecerá aos pais de recém-nascidos transgênero três opções para registrar seus filhos: “masculino”, “feminino” e “indefinido”. (2) Deste modo, os germânicos serão os primeiros europeus a oficializar o terceiro gênero. Sob o ponto de vista espírita é compreensível que esses pais optem por “terceiro gênero” para registro de nascimento. A sociedade dá sinais de avanço para compreender que o ser humano não se reduz a morfologia de macho ou fêmea.  Encontramo-nos  diante  do fenômeno  “transexualidade” perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação. 
Inobstante as características morfológicas, o Espírito reencarnado, em trânsito no corpo físico, é essencialmente superior  ao simples gênero masculino ou feminino. O Espírito Emmanuel adverte que aprenderemos, gradualmente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como  agentes mais elevados de definição da dignidade humana, de vez que a individualidade, em si, exalta a vida comunitária pelo próprio comportamento  na sustentação do bem de todos ou a deprime pelo mal que causa com a parte que assume no jogo da delinquência.”(3)
A lei alemã(4) é protegida por decisão do tribunal constitucional, estabelecendo que pessoas profundamente identificadas com um determinado gênero têm o direito de escolher seu sexo legalmente. Com isso, abre a possibilidade de o Espírito reencarnado, ao se tornar fisicamente adulto, escolher posteriormente se prefere ser definido como homem ou mulher segundo sua composição psíquica. Ou até mesmo seguir com o sexo [morfologicamente] indefinido pelo resto da vida. 
Para os Benfeitores espirituais “as características sexuais dos Espíritos fogem do entendimento humano, até porque são os mesmos os Espíritos que animam os corpos de homens e as mulheres. Para o Espírito; (re)encarnar no corpo masculino ou feminino [acrescentamos corpo sexualmente indefinido] pouco lhe  importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.” (5)Os Espíritos encarnam como homens ou como mulheres, porque não têm sexo. “Visto que lhes cumpre progredir em tudo, cada sexo [experiência masculina ou feminina], como cada posição social, lhes proporciona provações e deveres especiais e, com isso, ensejo de ganharem experiência. Aquele que só como homem [ou mulher] encarnasse só saberia o que sabem os homens [as mulheres].” (6)
Notemos o que nos explica o Espírito Emmanuel. (7)  Através dos milênios, o Espírito  passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas.O homem e a mulher serão, desse modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculino ou  acentuadamente feminina, sem especificação  psicológica absoluta. A face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice versa, ao envergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segregue, verificando-se análogo  processo com referência à mulher nas mesmas circunstâncias. 
Em vista do exposto, o Espírito ao renascer pode adotar um corpo feminino ou masculino, não somente atendendo-se ao imperativo de encargos particulares em algum setor de atuação, como igualmente no  que pertence a comprometimentos regenerativos. O ser que abusou das capacidades genésicas, arruinando a vida de outras pessoas com o aniquilamento de uniões construtivas e lares distintos, em muitos casos é levado a procurar nova experiência sexual, na reencarnação, em corpo morfologicamente inverso à sua natureza psíquica, aprendendo, em regime de prisão, a reajustar os próprios sentimentos. 
Observadas as tendências homossexuais dos Espíritos reencarnados nessa faixa de prova ou  de experiência, é forçoso se lhes dê o amparo educativo  adequado, tanto quanto se administra instrução à maioria heterossexual. E para que isso se verifique em linhas de justiça e compreensão, caminha o mundo de hoje para mais alto entendimento dos problemas do amor e do sexo, porquanto, à frente da vida eterna, segundo o Mentor de Chico Xavier “os erros e acertos dos irmãos de qualquer procedência, nos domínios do  sexo  e do amor, são analisados pelo  mesmo elevado  gabarito de Justiça e Misericórdia. Isso porque todos os assuntos nessa área da evolução e da vida se especificam na intimidade da consciência de cada um.”(8) 
A propósito, indicamos leitura dos artigos publicados nos links http://aluznamente.com.br/legitima-visao-crista-da-homossexualidade/ e     http://aluznamente.com.br/uma-visao-espirita-do-homossexualismo-sem-o-dissimulado-purismo-cristao/


Referências bibliográficas:
(1) Disponível em http://www.marataizes.com.br/noticias/news.php?codnot=298361acesso 05/09/2013
(2) Disponível http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2013/08/130820_alemanha_terceirosexo_dg.shtml 03/09/2013
(3) Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1997, Cap. Homossexualidade
(4) A lei só contempla bebês que tiveram diagnóstico médico de hermafroditismo.
(5) Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, Parte 2ª - Capítulo IV - DA PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS – Sexo nos Espíritos, questões 200, 201 e 202.
(6) Idem .
(7) Xavier, Francisco Cândido. Vida e Sexo, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1997, Cap. Homossexualidade
(8) Idem


sábado, 7 de setembro de 2013

A QUESTÃO DO LIVRE ARBÍTRIO



O Livro dos Espíritos (LE). Questão 843: O homem tem livre arbítrio nos seus atos?
- Pois se tem a liberdade de pensar, tem a de agir. Sem o livre arbítrio o homem seria uma máquina.

Na última reunião das sextas-feiras na Casa Espírita, quando o grupo estuda o Livro dos Espíritos, depois da prece de abertura, o coordenador anunciou para os frequentadores que iriam tratar da questão do Livre Arbítrio. A seguir, disse o seguinte: - Deus, Supremo Bem, na Sua Infinita Bondade, concedeu ao homem a Lei do Livre Arbítrio e o homem, por sua vez, sentindo-se livre para agir criou o Mal. Via de consequência desse antagonismo, o homem tem sofrido as dores de suas nefastas ações. Não sem justa razão, porquanto com a Lei do Livre Arbítrio, cada ser humano se torna o único responsável por seus atos e omissões.
Foi aí que Josué perguntou: - Como assim, então não é Deus quem castiga por nossos erros?
- Não, retrucou Letícia. Quando nós usamos o livre arbítrio para agirmos ou nos omitir, assumimos a responsabilidade dos nossos atos ou omissões. Assim, se praticarmos o mal, seremos responsáveis e então sofreremos as consequências do que fizemos ou deixamos de fazer. Da mesma forma - continuou Letícia, - se praticarmos o Bem, os méritos dos atos ou omissões ser-nos-ão contados com o gabarito respectivo, diante da Justiça Divina.
Josué insistiu: - Deus não é a Suprema Sabedoria, Aquele que tudo sabe, que tudo conhece? Então por que Ele permite que o homem crie o Mal?
- A Lei de Liberdade dada por Deus é plena, jamais um arremedo como muitos artigos da legislação humana e, por isso, o Criador mesmo conhecendo antecipadamente tudo, respeita a livre vontade da criatura que pode trilhar o caminho do Bem ou do Mal, pois a prova, a que se vê submetido o homem, é importante para a conquista de méritos ou deméritos conforme a escolha feita - interveio Caio depois de autorizado pelo  Coordenador.
Parecendo inconformado, Josué inquiriu: - Então porque dizem que Deus castiga?
Caio, novamente: - nem tudo que dizem tem procedência. Tanto é que chegam a acusar Deus de ser culpado das mortes das pessoas, principalmente quando se trata de crianças ou de jovens  fortes e saudáveis.
Caio, então contou: num certo país da Ásia, um monge e seu discípulo que estavam caminhando a dias, ao cair da tarde, pediram pousada num casebre onde moravam além do casal paterno mais cinco filhos todos adultos. O hóspede observou que havia grande miséria e quase nenhum alimento ali naquela morada e que todos viviam à custa do leite de uma vaquinha. Durante a noite, quando todos dormiam, discretamente, o monge acordou o seu discípulo e tangeram a vaquinha até um precipício de onde ela foi empurrada e morreu na queda. Questionado pelo aluno, o monge respondeu que aquilo tinha sido necessário e com o tempo ele descobriria a razão daquele ato. Voltaram aos seus leitos e pela manhã, enquanto os donos da casa e seus filhos lamentavam a morte da vaquinha e nada tiveram a oferecer para o desjejum, os hóspedes se despediram encetando nova caminhada. Três anos depois, o monge e o seu discípulo chegaram novamente àquele sítio onde ainda morava aquela família. Mas, toda a herdade estava diferente; o casebre fora substituído por uma bela casa de alvenaria, bem maior, com muitos cômodos todos amplos e arejados. Um belo carro de passeio dividia a garagem com uma caminhonete da última série. Muitos animais se fartavam nas pastagens verdejantes próximas da casa. No curral vários bois e vacas de excelente qualidade ruminavam a última ração balanceada disposta nos cochos naquela tarde e quando os visitantes bateram palmas a família toda veio recebê-los à porta sorrindo de satisfação. Percebia-se que os rostos macilentos e a palidez anterior foram substituídos pelo carmim do sangue fluindo na pele denotando que todos estavam bem nutridos e saudáveis. A alegria estampada em cada semblante daquela família mostrava a mudança que havia se operado naqueles três anos. Foi então que o discípulo, pedindo permissão para o mestre, indagou do senhor da casa: - o que aconteceu que tudo mudou por aqui desde a nossa última passagem? O velho pai, sorridente, respondeu: - vivíamos miseravelmente à custa do leitinho da vaquinha que tínhamos. Mas, naquela noite ela caiu no precipício e morreu. Por dois dias ficamos sem nos alimentar só nos lamentando de como viveríamos dali para a frente. Depois do choro, observamos que tínhamos a terra, éramos fortes e que bastava trabalharmos um pouco e haveríamos de produzir alimentos suficientes para nos bastar e até para vender. Plantamos, colhemos fartamente, vendemos as sobras que foram muitas nestes três últimos anos e o resultado é este que os senhores estão vendo. Não ficamos ricos, mas vivemos bem e com fartura. Bendita a hora em que a vaquinha morreu.
O mestre sorriu e o discípulo entendeu a lição daquela madrugada de três anos atrás.
Caio, alegremente, concluiu: - Josué, em tudo na vida é preciso ter vontade e ela só prospera quando se tem liberdade para escolher. Eis uma razão que justifica a Sabedoria Divina que nos legou a Lei do Livre Arbítrio.
O Coordenador leu, então, este trecho de O Livro dos Espíritos:"A questão do livre arbítrio pode resumir-se assim: o homem não é fatalmente conduzido ao mal; os atos que pratica não "estavam escritos"; os crimes que comete não são o resultado de um decreto do destino. Ele pode, como prova e como expiação, escolher uma existência em que se sentirá arrastado para o crime, seja pelo meio em que estiver situado, seja pelas circunstâncias supervenientes. Mas será sempre livre de agir como quiser. Assim, o livre arbítrio existe no estado de Espírito, com a escolha da existência e das provas;e no estado corpóreo, com a faculdade de ceder ou resistir os arrastamentos a que voluntariamente estamos submetidos."
Lá do fundo, com a mão levantada, Lucíola esperava sua vez. Autorizada, perguntou: - então quer dizer que Deus também não é culpado pelo desvio do caminho do Bem de suas criaturas?
Joana respondeu: - Absolutamente, como a Letícia já disse, somos nós os únicos responsáveis por todos os nossos atos e omissões, pois desde o mundo espiritual já planejáramos nossas encarnações com as provas a que queríamos nos submeter quando encarnados, buscando a cada passo a nossa evolução, até atingirmos o grau máximo de perfeição, quando teremos expungido todos os vícios, erros, crimes e trilhado, exclusivamente, o caminho do Bem, cultivando somente virtudes, sendo caridosos, amorosos, fraternais, igualitando-nos com todos os nossos irmãos, sem reservas ou condições, como fez Jesus quando de sua encarnação na Terra.
Então, Caio lembrou-se de uma outra história que exemplifica bem a questão do livre arbítrio. - "Margrit  pelos idos de 1420, era uma jovem alemã que, solteira, começou a recolher órfãos abandonados ou que viviam nas ruas da cidade de Bremen, no norte da Alemanha, causando estranheza na pequena população da época, pois as crianças desapareciam e quando instada a respeito, sempre respondia que um casal de outras vilas, distritos e cidades tinha levado em adoção. Mas, na verdade é que ela as queimava ainda vivas, incinerando-as e espalhando suas cinzas pelos canteiros dos jardins da casa que deveria ser o abrigo natural dos recolhidos. As cinzas, adubo natural, fizeram florescer lindas e apreciadas flores. Assim foi durante aquela encarnação. Conta-se que mais de duzentas crianças desapareceram. A desencarnação de Margrit provocou-lhe sofrimento atroz durante muito tempo no mundo espiritual pela culpa e débito assumidos com tantas vítimas.
Cerca de um século e meio mais tarde, aliviada pelas orientações dos espíritos superiores, Margrit, após um período de convalescença, pode, finalmente planejar nova encarnação. Diante dos espíritos encarregados do planejamento das incursões na carne, entendeu que deveria resgatar seus terríveis débitos, passando pelo Fogo Selvagem (Pênfigo) tão logo atingisse a idade em que recolhera a primeira criança posteriormente sacrificada e iria queimar-se por dentro durante todos os anos restantes de sua encarnação até que atingisse os 79 anos que durara aquela estadia terrena. Escolhera o Brasil para o resgate em face de que essa doença era comum naqueles idos de 1780. Renasceu, em Vila Rica, Minas Gerais, numa família cujos pais tinham sido duas de suas vítimas passadas que, pela grandeza espiritual que detinham, a perdoaram e de forma inconsciente, deram-lhe o mesmo nome anterior - Margrit. Transmitiram-lhe, doce e firmemente, profundas noções de bem, de amor e de misericórdia, além de ensinar-lhe à exaustão, a virtude do perdão das ofensas e o reconhecimento de todo o bem recebido. Margrit não era religiosa, mas guardava no íntimo um sentimento misto de temor do futuro com uma vontade estranha de se ligar e amar crianças sem se importar de onde viessem ou onde estivessem, desde que fossem órfãs e sem família que delas cuidasse.
Nunca se casou, mas, tão logo atingiu a maioridade, já órfã e herdeira de uma bela casa com muitos cômodos, transformou-a em abrigo para órfãos abandonados e crianças de rua e delas cuidou não só alimentando-as, vestindo-as, também educando-as com desvelo e carinho como se fossem suas crias. Com isso, passou-se o limite inicial sem que o Pênfigo atingisse as suas entranhas e como ela continuou a sua faina maravilhosa de amor às mais de duzentas crianças atendidas e bem cuidadas, sua saúde foi irretocável até que atingiu a idade fatal de 79 anos, quando, então, durante feroz tempestade, um raio atingiu a cumeeira daquele abrigo que em poucos minutos ardeu em chamas. Ela, desesperada, recolheu cada criança que ainda ali se encontrava levando-as para fora onde ficaram livres do  perigo, até que, restando apenas um bebê de pouco mais de dois meses, ela agasalhou-o com fraldas e um grosso cobertor para protegê-lo das labaredas e da fumaça, mas, chegando à porta, já exausta, viu que não conseguiria atravessar com o pequeno ser no seu colo e que ambos pereceriam. Então, reunindo suas últimas forças e sentindo que a criança estava bem protegida, atirou-a para longe do alcance do fogo e entregou-se nas mãos do Criador, morrendo em poucos segundos.
Ela que deveria arder por dentro durante longos anos, como nessa encarnação, praticara tantos atos de regeneração, de bondade e de amor, resgatou todo o sofrimento atroz a que se destinara quando do planejamento, queimando-se apenas por fora, depois de desencarnar sufocada pela fumaça que inalara e que destruiu os seus pulmões."
Ultimamente, temos visto e acompanhado memoráveis lições em que inúmeras pessoas utilizaram-se do livre arbítrio para determinar os seus passos na encarnação ou que influenciaram de tal maneira grupos sociais e mesmo países inteiros, ora proporcionando grandes progressos para a humanidade, ora gerando danosas consequências ao bem-estar da sociedade e mesmo motivando desastres econômicos e financeiros empobrecendo sobretudo as classes menos favorecidas.
Infelizmente, muitos povos perderam a sua capacidade de agirem livremente, uma vez que são tangidos como gado de curral. A pusilanimidade jamais conta a favor do covarde, pois ninguém consegue conduzir um povo sem que esse aceite ser tocado. Assim, as responsabilidades se dividem igualmente entre o condutor e os conduzidos.
A Divina Lei do Livre Arbítrio encontra-se em pleno vigor e o Tribunal da Consciência é imparcial e irredutível na cobrança.  Consequentemente, mesmo guiado por estranhos ou conhecidos, sua ação ou omissão será sempre um ato de vontade própria, portanto, cada um é e será sempre responsável por seus atos e ou omissões diante do Criador.